Como as pessoas ajudam bactérias a resistirem aos remédios e criam doenças incuráveis

Tomar antibiótico sem a prescrição médica, por tempo ou na dosagem errada são ações que contribuem com a resistência bacteriana

Uso indiscriminado de antibióticos favorece surgimento de superbactériasErros que os pacientes cometem com os antibióticos favorecem o surgimento de superbactérias (Foto: Bigstock)

As bactérias estão cada vez mais resistentes, e parte da culpa é sua. Interromper o uso do antibiótico antes do tempo previsto, só porque você se sente melhor, contribui para que o micro-organismo sofra mutações e se fortaleça. Da mesma forma, cortar a medicação ao meio, fazer uso de bebidas alcoólicas durante o tratamento e usar o remédio contra condições que não precisam do antibiótico, como as viroses, acabam por forjar doenças mais difíceis de curar.

Quem sofre pode não ser aquela pessoa que desenvolve uma infecção de garganta por ano, mas o tempo corre especialmente contra os pacientes infectados que estão acamados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) nos hospitais. É lá que a resistência bacteriana começa e são essas pessoas que mais sofrem com a falta de medicamentos capazes de combater as novas mutações bacterianas.

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Das bactérias que mais assustam os profissionais de saúde pela resistência, destaque ao “trio calafrio”: Klebsiella pneumoniae, Acinetobacter e Pseudomonas aeruginosa.

De acordo com Flávia Rossi, diretora médica do Serviço de Microbiologia da Divisão do Laboratório Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), esse trio, mais comum em ambiente hospitalar, é capaz de causar infecções importantes no sangue, urina e pulmão.

“O custo social dessa resistência bacteriana é muito alta. Às vezes você busca um órgão para transplante na Amazônia e o paciente daqui acaba morrendo por conta de uma infecção dessas, que não conseguimos tratar”, explica Rossi, durante uma palestra em evento para jornalistas promovido pela farmacêutica Pfizer, no início de novembro, em São Paulo*. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, a partir de 2050, a resistência bacteriana será a causa da morte de 10 milhões de pessoas no mundo, todos os anos. Em comparação, o número das mortes por câncer, anualmente, é de 8,2 milhões. Hoje, as mortes por resistência bacteriana chegam a 700 mil, segundo dados da OMS.

Bactérias pseudomonas são um dos micro-organismos mais resistentes

A resistência da bactéria pseudomona aeroginosa afeta o aparelho respiratório, urinário, queimaduras, e também leva a infecções sanguíneas (Foto: Bigstock)

O que eu posso fazer?

Embora pareça que o combate às novas bactérias cabe apenas às entidades de saúde e à indústria farmacêutica, um novo medicamento leva de oito a 10 anos entre ser produzido, fabricado e comercializado.

Como a velocidade de mutação das bactérias é superior a esse tempo, conforme explica Eurico Correira, diretor médico da Pfizer, nem sempre se consegue produzir um medicamento antibiótico capaz de atuar contra as bactérias antes que elas se fortaleçam. Mas, isso não significa que não haja solução.

“Só um antibiótico novo também não resolve o problema. As ações tem que ser feitas em conjunto”, explica Correia, em evento para jornalistas de lançamento de uma nova medicação voltada ao tratamento contra a bactéria multirresistente Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemase (KPC). 

Aos pacientes, cabe:

Não parar de tomar o antibiótico apenas porque os sintomas sumiram. O medicamento deve ser tomado respeitando o número de dias e o tempo de intervalo entre as doses. Assim, diminui o risco de a bactéria sofrer mutações e se fortalecer com o próprio medicamento.

Não misture o antibiótico com bebidas alcoólicas. Quando tomamos o remédio junto com bebidas alcoólicas, podemos sobrecarregar o fígado — órgão onde o medicamento e a bebida são metabolizados. Além disso, as bebidas tendem a ter um efeito diurético, levando a uma redução na concentração do medicamento no sangue.

Cuidado com a interferência a outras medicações. Os antibióticos podem cortar o efeito de outros remédios, como os anticoncepcionais, reduzindo a ação contraceptiva. Fique atento!

Não quebre o antibiótico ao meio. Embora muitos medicamentos antibióticos sejam grandes e difíceis de ingerir, faça o esforço. Ao cortar o remédio ao meio, você interfere na dosagem e prejudica a ação. Se preferir, prefira o medicamento em sua forma líquida.

Uso errado de remédio favorece surgimento de superbactérias

Continuar o tratamento até o fim e tomar o comprimido na sua totalidade são medidas incentivadas pelos médicos para evitar a resistência bacteriana (Foto: Bigstock)

Não tome antibiótico contra gripes e resfriados. Infecções causadas por vírus não são curadas com o uso do antibiótico. Esse tipo de medicação não tem qualquer ação sobre esses micro-organismos. Procure um médico, que fará a avaliação do melhor tratamento.

Sobrou antibiótico? Não tome novamente. Caso tenha sobrado um comprimido ou dois de um tratamento anterior, não faça uso do medicamento sem uma nova consulta ao médico. Da mesma forma que o remédio pode fazer efeito, ele pode não fazer, por se tratar de uma infecção diferente ou mais resistente.

Não descarte o antibiótico que sobrou. Não faça uso do remédio, mas também não jogue na pia, lixo ou vaso sanitário. Os resíduos, quando em contato com bactérias do solo, rios e mares, favorecem o fortalecimento desses micro-organismos. Leve os medicamentos às farmácias e postos que tenham o programa de coleta.

Vacinação é essencial na prevenção a infecções bacterianas

Outra maneira de evitar a resistência bacteriana é manter a vacinação em dia (Foto: Bigstock)

Vacine-se. Quanto mais protegido você estiver das infecções bacterianas, menor a necessidade de antibióticos.

Só vá ao hospital se for necessário. Reduza as idas aos hospitais apenas a quando for absolutamente necessário. Isso porque os hospitais são locais propícios às bactérias resistentes. Sempre que for, lave bem as mãos, com água, sabão e depois faça uso do álcool em gel. Não toque em sondas, soros ou cateteres e nem deite nos leitos.

Peça pelos exames certos

A ansiedade em sair do consultório médico com o diagnóstico fechado é compreensível, mas nem sempre possível. No caso das infecções por bactérias, a ausência de exames que identifiquem rapidamente qual micro-organismo é o causador da doença faz com que os médicos prescrevam antibióticos de amplo espectro.

“Durante o processo terapêutico, eu posso usar uma bola de canhão para matar uma formiga, ou posso usar um estilingue. Tendo essa informação [de qual é a bactéria] no tempo rápido, o médico consegue escolher a melhor droga”, explica Flávia Rossi, diretora médica do Serviço de Microbiologia da Divisão do Laboratório Central do Hospital das Clínicas da FMUSP.

Em hospitais privados, exames que façam essa identificação rápida são mais comuns que nos hospitais públicos. Na próxima consulta, converse com seu médico sobre a possibilidade de identificar a bactéria causadora antes da prescrição do remédio, caso haja tempo hábil e equipamento disponível para tal exame.

Novo antibiótico para pacientes internados

A partir de 2019, estará disponível aos brasileiros uma nova medicação antibiótica, capaz de atuar contra a bactéria multirresistente Klebsiella pneumoniae produtora de carbapenemase (KPC). Esta é uma das bactérias que mais assustam os profissionais da saúde que atuam em ambiente hospitalar, visto que os antibióticos disponíveis até então não conseguem contê-la.

Comercializada sob o nome Torgena, o medicamento é uma mescla do antibiótico ceftazidima com o inibidor de betalactamase não beta-lactâmico, avibactam. Juntos, conseguem inibir a ação da KPC, além de outras duas bactérias consideradas críticas para a saúde pública: pseudomonas aeruginosa e as enterobactérias produtoras de ESBL (Beta-lactamase de espectro estendido).

O medicamento, já aprovado pela Anvisa, estará disponível apenas para uso hospitalar.

*A jornalista viajou a São Paulo por convite do laboratório Pfizer. 

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