
No lançamento de sua candidatura à Presidência, o tucano José Serra fez ontem o seu discurso mais duro desde o início da pré-campanha, acusando o governo de "montar um esquadrão de militantes pagos com dinheiro público". Na festa, que reuniu cerca de 4 mil militantes em um clube de Salvador, o tucano disse que "essa patota corporativa" exerce uma "patrulha de ideias" para intimidar a oposição.
"Não tenho esquemas, não tenho máquinas oficiais, não tenho patotas corporativas, não tenho padrinhos, não tenho esquadrões de militantes pagos com dinheiro público", discursou.
Os ataques aconteceram um dia depois de a Folha de S.Paulo revelar que um "grupo de inteligência" ligado à campanha da petista Dilma Rousseff quebrou o sigilo fiscal de um dirigente tucano.
Serra comparou, indiretamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Luís 14, autor da máxima "O Estado sou eu".
"O tempo dos chefes de governo que acreditavam personificar o Estado ficou pra trás há mais de 300 anos. Luis 14 achava que o Estado era ele. Nas democracias e no Brasil, não há lugar para luíses assim."
Embora não tenha citado diretamente a montagem de um grupo para a produção de dossiês, Serra criticou o "uso maciço do aparelho e das finanças do Estado". "Num regime democrático, [a oposição] jamais deve ser intimidada e sofrer tentativa de aniquilação pelo uso maciço do aparelho e das finanças do Estado."
Sem citar nominalmente Dilma, Serra fez duas referências a ela: disse que "não caiu de paraquedas" nem começou ontem. E que não tem mal-entendido com o passado, numa alusão sutil à participação da petista em movimentos de guerrilha.
Neocorruptos
Serra chegou a usar a expressão "neocorruptos" para quem comete deslize moral sob o argumento de que os outros também os praticam; mencionou o mensalão, ponto mais vulnerável da era Lula; e acusou o governo de ataques aos órgãos fiscalizadores do governo.
O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra, que discursou antes, atacou diretamente a produção de dossiês. "Não vamos nos aproximar da política dos dossiês", afirmou.
Um dos quatro oradores da convenção que oficializou a candidatura de Serra, o ex-governador de Minas Aécio Neves disse que não se deve desdenhar a democracia e que o país não precisa de "messias". "A eleição de Serra elevará os valores éticos", discursou.
Reunidos em Salvador, os líderes do PSDB, DEM, PPS e PTB participaram do evento. Para não se atrasar, Serra chegou à cidade às 6h. Mas, dessa vez, foram os aliados que atrasaram o início da convenção.
Vice
A frustração no PSDB ficou apenas pela falta de um vice para Serra. A aposta geral dos tucanos é que a definição do companheiro de chapa ficará mesmo para a última hora, quando se encerrar o prazo para o registro da candidatura. Até por falta de alternativa, o vice considerado mais provável hoje é o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE). Com um leque estreito de opções para fechar a dobradinha da oposição, Serra ainda articula em favor de um vice que facilite a composição de palanques nos estados em que os aliados ainda não se entenderam. É nessa linha que o nome do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) ainda é citado como forte alternativa na mesa de negociação.
Com Alvaro na vice, apostam os tucanos, o PSDB garante a adesão do irmão dele, o também senador Osmar Dias (PDT). O objetivo nesse caso é "provocar um estrago" na base de apoio do PT, em um estado com 7,5 milhões de eleitores.



