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O glamour nacional de Carlos Miele
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Quando resolveu olhar-se no espelho, o estilista Carlos Miele não só soube quem era, como conseguiu mostrar a todo mundo o que é que o Brasil tem… Uma bossa colorida, sensual, artesanal e genuinamente popular. Ao internacionalizar-se, descobriu que sua missão era abrasileirar a moda por aí. Seus vestidos viraram, então, objeto de desejo e seu trabalho inspiração para outros criadores que passaram a apostar na moda feita aqui como produto de exportação. Bater um papo com ele sobre a vida, a moda e o mundo não é difícil, desde que se consiga fisgá-lo entre uma viagem e outra. Confira os principais trechos da entrevista.

Como começou sua relação com as roupas?

Durante a infância, passei muito tempo com meu avô, que tinha uma lavanderia. A influência dele foi muito forte na minha vida. Eu me lembro de como ele era cuidadoso com os vestidos de festa e acho que isso acabou despertando meu interesse por roupa. Comecei a trabalhar com moda ainda na faculdade. Vendia as peças que criava para os meus amigos.

De onde você é, onde viveu, o que estudou?

Eu sou paulistano, cresci em uma família ítalo-brasileira, e morei por muito tempo no bairro de Santana. Cursei Administração de Empresas, na Fundação Getúlio Vargas, em SP.

Como é o seu processo de criação?

Penso roupas para que corpos em movimento criem formas e volumes casuais, mudem suas configurações e desvendem uma imprevista sensualidade. A roupa é a criação mais próxima do corpo. É pele, é o que nos protege e é nossa ligação com o universo.

O que inspira você a criar?

A vida e o meu olhar sobre o cotidiano são minhas inspirações. O Brasil é o fundamento do meu trabalho. Quando crio uma roupa penso em traduzir os elementos da nossa rica cultura e a diversidade das paisagens brasileiras.

Para quem você cria suas roupas?

A mulher para quem eu crio é sofisticada, contemporânea e confiante. Ela pode estar em qualquer lugar do mundo, seja no Brasil, na França, nos Estados Unidos… Quando crio, quero celebrar a forma humana e fazer com que as mulheres se sintam lindas e confortáveis no meu design.

Quais são as marcas da brasilidade na sua roupa?

Uma das principais características de meu trabalho é a convergência criativa entre design, artesanato e luxo, criando uma conexão entre mundos que normalmente não se encontrariam. O artesanato brasileiro é riquíssimo e ficava escondido dentro das casas. Ele acabou se tornando uma marca registrada do meu trabalho. Quando você o leva para o prét-à-porter, o trabalho manual, a sensualidade e as cores se tornam alta-costura.

Você é um dos nossos criadores mais reconhecidos fora do Brasil. Como foi o processo de internacionalização da sua marca?

Em 2001 fui convidado para apresentar minhas coleções na Semana de Moda de Londres. Duas temporadas depois, veio o convite para a Semana de Moda de Nova York. Desfilar lá é uma importante porta para o mundo. Hoje a marca Carlos Miele é vendida em mais de 30 países. Conquistar a atenção dos principais editores e críticos internacionais é muito importante. Assim como ter celebridades como Beyoncé, Sandra Bullock, Jennifer Lopez, Rihanna, Alicia Keys, Blake Lively, Camilla Belle, entre outras, vestindo minhas criações. Ter uma celebridade usando uma roupa é tão importante quanto um desfile, pois essa imagem repercute no mundo inteiro.

Como você adaptou a carreira internacional a sua rotina?

Atualmente moro em São Paulo, onde mantenho meu estúdio, e viajo de tempos em tempos para Nova York e Paris, onde estão minhas lojas e showrooms internacionais.

O design brasileiro de moda é reconhecido no exterior?

Hoje há um olhar mais generoso e menos preconceituoso em relação a uma cultura tão contemporânea e viva como a nossa. Somos uma das sete economias emergentes mais importantes do mundo, a Amazônia é o grande “jardim do mundo”. Todo mundo quer conhecer a sofisticação descontraída do Brasil. Entretanto, não é fácil para um designer daqui competir com os grandes grupos de moda do “primeiro mundo”. No mercado internacional, muitas vezes, o Brasil é visto como um país sem tradição e know-how como exportador de design de qualidade. Sem falar que não há referências históricas da moda brasileira, porque ela ainda é embrionária.

Qual é o futuro da moda no Brasil?

Para haver futuro, é preciso estruturar melhor a indústria nacional para aprimorar a qualidade dos nossos produtos, levando nossa produção a um padrão aceito internacionalmente, e reforçar a identidade no nosso produto.

Do que você gosta em termos de moda?

Gosto dos designers japoneses por causa da linda relação e respeito que eles têm com a própria cultura. A cultura japonesa se baseia na negação do corpo, enquanto a brasileira é a afirmação do corpo. O relacionamento natural que temos com o corpo é uma herança dos nossos antepassados indígenas, africanos que se misturaram com os europeus. Admiro, sobretudo, as nossas diferenças.

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