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Comportamento

Uma única voz orienta o canto das centenas de crianças do Coral do Palácio Avenida

Natural de Minas Gerais e apaixonada por canto desde criança, Dulce Primo ajuda a transformar o Natal do Palácio Avenida em espetáculo único

  • PorCarolina Werneck
  • 12/12/2017 16:00
Coral do Palácio Avenida é conduzido pela mesma maestrina há 23 anos. Foto: Marcos Charneski/Tribuna do Paraná.
Coral do Palácio Avenida é conduzido pela mesma maestrina há 23 anos. Foto: Marcos Charneski/Tribuna do Paraná. | Foto: Tribuna do Paraná

Há 23 anos, uma única voz  serve de guia para as mais de cem vozes infantis que fazem o espetáculo de Natal do Palácio Avenida. A dona do timbre suave e acolhedor é Dulce Primo, maestrina nascida em 25 de agosto de 1941 às margens do rio Manhuaçu, junto à Serra do Caparaó, na Zona da Mata mineira.

Muito cedo ela descobriu “a magia da música” e seu poder de espalhar o amor. “A música para nós era, sobretudo, as brincadeiras cantadas ao ar livre. Um outro detalhe muito importante é que eu era de família ribeirinha, então a gente tinha o rio como o limite do quintal“, lembra. Esse é um dos motivos para Dulce se enxergar em cada uma das crianças que coordena durante as apresentações.

Dulce coordena o coral do Palácio Avenida há 23 anos. Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo
Dulce coordena o coral do Palácio Avenida há 23 anos. Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

As conhecidas lavadeiras de Manhuaçu, município a cerca de 300 km de Belo Horizonte, também ajudaram na iniciação musical da maestrina. “Era muito comum elas virem com trouxas de roupas das famílias para lavar, quarar, secar aquelas roupas clarinhas, tudo muito branco. O divertimento das lavadeiras era cantar. E naturalmente elas não cantavam baixinho, cantavam de peito aberto. Essa para mim é uma memória muito boa: o canto.”

Misturando-se às cirandas e às melodias que vinha da beira do rio estavam os rituais católicos, as ladainhas, procissões e terços, o coro cantando em latim durante a missa. “Eu, já de pequena, estava cantando no coral da igreja. Como nunca tinha ido para uma cidade maior que a minha, meu cantar era um cantar livre”, avalia. Até os 18 anos, quando se mudou com a família para Belo Horizonte, ela nunca havia frequentado aulas de música.

Dulce coordena um ensaio no primeiro dia do espetáculo do Palácio Avenida, em 2017. Foto: Marco Charneski/Tribuna do Paraná
Dulce coordena um ensaio no primeiro dia do espetáculo do Palácio Avenida, em 2017. Foto: Marco Charneski/Tribuna do Paraná| Tribuna do Paraná

Vem andar e voa

Embora não tivesse uma educação musical formal, Dulce tornou-se professora de música já na primeira escola em que trabalhou na capital de Minas Gerais. Ela conta que, enquanto os demais professores costumavam conversar entre eles na hora do intervalo, ela ia para o meio das crianças. No pátio, brincava com elas de cantar.

Esse carinho pelos pequenos a acompanha ainda hoje. No meio desta entrevista, feita nas últimas fileiras do teatro do Palácio Avenida, em Curitiba, as crianças que mais tarde estariam às janelas, cantando para 35 mil pessoas passaram dos camarins para uma sala na lateral do prédio, onde tomariam um lanche. Muitas delas desviaram seu caminho para abraçar Dulce, que chamava cada uma pelo nome e se encantava com a naturalidade do comportamento de seus pupilos. “Eles entram aqui sempre como se estivessem chegando pela primeira vez. Olha que delícia. Se fosse um adulto já entraria sério, formal.”

O primeiro canto

De volta ao início dos anos 1960, em Belo Horizonte, ela entrou para o coro da Igreja São José, no centro da cidade. “Eu fui ver a missa das 10h e escutei o coro. Não tive dúvidas, subi e perguntei se podia cantar também. Eu tinha essa espontaneidade de uma menina de interior, não tinha travas, meu senso crítico era pequeno, então para mim aquilo foi natural.” Tão natural que ela não se contentou apenas com o coral católico. Na rua de trás da São José ela descobriu uma igreja metodista e começou a cantar também lá.

Ainda sem saber ler notas, passou na prova para um curso de música oferecido pelo governo mineiro para os professores indicados pelas escolas. “O maestro que estava fazendo a prova tocava no piano e me mandava dar uma quarta. Eu dizia ‘não sei’. Ele percebeu o problema e me perguntou se eu sabia cantar. Eu disse ‘cantar eu sei’. Mas bem assim, criançona, muito limpa e muito honesta na forma de dizer ‘eu não sei nada disso'”, diverte-se Dulce, relembrando uma das etapas da prova.

Hoje é semente do amanhã

Depois de entrar no Ars Nova, o coral da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e viajar por vários países se apresentando com o grupo, ela se casou e foi morar em São Paulo. Só então entrou para a faculdade de música. A partir do segundo ano ganhou bolsa integral por ser a melhor aluna da instituição. Mas, em sua música, a maestrina nunca deixou de ser aquela menina ribeirinha. “O benefício que tive com essa coisa do interior é o de não ter preconceito musical. Para mim, a boa música pode vir do alto da favela ou da beira do rio. É música, é arte se ela te atinge na tua sensibilidade.”

Em 1994, assumiu o comando do coral do Palácio Avenida com uma vontade fundamental: deixar em cada criança a marca do amor. “Aquela criança que eu mantenho comigo lá de Manhuaçu eu quero encontrar neles. A criança é totalmente verdadeira e é movida ao amor, que é minha meta de vida. Eu percebo no olharzinho deles se tem uma tristeza, uma coisa incomodando. Vou, dou um beijo, faço um carinho e consigo perceber o quanto significa para eles ser olhado. Ser olhado, ser reconhecido. É um grupo, mas eu conheço cada um deles.”

Um dos meninos do coral dá um abraço na professora e reclama “ah, passou tão rápido. Pena que semana que vem já acaba”. “Eu não meço esforço de estudo ou de pesquisa para que eles aproveitem o tempo que a gente tem o máximo possível. Sou eu com a minha consciência. Eu preciso fazer mais ainda por eles, buscar outra forma de que eles encontrem mais plenitude aqui dentro”, afirma ela.

Os frutos dessa dedicação ela colhe sempre que ouve histórias de crianças que passaram pelo coral e despertaram para a música. Como a de um menino que cantou com ela há 20 anos. Adotado por italianos, pediu recentemente ao irmão que ficou no Brasil que mandasse um recado à maestrina:  inspirado por ela, virou professor de música na Itália.

“A marca que vem sendo deixada em diferentes intensidades é muito forte. Eu ainda fico surpresa, porque faço naturalmente. É claro que eu não quero machucar nem deixar uma memória afetiva ruim para eles, porque ninguém precisa disso. Então eu busco o amor, a verdade com eles nesse sentido da afetividade.”

"A minha motivação de fazer está na alegria da criança, na simplicidade da crianças", diz Dulce. Foto: Marco Charneski/Tribuna do Paraná
"A minha motivação de fazer está na alegria da criança, na simplicidade da crianças", diz Dulce. Foto: Marco Charneski/Tribuna do Paraná| Tribuna do Paraná

Considerações

Conversar com Dulce Primo é uma dessas experiências de reflexão sobre a vida. O Viver Bem separou algumas considerações da maestrina durante a entrevista; confira:

A percepção da gente nunca é completa. E, se você fica atenta, você sempre pode fazer alguma coisa diferente do que está fazendo.”

“Eu faço todo mundo acreditar, sobretudo nossas crianças, que todos nós podemos. Desde que você seja verdadeiro com você mesmo e que você estude. Eu estudo até hoje.”

“Todo mundo nasce com o poder de cantar, com o poder de fazer música. Ela é para todo mundo.”

“É preciso questionar profundamente até que ponto eu de fato estou amando o que faço ou estou fazendo um papel caricato que minha função me dá.”

“Eu aprendo muito com eles. Eu não seria uma pessoa de 76 anos com capacidade pra cantar com eles, na altura correta deles e não teria a jovialidade que eu tenho se não fossem eles. Eles me dão muito mais, eu só deixo eles serem o que são.

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