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Mãe e filho voltam a dividir lar, após diagnóstico de Alzheimer

“O Alzheimer é desafiador, uma doença da família. E nessas condições laços são testados. Alguns se afrouxam, outros ficam ainda mais atados”, relata Herculano, acompanhado da mãe

O “mandão” Herculano com sua mãe, Bina: cuidados e compreensão para fortalecer laços de família. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.O “mandão” Herculano com sua mãe, Bina: cuidados e compreensão para fortalecer laços de família. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

De três coisas a aposentada Felisbina Pinho Zeri, 84 anos, não esquece. A primeira delas é de que não gosta de seu nome e faz questão de ser chamada apenas de Bina. “A parte do ‘feliz’ deixa comigo”, brinca, corrigindo cada vez que alguém insiste em chamá-la pelo nome completo.

A segunda memória forte é do clima de Ribeirão Preto, cidade onde montou a família de seis filhos, dezesseis netos e dez bisnetos. “Lá fazia um calorzinho gostoso demais”, diz esfregando os braços, recordando do tempo em que trabalhava na Secretaria de Fazenda de São Paulo.

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A terceira memória que insiste em pular em sua cabeça, de tempos em tempos, é o enjoo que sentiu, quarenta anos atrás, ao cheirar uma xícara de café forte, em um aeroporto canadense. “Eu disse para minha amiga, na hora, que eu estava grávida. Era o Herculano chegando”, lembra da gestação do seu caçula. “Eu sabia que estava vindo o meu mandão”, ri.

“Bom, a senhora sempre me obrigava a comer bife de fígado, agora é minha vez de te mandar”, diz Herculano, que trouxe a mãe para morar em casa. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

“Bom, a senhora sempre me obrigava a comer bife de fígado, agora é minha vez de te mandar”, diz Herculano, que trouxe a mãe para morar em casa. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

O “mandão” é um médico, especializado em ultrassom ginecológico, Herculano Renato Zeri, que insiste de hora em hora para a mãe beber água, se alimentar direito e gosta de checar se o visual dela está adequado.

“Bom, a senhora sempre me obrigava a comer bife de fígado, agora é minha vez de te mandar”, devolve com carinho. Há três anos e meio os dois resolveram dividir o mesmo teto, numa cidade muito mais fria do que o interior paulista.

A parceria, eles garantem, vem de longa data. Sempre se deram bem. Mas depois de quinze anos vivendo sozinha, a viúva Dona Bina encasquetou em trocar uma lâmpada e não conseguiu. “Liguei para o Herculano e perguntei se podia vir para Curitiba, morar com ele. Achei melhor assim”, ela conta.

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O reparo elétrico, ao olhar dos filhos, foi apenas o desfecho de uma série de pequenas confusões e trocas no dia a dia. O dinheiro que ia parar dentro da geladeira, o convívio social cada vez mais escasso e os objetos que insistiam em sumir.

Com a mudança também veio o diagnóstico. Ainda em fase inicial, Dona Bina tinha sido acometida pelo Alzheimer, uma doença neurodegenerativa que atinge 1,2 milhões de pessoas no Brasil, de acordo com os dados da associação brasileira de portadores da doença, a ABRAz.

“O Alzheimer é desafiador. Uma doença da família. E nessas condições elos são testados. Alguns se afrouxam, outros ficam mais atados”, resume o filho.

Em pleno auge de seu desempenho profissional e precisando pagar o apartamento recém comprado e reformado, Herculano fez uma série de adaptações para voltar a viver com a mãe. “Cada semana é uma semana e exige uma mudança. Quando ela veio fazia compras sozinha, eu deixava comida e ela tomava a medicação. Hoje a nossa rotina já é toda diferente. Reduzi de 60 para 44 horas semanais minha carga horária, para ter tempo aqui”, ele conta.

Além de tirar os tapetes do apartamento, controlar o frágil equilíbrio das medicações e secar o cabelo da mãe nos dias mais frios, ele garante que o cuidado passa muito mais pelo campo da paciência e do amor. “Para mim não tem efetividade alguma ficar forçando a pessoa a lembrar de alguma coisa e bater de frente para impor uma verdade. O que funciona, no dia a dia, é a tranquilidade. A minha e a dela”, o médico explica.

“Não ter preguiça de repetir algo cinco vezes, saber que o repertório de conversas não vai mudar muito, e, é claro, sempre ter na manga uma ou outra mentirinha de amor”, entrega. “Se ela acorda muito brava e diz que quer voltar para Ribeirão, eu respondo que vamos conversar no outro dia. E aí passa. O segredo é tratar com leveza e racionalizar que quem está falando é a doença e não ela”, conclui.

E quando as séries de televisão passam a não fazer mais sentido, o ritmo dos livros fica confuso ou uma crise psicótica a faz acordar de madrugada para procurar por seus batons, os dois garantem que o melhor remédio possível é passar ainda mais tempo juntos.

“Eu quis que ela viesse para cá para a gente ter isso”, conta Herculano, apontando para a mesa. “Tomar um café juntos, chegar do serviço e conversar, ter o convívio. Isso faz a diferença quando a gente está cuidando de alguém e para mim não tem preço chegar em casa e encontrar minha mãe aqui. Sei que vai chegar um dia que ela vai precisar de cuidados multiprofissionais, mas não é essa a hora. Agora é a hora de ela ficar comigo”, conclui.

Além de tirar os tapetes do apartamento, controlar o frágil equilíbrio das medicações e secar o cabelo da mãe, ele diz que o cuidado passa muito mais pelo campo da paciência e do amor. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

Além de tirar os tapetes do apartamento, controlar o frágil equilíbrio das medicações e secar o cabelo da mãe, ele diz que o cuidado passa muito mais pelo campo da paciência e do amor. Foto: Letícia Akemi/Gazeta do Povo.

A síndrome do cuidador

Doar-se em tempo integral a um ente querido é o principal fator desencadeante de quadros de estresse e depressão, classificado como a síndrome do cuidador. Entidades como a ABRAz, reforçam a necessidade de manter, entre as tarefas diárias, um tempo dedicado a si mesmo.

“É preciso cuidar de quem cuida de alguém”, concorda Herculano ao ser questionado sobre os desafios em sua rotina.

Para garantir certa autonomia, o médico deixa aos cuidados da mãe responsabilidades como escrever uma lista de compras semanais, arrumar as camas e tarefas domésticas leves. “A nossa tendência é querer fazer tudo para eles e isso é errado. É um exercício mental manter suas atividades, dentro do possível”, completa.

Já consigo mesmo, levou mais de dois anos para conseguir voltar a se encontrar. “Tive meus momentos e por isso hoje faço questão de fazer uma atividade física, aprender uma língua nova, regrar minha alimentação. Não por uma questão de beleza e sim pela saúde. Sei que cada um desses fatores pode retardar em até cinco anos a chegada do Alzheimer, então é algo que faço por mim mesmo”, diz Herculano.

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