
Quarenta anos depois de ser nomeado prefeito de Salvador, em 1967, Antonio Carlos Magalhães colecionava adversários políticos e contabilizava apenas três derrotas políticas na Bahia, que comandou com mão de ferro e língua afiada.
Os maiores tropeços no estado foram os governos de Roberto Santos (1975-78) e Waldir Pires (1987-89) e a recente vitória do governador Jaques Wagner, eleito em 2006. Por pouco tempo, abandonou a briga política no cenário nacional, onde chegou durante o regime militar e do qual se afastou em 2001, apenas para escapar à cassação de seu mandato de senador. Sua maior perda, porém, acontecera três anos antes: a morte do filho e herdeiro político Luís Eduardo Magalhães, deputado pelo PFL e presidente da Câmara, que em 1998 estava prestes a se candidatar ao governo da Bahia.
ACM era fiel aos amigos e feroz com os inimigos, que o chamavam Toninho Malvadeza, apelido que não o incomodava. Para ele, a alcunha reafirmava seu gosto pelo poder, herdado do pai, Francisco Peixoto de Magalhães Neto - deputado constituinte em 1934, pelo PSD, e deputado federal até 1937, quando o Estado Novo fechou o Congresso.
Antonio Carlos Peixoto de Magalhães nasceu no dia 4 de setembro de 1927, na ladeira da Independência, em Salvador. Começou a carreira como jornalista, aos 16 anos, para depois seguir a primeira profissão do pai, formando-se em medicina, em 1952. Entrou na política apadrinhado por Juraci Magalhães, um de seus antecessores na dinastia que dominou os palácios baianos. Como secretário particular de Juraci, já imprimia seu estilo político em apartes na Assembléia Legislativa, onde defendia seu mestre.
Elegeu-se deputado estadual pela UDN em 1954. Foi líder da bancada e presidente da Comissão de Finanças. Quatro anos depois, elegeu-se deputado federal e Juraci, governador. Apesar de udenista, apoiou o presidente Juscelino Kubitschek, do PSD. Conta o folclore político que telefonava para o presidente todos os dias às 7h. Ganhou o apelido de "despertador de JK".
Na sucessão de Juscelino, ACM mostrou-se um pupilo fiel e apoiou Juraci como candidato a presidente pela UDN contra Jânio Quadros, que venceu a convenção do partido e também a eleição. Fez oposição ao presidente em seu curto mandato (pouco mais de seis meses) e apimentou os discursos contra João Goulart, sucessor de Jânio.
Reeleito deputado federal em 1962, ACM apoiou o golpe militar que derrubou Jango em 1964. A dissolução dos partidos em 1965 e a instituição do bipartidarismo fizeram dele presidente regional da Aliança Renovadora Nacional (Arena).
Abriu mão de novo mandato na Câmara para assumir a prefeitura de Salvador, em 1967, a convite do governador Luís Viana Filho. Foi nomeado seu sucessor, em 1970, por determinação do general Garrastazu Médici, terceiro presidente do regime militar.
Marcou seu primeiro mandato como governador com obras públicas, tal qual já havia feito em sua passagem pela prefeitura de Salvador. Tentou fazer seu sucessor o prefeito que nomeara para a cidade, Cleriston Andrade, mas foi derrotado nas articulações políticas por Roberto Santos.
Para voltar à política, foi nomeado presidente da Eletrobrás. Em 1978, porém, conseguiu voltar ao governo da Bahia. Com a abertura política e a reformulação do sistema partidário, filiou-se ao sucessor da Arena, o Partido Democrático Social (PDS).
Ao fim do mandato, já era o maior cacique da política baiana. Na primeira eleição direta para governador desde o golpe militar, em 1982, a imposição da candidatura de Cleriston Andrade lhe rendeu brigas com aliados e até com o prefeito que nomeara para Salvador, Mário Kertesz. Seu candidato morreu em um acidente aéreo 40 dias antes da eleição, mas o novo nome escolhido por Antonio Carlos - o deputado João Durval, ex-prefeito de Feira de Santana - saiu vitorioso.
Para a eleição indireta à presidência que marcou o fim do período militar, apoiou a candidatura do ministro do Interior, Mário Andreazza, pelo PDS, contra o deputado Paulo Maluf. Andreazza foi derrotado na convenção do partido, mas ACM garantiu seu lugar ao lado do poder, aderindo à dissidência do PDS que formou a Frente Liberal, que depois virou Partido da Frente Liberal (PFL), e apoiou o candidato do PMDB, Tancredo Neves.Auge da carreira no governo Sarney, como ministro das Comunicações
Eleito em 1984, Tancredo morreu antes de tomar posse e o seu vice, José Sarney, assumiu a Presidência da República. ACM foi nomeado para o Ministério das Comunicações e, no auge de sua trajetória política como ministro, retribuiu a escolha de Sarney lutando pelo mandato de cinco anos para o presidente, durante o funcionamento da Assembléia Nacional Constituinte.
Sua importância na Esplanada dos Ministérios não o impediu de sofrer mais uma derrota na Bahia. Em 1986, Waldir Pires superou seu candidato a governador, o senador Josaphat Marinho. Com a saída antecipada de Pires, que disputou a vice-presidência em 1989 na chapa de Ulysses Guimarães, o carlismo voltou a comandar a Bahia com a eleição de ACM ao governo do estado em 1990.
Já durante o governo de Fernando Collor de Mello, defendeu o presidente e a manutenção do seu partido, o PFL, na base do governo. Mesmo após a renúncia de Collor, que deixou o cargo para tentar escapar do impeachment, ACM passou a apresentar denúncias de corrupção contra o governo de Itamar Franco. O resultado seria a instalação CPI do Orçamento.
Em 1994 conquistou uma vaga no Senado, derrotando o adversário histórico Waldir Pires. A eleição de Fernando Henrique Cardoso para a presidência pela coligação PSDB-PFL e a vitória de seu candidato ao governo da Bahia, o vice Paulo Souto, consolidaram seu poder.
No segundo mandato de Fernando Henrique, foi presidente do Senado por duas vezes, de 1997 a 2000, facilitando a aprovação de propostas do governo, embora suas relações com o presidente tenham sido turbulentas.
Em 2001, renunciou ao mandato após denúncias de que teria violado o painel de votações, durante o processo de cassação do senador Luiz Estevão. Manteve a distância por pouco tempo e voltou à Casa em 2002, sendo eleito quatro anos depois para a presidência da Comissão de Constituição e Justiça.
Saúde frágil desde o infarto em 1989
A saúde do senador era frágil desde que sofrera um enfarte, em 26 de fevereiro de 1989, quando foi operado para a colocação de quatro pontes de safena e de mamária. Não bebia, não fumava e fazia caminhadas, mas não abandonou os bombons, apesar de ser diabético.
Em 1999, fez uma biópsia na próstata no Hospital Sírio e Libanês, em São Paulo. Em janeiro de 2000, foi internado no Hospital Albert Einstein, também em São Paulo, para fazer exames de rotina, nos quais foi constatada uma pneumonia. Em 2004, foi internado após passar mal numa festa.
- Vou ao plenário mostrar a cara senão vão dizer que estou morto - disse ele, ao sair do hospital.
Em março deste ano, o senador foi internado no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, com pneumonia e problemas renais. Chegou a ficar quatro dias na UTI. Na ocasião, ficou comovido com a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ao receber alta, anunciou que iria retribuir o gesto do presidente, visitando-o no Palácio do Planalto.



