Jovem autista se forma em medicina e se destaca na profissão

Uma professora da pré-escola chegou a dizer que o menino não aprenderia a ler ou escrever, mas os pais não acreditaram e o estimularam a estudar

Enã Rezende, de 26 anos, trabalha como clínico geral em Rondonópolis, no Mato Grosso, e pretende se tornar neurocirurgião.

Depois de ser diagnosticado com autismo, conviver com colegas que o chamavam de ‘louco’ e até ouvir uma professora da educação infantil dizer que ele não aprenderia a ler ou escrever, o jovem mato-grossense Enã Rezende, de 26 anos, se formou em Medicina, conquistou seu primeiro emprego e agora recebe o carinho dos colegas de trabalho e de centenas de pacientes. “Se ele não fala que é autista, ninguém percebe”, afirma a enfermeira Paula Sela, coordenadora da Unidade de Saúde da Vila Cardoso, em Rondonópolis, no Mato Grosso.

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Paula é supervisora do posto de saúde em que o médico trabalha e afirma que ele é um profissional exemplar. “O Enã realiza consultas bem detalhadas, é estudioso, atencioso e os pacientes gostam muito dele”. No entanto, a enfermeira revela que ficou preocupada quando a Secretaria de Saúde de Rondonópolis informou que um rapaz com Transtorno do Espectro Autista (TEA) faria parte da equipe médica da unidade.

O jovem foi contratado em março deste ano — algumas semanas após se formar em Medicina pela Universidade de Cuiabá (Unic) — e já havia sido recusado em outro emprego devido ao diagnóstico. “Por isso, fiquei bem insegura, sem saber como seria trabalhar com um autista na equipe”, conta Paula, que se surpreendeu com a realidade.

“Ele é um profissional maravilhoso e prova que as pessoas com autismo podem trabalhar em qualquer profissão e ainda se sobressair porque são muito focadas”, garante.

Para Enã, essa oportunidade de atender crianças, adultos e idosos no posto de saúde e em visitas domiciliares é a realização de um sonho e demonstra superação. “Sempre gostei de estudar, mas tinha dificuldade para me relacionar com as pessoas”, relata o rapaz, que precisou de muito esforço durante os seis anos de faculdade para interagir com os colegas e atender seus primeiros pacientes. “Hoje em dia isso já faz parte de minha vida e consigo tirar de letra”, garante o rapaz, que ama o que faz e pretende se tornar neurocirurgião, em breve.

O jovem precisou de muito esforço durante os seis anos de faculdade para interagir com os colegas e atender seus primeiros pacientes. Foto: Estúdio Marães

“Chegar à neurocirurgia é um dos principais objetivos da minha vida, mas também quero casar e ter filhos”, adianta o mato-grossense, que toca piano, flauta, e aproveita as horas de folga para desenhar, escrever e jogar xadrez.

De acordo com sua mãe, a psicóloga Érica Rezende, o garoto sempre gostou de música e era focado nas atividades que desempenhava. Só que alguns detalhes nos primeiros anos de vida do garoto chamaram a atenção da família. “Quando ele começou a falar, percebi que apresentava ecolalia porque a resposta dele sempre era igual à pergunta que eu fazia”, recorda. Além disso, o menino tinha dificuldade para articular algumas palavras, e Érica decidiu procurar um especialista para verificar o problema.

Com dois anos, Enã foi diagnosticado erroneamente com psicose infantil, uma patologia severa que compromete o desenvolvimento da criança no aprendizado e na interação social. No entanto, Érica não concordou com os médicos e começou a pesquisar. “Pensei que ele tivesse autismo, então li muito a respeito do tema e descobri que deveria estimulá-lo para se desenvolver”, relata a psicóloga, que incentivava o filho a desenhar, ler, escrever e tocar instrumentos musicais. “Isso o ajudou e ele foi aprimorando suas habilidades”.

Quando o garoto ingressou na pré-escola, no entanto, a professora chamou os pais para uma reunião e informou que a criança não conseguiria aprender a ler e escrever.  “Ela disse que o Enã não seria alfabetizado e eu fiquei apavorada com essa informação porque eu conhecia meu filho e sabia das habilidades que ele estava desenvolvendo”.

Por isso, Érica matriculou o garoto em outra escola,  também com metodologia tradicional de ensino. “Em dois meses, ele já estava lendo fluentemente”, relata a mãe.

Além disso, o menino era muito curioso e gostava de aprender a respeito do corpo humano. “Quando ele tinha interesse por algum tema específico, começava a questionar sem parar”, recorda Érica, que deu ao filho um livro infantil sobre anatomia e quase se arrependeu. “Ele me obrigou a estudar muito”, recorda, sorrindo.

Enã sofre com autismo de grau leve e se formou em Medicina pela Universidade de Cuiabá (Unic). Foto: Estúdio Marães

Quero ser médico!

Mas, infelizmente, foi um momento triste da infância que despertou no menino a vontade de ser médico. Em 1999, seu pai Joel Bispo do Nascimento morreu em um grave acidente automobilístico ao sofrer traumatismo craniano. A notícia afetou profundamente o garoto e fez com que ele buscasse entender o funcionamento do cérebro humano para evitar que outros pais também perdessem a vida. “O Enã tinha sete anos e só ficava lendo um manual de primeiros socorros antigo. Desde o acidente, seu foco passou a ser a Medicina”.

A criança que já gostava de estudar passou, então, a dedicar-se mais às aulas e até irritava alguns professores com sua insistência. “Se ele apreciava um tema, acabava ‘dando aulas’ sobre o assunto e não sabia quando parar”, relata a mãe, que percebia também a dificuldade do filho para relacionar-se com as pessoas e até olhar para elas.

“Isso era sintoma de autismo, mas o diagnóstico conclusivo só veio quando o Enã tinha 18 anos, após avaliarmos a irmã dele, Isabele, com dois anos e meio”.

De acordo com Érica, sua filha caçula sofre com a doença de grau severo — que apresenta inúmeras limitações e necessita de apoio substancial —, enquanto Enã sofre com autismo de grau leve e precisa de alguns estímulos para vencer as dificuldades de interação social, lidar com comportamentos repetitivos e enfrentar mudanças.

O autista também é focado no que faz, e isso ajudou o garoto durante a educação infantil, Ensino Médio e superior. “Nunca fui um dos melhores alunos da turma, mas me destacava em alguns assuntos e nunca reprovei”, afirma o rapaz, que ingressou na Universidade de Cuiabá (Unic) em 2013 e se formou dia 15 de janeiro de 2019.

Projeto “Autismo na Escola”

Agora, além de trabalhar como médico e sonhar com a especialização em neurocirurgia, Enã também acompanha a família no projeto “Autismo na Escola”, que já passou por 80 instituições do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. “Até o final de 2018 já havíamos alcançado 15 mil pessoas e realizado cerca de 140 palestras”, afirma Érica.

O projeto “Autismo na Escola” começou há três anos para mostrar aos estudantes que é enriquecedor conviver com as diferenças. Foto: Arquivo pessoal/Érica Rezende

Segundo a psicóloga, a ideia surgiu ao perceber a dificuldade que as pessoas têm para conviver com diferenças. “Até chamavam o Enã de ‘louco’ pelo jeito mais rígido dele caminhar e por ser muito quieto. Uma judiação”, relata a mãe, que também sofreu preconceito de adultos.

“Quando o pai dele morreu, pessoas me disseram que estavam com pena de mim porque eu fiquei viúva jovem, com um bebê de colo e um filho bobo. As pessoas julgam pelas aparências”, lamenta.

Essas experiências fizeram com que ela decidisse levar instruções básicas do que é o autismo às escolas do estado, e os resultados começaram a ser percebidos rapidamente. “No dia seguinte à nossa visita, nós já observamos a mudança de comportamento com o colega autista”, comemora a psicóloga, que agora recebe pelo Facebook e pelo site do projeto.diversos convites para falar em hospitais, empresas e outras instituições. “Aos poucos, estamos mostrando como é enriquecedor conviver com as diferenças“, finaliza.

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