Casal se divide para se dedicar à ajuda humanitária: “o que é um tempo separados?”

Casal de farmacêuticos participa de missões humanitárias em locais de extrema vulnerabilidade

Eles tiveram que passar o aniversário de Eduardo separados, cada qual em uma missão diferente. Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo.Eles tiveram que passar o aniversário de Eduardo separados, cada qual em uma missão diferente. Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo.

Trabalhar com a saúde do próximo é uma responsabilidade. Quando essa pessoa está em uma situação de risco, como casos de países que passam por catástrofes naturais ou guerras civis, esse comprometimento precisa ser ainda maior.

A vontade de ajudar a população mais vulnerável foi o que levou o casal de farmacêuticos Francelise Bridi Cavassin, 37 anos, e Eduardo da Silva Barbosa, 40 anos, ela paranaense e ele carioca, a buscarem trabalho em projetos humanitários para populações em risco. Os dois participam, periodicamente, de missões da organização Médicos Sem Fronteiras, deslocando-se para vários países do mundo.

Eduardo no Sudão do Sul, em sua 4ª missão, em 2011. Foto: Acervo pessoal.

Eduardo no Sudão do Sul, em sua 4ª missão, em 2011. Foto: Acervo pessoal.

Francelise conta que começou a faculdade de Farmácia com a ideia de se tornar pesquisadora. No último ano de graduação, no entanto, uma experiência fez com que mudasse seus planos.

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Durante um estágio rural, pelo contato com uma população mais desamparada, viu nascer a vontade de conciliar seu conhecimento a um lado mais humanitário.

“Ali, nós ensinávamos coisas simples, como a leitura da bula de um remédio ou do resultado de exame, e já podíamos ver como isso ajudava”, lembra.

A primeira missão

Com esse propósito em mente, ela começou a traçar seus planos e passou a buscar oportunidades em organizações humanitárias. Após ter finalizado as pós-graduações em Farmacologia e Administração Hospitalar, e o mestrado em Microbiologia, Parasitologia e Patologia, recebeu a notícia de que havia sido selecionada para uma missão na cidade de Mon, região de Nagaland, na Índia, pela organização Médicos sem Fronteiras.

No Iêmen, Francelise completou sua 4ª missão pelo Médicos Sem Fronteiras. Foto: Acervo pessoal.

Ela, que foi a primeira farmacêutica paranaense a participar da organização, conta que a aprovação veio no dia 20 de janeiro de 2012, justamente no Dia do Farmacêutico, um presente que guardaria para a vida toda.

Já na primeira missão, deparou-se com uma situação precária que indicaria o grau de dedicação que precisaria ter: o hospital tinha apenas uma seringa para cada dez pacientes.

No fim do dia, a estrutura de alojamentos também em nada lembrava o conforto de casa. “Não havia chuveiro e nem vaso sanitário”, conta. Nenhuma das dificuldades foi suficiente para desanimar a farmacêutica, que só viu sua vocação humanitária aumentar.

“Quando você se dispõe a fazer um trabalho como esse, é preciso ser flexível e ter em mente seu objetivo. Meu intuito ali era usar toda a bagagem que eu tinha para ajudar as pessoas”.

Já Eduardo teve sua primeira missão no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, em 2008. Por 18 meses, ele atuou no local que sofria com a violência urbana e com os conflitos entre policiais e traficantes. “Como eu já havia morado em uma comunidade, eu sabia como lidar com a situação. Mas ainda tinha o choque de ver todos os dias gente armada nas ruas”, lembra.

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Foi ali que ele teve contato com outros profissionais expatriados e que nasceu no farmacêutico o desejo de se dedicar a outros projetos ao redor do mundo. Sua primeira missão pelo Médicos Sem Fronteiras foi no ano de 2010, em Serra Leoa.

O encontro

Nessa época, Francelise terminava seu mestrado e, com o desejo de sair em missões, trabalhou como voluntária na organização ajudando em uma exposição. Um painel trazia o nome dos brasileiros que estavam em projetos e incentiva os participantes a mandarem mensagens de encorajamento.

Prontamente, ela mandou mensagens aos três colegas de profissão. Três meses depois, recebeu um email de Eduardo em agradecimento. Desde então, começaram a se comunicar, unidos pela paixão humanitária e pela profissão. “Foi uma pessoa por quem eu criei muita admiração, pois para mim era incrível poder conhecer um farmacêutico brasileiro trabalhando com algo que era meu sonho.”

A relacionamento ficou mais sério quando Eduardo convidou Francelise para fazer um safári no Quênia. “Era a segunda vez que nos encontrávamos e eu fui parar na África para encontrá-lo”, brinca a farmacêutica.

Eduardo no Nepal, em sua 7ª missão, em 2015. Foto: Bigstock.

Eduardo no Nepal, em sua 7ª missão, em 2015. Foto: Arquivo pessoal

Separados

Como cada projeto, em geral, comporta apenas um farmacêutico, eles precisam se separar para participar dos projetos. “Esse é o maior desafio, mas é tanto amor pela organização que o sacrifício vale a pena”, destaca.

Depois de uma missão em Serra Leoa – dessa vez juntos – voltaram ao Brasil e casaram e se estabeleceram em Curitiba. Mas não deixaram de lado os projetos internacionais. “Nesta última missão, perdi o aniversário de 40 anos dele, o Natal e o Ano Novo”, lamenta a farmacêutica.

Mas com o encorajamento é mútuo, o casal consegue suportar esses desafios. “Ele normalmente me diz: ‘o que é um tempo separado em comparação ao trabalho que você faz nesses lugares?’”.

Saúde primária e educação

Desde 2012, ela já trabalhou em quatro projetos, totalizando quase 20 meses de dedicação: Índia, Serra Leoa, Iraque e Iêmen. Eduardo acumula nove experiências, somando mais de cinco anos de trabalho. Já passou por locais como Serra Leoa, Somália, Sudão do Sul e Nepal.

Enquanto Francelise trabalha com administração hospitalar, Eduardo, que faz parte da coordenação farmacêutica, lida com as questões mais burocráticas, como o controle do estoque das medicações e dos recursos que são levados aos lugares mais remotos.

Eles contam que cada missão é um desafio diferente e a certeza de encontrar uma situação totalmente nova. Em Serra Leoa, os problemas eram as doenças infecto-contagiosas. No Sudão do Sul, a malária e a desnutrição e no Líbano, a questão da saúde primária. Os desafios vão de convencer os pacientes a tomar medicação a ajudar na orientação de cuidados básicos de saúde.

“Na Índia, por exemplo, nós atendemos pacientes com tuberculose e HIV, e precisávamos de doações de sangue. Era um lugar que ninguém conhecia isso, nem imaginavam que uma doação podia salvar a vida de um familiar”, diz Francelise.

Embora não façam o atendimento primário, os farmacêuticos trabalham em contato com a equipe médica e os pacientes, auxiliando nos diagnósticos e no controle da medicação. O número de atendimentos é sempre grande: o trabalha começa de manhã e vai até o início da noite. “No Iraque, por exemplo, o nosso hospital era de trauma. Então, era uma cirurgia atrás da outra, geralmente relacionada a amputação, queimadura ou fraturas”, exemplifica a farmacêutica.

Situação de guerra

Os casos de países em situação de guerra geralmente são os mais singulares. Francelise, que atualmente leciona na universidade, concilia a rotina acadêmica com o trabalho no Médico Sem Fronteiras, especialmente em projetos de emergência como conflitos armados.

“Em 2016, um dia após o Natal, recebi uma ligação da organização perguntando se eu tinha disponibilidade para ir para Mossul, no Iraque, uma região que contava com um número muito grande de feridos de guerra”, conta. “Em 48 horas, estava embarcando”.

Além de Francelise, Eduardo também já esteve em regiões de conflito, como no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e na Somália. Normalmente os profissionais têm total segurança por parte da organização. “Nos hospitais e em todos os lugares onde o MSF atua não se pode entrar armado”, explica Eduardo.

“Na Somália, por exemplo, antes de entrar em um hospital, era necessário passar por um detector de metal”, complementa. Outro fato interessante é que os locais de postos do Médicos Sem Fronteiras são estrategicamente posicionados em regiões seguras onde o conflito passou e as pessoas que precisam de cuidados podem chegar.

Eles tiveram que passar o aniversário de Eduardo separados, cada qual em uma missão diferente. Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo.

Eles tiveram que passar o aniversário de Eduardo separados, cada qual em uma missão diferente. Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo.

 

O sacrifício é grande, mas o resultado compensa, segundo eles. Em boa parte dessas regiões em conflito, como é o caso do Iêmen, local onde a farmacêutica trabalhou em 2018, é hoje considerado o maior desastre humanitário do mundo por conta de uma guerra civil que perdura desde 2005.

“O MSF é muito respeitado nessas regiões de guerra, pois é uma organização neutra. Sem a organização, provavelmente não haveria ajuda médica emergencial”.

Sobre a organização

O trabalho da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) é levar ajuda médico-humanitária para indivíduos afetados por situações de crise em países onde a saúde é negligenciada, seja por um contexto natural ou social. Atualmente, a entidade está presente em mais de 70 países, e tem uma equipe de ais de 45 mil profissionais de diferentes nacionalidades. O financiamento da organização é garantido quase que completamente por doações. Quem tiver interesse em ajudar pode entrar no site www.msf.org.br para mais informações.

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