Pontos com amor: voluntários transformam tecidos usados em roupas para crianças carentes

O projeto iniciou em 2017 no Paraná e já atendeu mais de 700 crianças dos estados de Sergipe, Maranhão e também de Moçambique, na África

pontos-com-amorO projeto iniciou em 2017 em Curitiba e já presentou mais de 700 meninos e meninas dos estados de Sergipe, Maranhão e também da República de Moçambique, na África. Foto Divulgação/Pontos com Amor

Uma vez por mês, cerca de 50 voluntários carregam máquinas de costura, fios coloridos, roupas usadas e retalhos para um trabalho especial.  Juntos, elas usam o tecido das roupas velhas e muita criatividade para preparar vestidos, calças e camisetas novas.

O projeto — intitulado “Pontos com Amor” — iniciou em 2017 em Curitiba, no Paraná, e já presenteou mais de 700 meninos e meninas dos estados de Sergipe, Maranhão etambém da República de Moçambique, na África.00

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“Essas crianças vivem em situações extremamente difíceis e a maioria delas nunca recebeu uma roupa nova ou ouviu alguém dizer o quanto são lindas. Então, a gente tenta levar esse amor em cada peça que desenvolvemos”, afirma a coordenadora do projeto, Lorran Baeumle Gabardo, de 27 anos.

Apaixonada pelo voluntariado, a médica veterinária já atuou em projetos sociais nos países de Guiné Bissau e na Índia, mas também queria fazer algo perto de casa, na capital paranaense.

“Um dia, minha mãe viu uma reportagem a respeito de uma senhora dos Estados Unidos que criava vestidos para crianças a partir de fronhas de travesseiros. Achamos a atitude muito bonita e decidimos fazer algo semelhante”, conta a jovem, que convidou sua tia Célia Maria Mello, de 61 anos, para ajudar. “Como eu não sei costurar, precisava de alguém que ajudasse nessa parte”, brinca.

Célia trabalha na área administrativa de uma empresa no bairro Batel e não teria muito tempo para auxiliar no projeto, mas aceitou dedicar suas horas vagas ao novo desafio e começou a desmanchar camisas masculinas velhas para transformá-las em peças infantis.

“Fizemos os primeiros vestidos a partir dessas roupas usadas e colocamos detalhes coloridos em crochê que a Lorran preparava com a minha filha Elisa. Assim, cada uma ajudava com a sua habilidade”, relata.

Os primeiros 64 vestidos preparados pelas voluntárias foram entregues para crianças carentes de Sergipe. Foto: Divulgação/Pontos com Amor

Inicialmente, as voluntárias focaram somente no preparo de vestidos e enviaram 64 unidades para meninas de um projeto social no município de Porto da Folha, em Sergipe.

“Essa entrega foi emocionante e, depois dela, mais pessoas ficaram sabendo da nossa ideia e começaram a ajudar com mão de obra e doações”, recorda Lorran que, em menos de seis meses, já contava com mais de 10 ajudantes.

A professora e engenheira agrônoma Olinete Rodrigues Gabardo, de 50 anos, é uma delas. Com a agenda apertada devido às aulas de Química para alunos do Ensino Médio e projetos de engenharia que desenvolve, ela não conseguia tempo para sentar e costurar.

“Minha mãe sempre fazia roupas e aventais para doação, e eu aprendi as técnicas olhando ela fazer. Só que a minha máquina de costura estava abandonada aqui em casa”, conta a moradora de Araucária.

No entanto, essa realidade mudou assim que soube do projeto “Pontos com Amor” e decidiu separar parte de seus fins de semana para participar. “Fazendo esses vestidos eu lembrei como minha mãe ficava feliz quando entregava as peças que ela produzia para doação. Hoje eu entendo o motivo de tanta felicidade”, afirma Olinete, que costura cerca de 10 vestidos por mês e vê a atividade como um hobby especial.

“É muito emocionante ver as crianças usando algo que a gente fez com carinho. A alegria delas é indescritível porque realmente valorizam aquele presente, e isso faz muito bem para quem participa da produção”.

As voluntárias se encontram uma vez por mês para trocar experiências, dividir materiais e ensinar técnicas de costura para quem deseja aprender. Foto: Divulgação/Pontos com Amor

Adeus, solidão!

Além da satisfação ao ver o sorriso das crianças, as participantes também se tornam amigas, trocam experiências e encontram no projeto uma maneira de vencer o stress e a solidão. “Eu, por exemplo, fiquei viúva há sete anos e tenho meus filhos casados, então me sentia muito sozinha”, revela a bióloga aposentada Teodora Lappas Gimenez, de 61 anos.

Segundo ela, esse sentimento a acompanhou até que uma amiga a convidou para participar do projeto. “Eu falei que não sabia costurar, mas disseram para eu participar mesmo assim”, relata a moradora do bairro Seminário, que começou a ajudar na confecção das roupas e viu a tristeza desaparecer.

“Primeiro eu aprendi a fazer flores de crochê para enfeitar as peças e depois me ensinaram a costurar. Desde esse dia minha vida virou uma festa e eu não larguei mais a máquina de costura”, afirma Teodora, que participa de todos os encontros mensais do grupo e se sente realizada.  “Agora tenho um propósito de vida”, garante.

As participantes também se tornam amigas, trocam experiências e encontram no projeto uma maneira de vencer o stress e a solidão. Foto: Divulgação/Pontos com Amor

Entregas emocionantes

De acordo com a coordenadora Lorran, essa amizade entre os participantes e a vontade de fazer a diferença fizeram com que o projeto crescesse rapidamente e a produção aumentasse.

“Ainda em 2018 nós enviamos 60 vestidinhos para a cidade de Chapadinha, no Maranhão, e iniciamos a produção de 530 mudas de roupas para meninos e meninas de um projeto de educação infantil em Moçambique”.

A entrega às crianças africanas foi realizada em fevereiro deste ano, quando alguns voluntários pagaram suas passagens aéreas, encheram as malas com roupas confeccionadas pelos participantes do projeto e distribuíram as peças com muito carinho.

“Alguns brasileiros nos mostraram o trabalho que desenvolvem em Maputo, capital de Moçambique, e vimos como aquelas crianças passavam necessidade. Então, escolhemos ajudar e foi uma entrega muito bonita”, conta Lorran.

O grupo preparou 530 mudas de roupas para meninos e meninas de Moçambique, na África.  Foto: Divulgação/Pontos com Amor

Segundo ela, o grupo presenteou todas as crianças do projeto de educação infantil e se emocionou com a situação precária dos estudantes. “Alguns moram e se alimentam em um lixão de Moçambique, e ver aquela situação foi muito impactante”, relatou a médica veterinária, que vestiu as crianças e ficou impressionada com a fala de uma menina.

“Ela era bem pequena e estava muito suja. A gente colocou nela um vestidinho todo colorido, e ela só ficava olhando a roupa nova e falando: ‘que bom que vocês conseguiram achar a gente aqui no meio do lixo’. Aquilo me marcou demais”, recorda a coordenadora.

Os voluntários vestiam as crianças com as roupas novas e se emocionavam com a gratidão delas. Foto: Divulgação/Pontos com Amor

Situações como essa fazem com que ela e os demais voluntários se dediquem ainda mais na produção das peças e incentivem outros a participar. “Não importa se é homem, mulher, jovem ou idoso porque cada um tem uma habilidade e pode contribuir de alguma forma”, afirma a curitibana.

Para ajudar, basta entrar em contato com os voluntários pelo Facebook e informar se poderá contribuir com mão de obra, doações de roupas usadas ou materiais de costura para a confecção das peças.  “E se quiser ajudar de outra forma ou à distância, fale com a gente. Afinal, o primeiro ‘ponto’ é ser proativo”, finaliza Lorran.

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