O rabino Henry Sobel, que nesta quarta-feira despediu-se da presidência da Congregação Israelita Paulista (CIP), promete lançar em março do ano que vem uma biografia que vai causar polêmica na comunidade judaica de São Paulo. Sobel diz que vai contar as traições e as decepções que teve após o episódio do furto de gravatas de grife nos Estados Unidos, quando foi preso em março deste ano. O livro deve ficar pronto exatamente um ano após o caso. Ele disse que vai escrever sobre o roubo, assumir os erros que cometeu e tentar explicar melhor o deslize.
- Também faço questão de revelar as manifestações de solidariedade que recebi - diz ele.
Durante 37 anos, Sobel foi a face da comunidade judaica em São Paulo. À frente da CIP, o rabino tornou-se um interlocutor junto a outras religiões e foi uma das vozes a se erguer contra a ditadura militar.
Sobel diz que alguns capítulos do livro já estão prontos. O rabino, que já tem quatro livros publicados, disse que além dos segredos da comunidade, vai dedicar um capítulo à sua vida familiar, outro para a dinâmica política da comunidade judaica no Brasil e no mundo e um outro sobre o seu relacionamento com o Papa João Paulo II.
Sobel, que viajou com o pontífice em 1993, contou que ajudou a elaborar o documento de reconhecimento diplomático do Estado de Israel pelo Vaticano. Na visita do Papa Bento XVI ao Brasil, em maio, a Igreja Católica manteve o convite para o rabino se encontrar com o pontífice, mesmo após o episódio das gravatas. Foi uma espécie de reconhecimento do trabalho de aproximação de Sobel com os católicos durante quase quatro décadas.
Haverá ainda, segundo ele, uma parte do livro dedicada ao trabalho ecumênico no Brasil e um tributo a três grandes amigos: Dom Paulo Evaristo Arns, Cláudio Hummes e Odilo Scherer, três lideranças católicas. Ele vai contar ainda sobre sua participação na resistência à ditadura militar, sobre o antisemitismo no mundo e na América Latina e promete um capítulo especial sobre as pessoas que marcaram "positiva e negativamente no Brasil".
O rabino garante que vai falar no livro sobre o episódio das gravatas nos Estados Unidos.
- Seria uma omissão não falar sobre esse incidente lamentável na Flórida. Pretendo entrar em detalhes. É uma questão de responsabilidade contar os fatos, assumir os erros e tentar explicar. Na verdade, é difícil explicar o inexplicável, mas vou tentar - disse.
Apesar de ter pedido o afastamento da presidência da CPI, o rabino diz que está participando do processo de escolha do seu sucessor. Ele precisará ter entre 25 e 40 anos. Segundo a CIP, as entrevistas já estão acontecendo. O novo rabino dividirá as funções com outros dois: Yehuda Busquila e Michel Schlesinger.
Sobel garante que não vai se aposentar. Ele foi nomeado rabino emérito e disse que continuará à frente das atividades religiosas. Na prática, o rabino perde poder sobre as decisões da colônia em São Paulo e não poderá mais opinar sobre questões administrativas da Congregação. Ele disse que gastará o seu tempo agora com a criação do Instituto Henry Sobel, uma instituição aos moldes da criada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, onde são feitos debates, lançamentos de livros e eventos.
- Vou deixar de desempenhar o papel administrativo, mas continuarei dirigindo os eventos religiosos, as grandes festas e a comemoração do Ano Novo. Vou escrever minha autobiografia e criar o instituto para promover palestras, debates e lançar novos livros. Será algo no estilo Instituto Fernando Henrique Cardoso, embora em proporções mais modestas - disse o rabino.
Episódio das gravatas abalou prestígio do rabino na comunidadeEm março deste ano, Sobel, que é cidadão americano, foi preso em Palm Beach, na Flórida, acusado de furtar gravatas da grife Louis Vuitton . Pagou uma fiança de US$ 3 mil, mas só foi liberado no dia seguinte, um sábado. O fato de Sobel ter passado o shabat (descanso em hebraico) na cadeia provocou a ira dos judeus conservadores, que consideram o desrespeito a ele uma falta gravíssima. Na internet, a prisão do rabino levou à criação de diversas comunidades no Orkut com comentários sobre o episódio.
O furto foi percebido por um funcionário da loja, que avisou a polícia. No vídeo gravado por câmeras de segurança da loja ficou constatado que ele havia furtado uma gravata, a escondeu, e deixou a loja sem pagar. Foi identificado pouco depois, andando na Worth Avenue. Abordado, negou o furto, mas se ofereceu para pagar a gravata. Em sua sacola estavam quatro gravatas da Louis Vuitton, Giorgio Armani, Gucci e Giorgio's. Sobel contou ter furtado as quatro. Juntas, elas somavam US$ 680.
Um dia depois de o furto ter sido divulgado no Brasil, o rabino foi internado no Hospital Albert Einstein . O hospital informou que ele vinha fazendo uso 'imoderado' de medicamentos hipnóticos e diazepnícos por conta de 'insônia severa'. Segundo os médicos, os remédios poderiam causar 'confusão mental e amnésia'. Em maio, Sobel fechou um acordo com a promotoria de Justiça dos Estados Unidos. Em vez de cumprir pena, se comprometeu a prestar 100 horas de serviços voluntários em instituições de caridade no Brasil.
Quando o furto foi divulgado, ficou decidido que a permanência dele no cargo de presidente da Congregação Israelita Paulista seria avaliada em Israel, pelo Conselho Rabínico Mundial. O novo presidente do rabinato ainda não foi escolhido e deverá ser de Israel ou dos EUA.



