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Advogada de 84 anos completa mais de meio século de profissão sem parar de trabalhar

Dos botecos à homenagem da Ordem dos Advogados Brasileiros, Iracema de Faria era a única mulher em sua turma de Direito em 1964

Iracema de Faria: dos 84 anos de idade, 54 deles dedicados à profissão. Foto: Dênis Ferreira Neto/Gazeta do PovoIracema de Faria: dos 84 anos de idade, 54 deles dedicados à profissão. Foto: Dênis Ferreira Neto/Gazeta do Povo

Iracema de Faria completou 84 anos em agosto, 54 deles dedicados à advocacia. Não era bem o que ela havia planejado, mas mudar de ideia nunca foi um problema para a rio-branquense de língua afiada. A caçula de cinco irmãs se mudou para Curitiba na década de 1940, onde a mãe abriu uma lanchonete, em busca de um futuro mais próspero que o possível na pequena vila que era Rio Branco do Sul à época.

Petite e mignon, a Iracema adolescente de 1,54m (“Agora estou com 1,52m!”, ressalta) teve sua fase de integrante de fã clube da Emilinha Borba, a rainha do rádio da década de 1950, e chegou a ser eleita miss do grupo. Em 1958, prestes a completar 20 anos, Iracema começou os estudos em um cursinho preparatório para o vestibular em Filosofia. “No mesmo curso tinha muita gente estudando para o vestibular de Direito. Me encantei com esses colegas e resolvi mudar”, conta.

Quem não gostou nada da mudança de curso foi o namorado da época, que estudava para Direito. Ele lhe deu um ultimato: “Ou eu ou o Direito”. Iracema não pensou duas vezes. Meia volta, volver: namoro terminado. Ela foi uma das poucas mulheres a ingressar na Faculdade de Direito da Universidade Católica do Paraná em 1959. Formou-se em 1964, a única moça entre 39 rapazes. Do namorado da época do pré-vestibular, sequer citou o nome.

Os formandos de 1964 da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Paraná: Iracema era a única mulher dentre os 40 alunos. Foto: Arquivo pessoal

Os formandos de 1964 da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Paraná: Iracema era a única mulher dentre os 40 alunos. Foto: Arquivo pessoal

Não era difícil ouvir que as mulheres que tomam decisões por conta própria fossem loucas. Que não batiam bem da cabeça. Que eram meio doidas. Nada mais justo que pensá-las, então, como birutas: resistentes às mais fortes rajadas de vento e que apontavam a direção a ser seguida. A maior lição que legam às mais jovens é que, nas adversidades, ser flexível ajuda a manter sua integridade.

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Sobrenome: trabalho

Iracema começou a trabalhar no Serviço Social da Indústria, o Sesi, com 16 anos, em 1954. O instituto ainda era recente: foi criado em 1946 no Paraná. Foi secretária, assistente, passou pela chefia de recursos humanos e, depois de formada, atuou como advogada. “Por essa razão eu trabalhei muito no direito do trabalho. Quase todos os casos eram de direito da família”, recorda. Ela calcula os anos rabiscando uma folha à sua frente. “Foram 43 anos no Sesi. Foi lá que ganhei meu pão. Olha, eu…” e se interrompe, secando os olhos marejados.

A escassez de mulheres atuando na área nos anos 1960 e 1970 a fizeram passar por algumas saias justas — a expressão é o suficiente para evocar o quanto o desconforto é encarado socialmente como algo natural para a mulher. “Eu estava em uma festa de 15 anos quando me chamaram para tirar um homem do presídio. Fui toda arrumada, evidentemente”, recorda. O preso em questão, parte incrédulo, parte desdenhoso, esbravejou: “Advogada? Quem é a advogada?”. Para Iracema, a afronta não passava de um combustível para seguir adiante: “Essas coisas, em vez de me levarem para baixo, me levavam para cima. Nunca me preocupei com o que outro pensa de mim”.

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Celebrando bodas de níquel com a profissão, é a advocacia que continua a tirando do tédio. Mantém há quase 40 anos a sociedade com Edgard Katzwinkel Junior e de segunda a sexta atende clientes, realiza audiências e corrige petições. “Hoje mesmo eu corrigi três. Eles gostam que eu corrija”, comenta, satisfeita. Um tempo atrás, descendo as escadas do escritório da pisou em falso em um degrau e lesionou o braço esquerdo. “Fiquei quatro meses na casa da minha filha. Meu Deus do céu… tive que assistir televisão. Que castigo”.

A advocacia é o que tira Iracema do tédio (e da preguiça). Quando precisou ficar de molho por quatro meses por uma lesão no braço, sentiu-se de castigo. "Tive que assistir televisão". Foto: Dênis Ferreira Neto/Gazeta do Povo

A advocacia é o que tira Iracema do tédio (e da preguiça). Quando precisou ficar de molho por quatro meses por uma lesão no braço, sentiu-se de castigo. “Tive que assistir televisão”. Foto: Dênis Ferreira Neto/Gazeta do Povo

Iracema nunca parou de estudar: formou-se também em Letras Inglês na década de 1970, fez inúmeros cursos de curta duração na área jurídica e se entregou ao terceiro turno em escritório próprio no final dos anos 1970. À época, saía do Sesi no final da tarde e ia atender clientes particulares. Por anos, também deu aula de inglês em uma escola do Boqueirão. “Chegava em casa meia-noite. Não havia tempo para me envolver com outras coisas. Eu precisava mesmo era ganhar a vida”.

Ela é a queridinha do escritório. Toda hora um “ai a doutora, ai a doutora!”, revela, aos sussurros, o filho que acompanhou a entrevista. Ela é mãe de dois: ngela, dentista, e Rafael, jornalista. Criou-os sozinha depois do divórcio, em 1980. Volta e meia levava as crianças para o Sesi, onde se distraíam na biblioteca enquanto Iracema tratava de papelada. “Meus filhos foram um bálsamo para me levar adiante”, definiu.

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Júbilo, festa e baixa gastronomia

Em 2015, Iracema foi uma das 148 pessoas homenageadas pela Ordem dos Advogados do Brasil por seus 50 anos de exercício ininterrupto da profissão, em uma cerimônia que ela definiu como a “coisa mais linda”. “Camarão desse tamanho. Foi um festão”, resume.

Encontrou colegas de longa data. “Tava o Cleverson Marinho Teixeira, o Edgar Cavalcanti de Albuquerque… O Ramez Amim não pode ir porque tinha feito uma cirurgia”, lamenta. “Mas sempre que ele vem para Curitiba a gente se encontra”. Da última vez, há poucos anos, amanheceram na mesa do bar. No copo, Coca-Cola.

Semanas antes de completar 80 anos, sua filha sugeriu uma festa em uma casa de chá. Acabaram no Canabenta, na Rua Itupava, comendo pão com bolinho. É lá, aliás, que os funcionários do escritório se reúnem no happy hour e, sempre que podem, batem ponto nos festivais de pão com bolinho e carne de onça. Para colocar a conversa em dia com amigos de outros tempos, um almoço no Bar do Alemão ou Madalosso.

Antes de O Torto ser O Torto, outro bar funcionava na esquina das ruas Paula Gomes e Duque de Caxias. Foi lá que comemorou o aniversário de um ano do seu caçula. “Eu sou do boteco até hoje”, assume. “Uma vez eu estava chegando em casa de manhã e minha mãe disse que não era hora de mulher séria chegar em casa. E eu disse: ‘mãe, quem disse pra senhora que eu sou séria?’”.

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