Comportamento

Hip hop ajuda idosos a superar perdas e depressão

Flávia Schiochet
14/08/2018 12:00
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Thriller, do Michael Jackson, é uma das coreografias que o grupo prepara para o festival em Piratuba em novembro. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo | Gazeta do Povo

Enquanto vestem suas saias de algodão para dançar carimbó em uma tarde de quinta-feira, duas mulheres conversam:
– Tá apertada. Engordei.
– Você que acha, amiga. Engordou, não.
Com a ajuda uma da outra, ajeitam a peça no corpo antes de subir ao palco. É o segundo número ensaiado pelo grupo naquela tarde: a hora anterior foi dedicada à repetição dos passos de um mashup de “Thriller”, de Michael Jackson, com “This is Halloween”, trilha sonora da animação “O Estranho Mundo de Jack”.
Cassiane Candido, 28, coreógrafa do grupo e desde os 12 anos envolvida com projetos para a terceira idade. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Cassiane Candido, 28, coreógrafa do grupo e desde os 12 anos envolvida com projetos para a terceira idade. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
A coreógrafa Cassiane Candido, de 28 anos, marca o tempo em voz alta antes de voltar ao início da música. “São quatro tempos de oito até chegar no centro. Vamos de novo”, incentiva. O grupo de dança ensaia para apresentar quatro números inéditos no 17º Festival Internacional de Dança da Terceira Idade, em Piratuba, Santa Catarina, em novembro. Os 23 aposentados, com idades entre 54 e 76, treinam às terças e quintas à tarde, num total de seis horas semanais.
O Grupo de Dança Clube da Terceira Idade ensaia uma coreografia com carimbó, ritmo paraense. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
O Grupo de Dança Clube da Terceira Idade ensaia uma coreografia com carimbó, ritmo paraense. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
A aula começa com a turma dando voltas ao redor das cadeiras do auditório até esquentar. Depois, repassam as coreografias. Por fim, alongamento e relaxamento. O principal ritmo é bem incomum para um grupo de dança da terceira idade: hip hop. E o grupo não dança apenas por hobby. “Eles são focados em participar de festivais e competir”, conta Cassiane. A coreógrafa está tentando abrir uma nova turma com foco em atividade física. As aulas do Grupo de Dança Clube da Melhor Idade são gratuitas e para participar, é preciso aguardar abrir vagas no início ou metade do ano.

Descobertas com a dança

Às 15h30 daquela quinta-feira, o ritmo paraense ressoou por todo o auditório da Faculdade Bagozzi, no bairro curitibano Portão. Enquanto as 22 mulheres balançavam as saias, o único homem do grupo agitava-se no meio do palco — como em qualquer outro grupo de dança, os homens são minoria. “No começo eu estava ressabiado e envergonhado. Hoje não quero mais sair”, diz Pedro Maçaneiro, 73, desde 2011 no grupo.
Pedro e Laura estão juntos há cinco anos. Conheceram-se em uma aula de informática para a terceira idade e ingressaram no grupo de dança na mesma época. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Pedro e Laura estão juntos há cinco anos. Conheceram-se em uma aula de informática para a terceira idade e ingressaram no grupo de dança na mesma época. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Pedro entrou no grupo depois de experimentar a inércia da depressão. “Fui casado por 40 anos. Quando ela faleceu, fiquei desesperado. Não queria fazer mais nada, estava desleixado”, relembra. Uma sobrinha o incentivou a procurar as atividades para a terceira idade que aconteciam nas universidades, e acabou cursando informática. Foi onde conheceu “Laurinha”, como ele chama Laura Etsuko Kassaoka, de 69 anos, sua companheira há cinco anos.
Quando começaram o romance, eles haviam acabado de descobrir o grupo de dança de Cassiane. Entraram juntos e incentivam um ao outro a continuar se superando nas coreografias. “Dançar é um desafio para mim porque sou muito tímida. Todo dia penso: ‘será que vou conseguir?'”, confidencia Laura. No entanto, a dúvida não a paralisa. “É muito bom porque além de exercício físico, é bom para a mente. Aprendemos a coreografia, ensaiamos e temos de relembrar toda semana desde o início. Para a nossa idade, isso é muito bom”, comenta.

Os passos até o hip hop

Quando o projeto começou, em 2007, Cassiane passava estilos mais clássicos, como dança de salão. Adotaram o hip hop uns seis anos depois, por uma demanda do grupo para coreografias mais agitadas. “Eles precisam de superação e desafios, então preferem danças mais enérgicas. Quando vamos para os festivais de dança, os jovens adoram, todos aplaudem de pé”, diz.
O ritmo do grupo não diminui nem para as viagens, afinal, a dinâmica para participar de festival é uma verdadeira maratona: as apresentações são à noite, o que faz com que a manhã seja dedicada ao ensaio no palco, com a coreografia repassada durante a tarde. O tempo de coreografia é o máximo permitido pelos eventos, em geral cinco minutos. “Se for menos que o tempo máximo permitido pelo festival eles acham que não fica bom”, ri Cassiane.
O grupo em excursão a Joinville, Santa Catarina: mesmo quando não competem ou se apresentam, a turma se reúne para ir a outros festivais. Foto: Reprodução/Facebook
O grupo em excursão a Joinville, Santa Catarina: mesmo quando não competem ou se apresentam, a turma se reúne para ir a outros festivais. Foto: Reprodução/Facebook
O Grupo de Dança Clube da Melhor Idade existe há 11 anos, tendo oscilado entre 13 e 28 integrantes ao longo do tempo. Começou como um projeto de Cassiane enquanto ela cursava o primeiro ano de Fisioterapia. Desde os 12 trabalhando voluntariamente em casas de repouso e grupos de atividades para a terceira idade, Cassiane sabia que queria trabalhar com saúde preventiva para idosos. “Sempre quis atuar em gerontologia. Pensei que a dança poderia ser uma boa maneira de estimular a atividade física e a saúde preventiva com eles”, conta a coreógrafa.
Há cinco anos, Cassiane conseguiu o apoio das Farmácias Nissei. A empresa paga o salário de Cassiane e empresta o ônibus plotado com um motorista à disposição quando o grupo precisa viajar.

Terceira idade ativa

Ieda, a mais recente integrante do grupo de dança. Intercala as aulas de Cassiane com atividade rítmica, em uma academia. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Ieda, a mais recente integrante do grupo de dança. Intercala as aulas de Cassiane com atividade rítmica, em uma academia. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Definitivamente, o estereótipo de aposentado de pantufas não combina com nenhum dos dançarinos do grupo. Ieda Alves Furtado tem 71 anos e dança desde junho. Até conseguir sua vaga aguardou pacientemente quatro meses. Para não ficar parada, matriculou-se em atividade rítmica. Atualmente intercala os dias da semana entre as duas aulas. “Muda o astral. A gente faz amizades, se entrosa com outras pessoas e vê que é capaz de fazer as coisas”, conta Ieda, que completa 50 anos de casada em janeiro de 2019. “Meu marido viaja com a gente e me acompanha nas apresentações”, conta.
Uma das veteranas da turma, Maria Madalena Domingos da Silva, 76, participa há dez anos das aulas. De 1994, quando faleceu seu marido, até 2002 ela diz que ficou “enclausurada”, sem vontade de sair de casa. Começou a frequentar cursos na PUC-PR naquele ano, aprendendo dança, pintura e coral. Foi lá que conheceu Cassi e passou a integrar o grupo de dança assim que ele foi formado. Em 2014, as aulas de dança passaram para a Faculdade Bagozzi.
A veterana Madá está há dez anos no grupo. "O grupo é muito unido, nós celebramos aniversários, organizamos festa de fim de ano, de Halloween", conta. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
A veterana Madá está há dez anos no grupo. "O grupo é muito unido, nós celebramos aniversários, organizamos festa de fim de ano, de Halloween", conta. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Com as atividades preenchendo todos os dias da semana, Madá — como é chamada pelos colegas — teve alta dos anti-depressivos e mudou seu estilo de vida. “Vendi meu carro, agora só ando de ônibus. Caminho por tudo, adoro dançar”, diz. “O grupo é muito unido, nós celebramos aniversários, organizamos festa de fim de ano, de Halloween”, enumera.
A atividade social intensa é um bônus que grupos como esse permitem a quem perdeu seus melhores amigos e companheiros ao longo dos anos. Funcionando como um espaço para extravasar e para se superarem fisicamente, os integrantes tecem novas redes de contato e apoio, mesmo inconscientemente.
Vanice Garlet é uma das mais entusiasmadas. Serelepe, saltitava durante o ensaio trajando calças bordadas, que destoavam do uniforme da turma. “Pegaram no meu pé, era para ter vindo de calça preta”, diverte-se. “Mas eu sou assim mesmo, estilosa”. Com 57 anos de idade, sete tatuagens e há oito anos no grupo, ela é sobrevivente de uma série de infortúnios que a vida lhe aprontou. Contou sua história sorrindo.
Vanice, a serelepe: "O médico me disse: 'nunca pare de dançar'”, relembra. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Vanice, a serelepe: "O médico me disse: 'nunca pare de dançar'”, relembra. Foto: Fernando Zequinão/Gazeta do Povo
Mãe de três filhos, em outubro de 2010, ela perdeu Fernanda, sua filha de 27 anos. Dois anos depois, o marido, Fernando, faleceu com 58. A filha mais velha, Andressa, mudou-se de Curitiba para o Rio de Janeiro, e o filho mais novo, Guilherme, estava na faculdade. “A casa ficou vazia”, relembra.
Em 2014, umas pontadas próximas ao coração denunciava que havia algo errado. Um raio-x revelou um câncer no ventríloquo entre o pulmão e coração e, na mesa de cirurgia, o médico decidiu fechar os pontos sem mexer no local. “Me deram três meses de vida”, conta. Começou a quimioterapia e, mesmo com o baque do tratamento, não baixou a bola. “Eu me olhava todos os dias no espelho, colocava uma roupa poderosa, meus chapéus maravilhosos. Vinha para cá dançar e me encontrar com as meninas”, relembra Vanice, com carinho.
Dois anos depois do fatídico raio-x, um novo exame mostrou a área totalmente recuperada. “O médico me disse: ‘nunca pare de dançar’”, disse. Não só a atividade fez bem para sua mente e corpo, mas também o clima que os integrantes constroem. “Ninguém aqui nunca me olhou como doente”, completa.
Serviço
Para participar das aulas é preciso aguardar novos horários no começo e no fim do ano e contatar a Cassiane Candido, coreógrafa do Grupo de Dança Clube da Melhor Idade – (41) 9 9562-8062.
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