Da gripe espanhola aos wearables: a evolução da saúde e o próximo século

A saúde passou por uma enorme e rápida evolução nos últimos 100 anos. A urbanização constante trouxe melhorias no aspecto sanitário, mas o contato com cada vez mais pessoas fez surgir doenças ainda mais complicadas de tratar

Era 1918 quando o mundo foi pego de surpresa por um vírus que matou de 50 a 100 milhões de pessoas, ou 5% da população da época. Esse foi o primeiro contato da humanidade com a versão H1N1 do vírus Influenza, responsável pela conhecida gripe. Quase 100 anos depois, em 2009, o mesmo vírus da gripe espanhola (ou pneumônica) voltou a atacar, inclusive no Brasil, mas encontrou uma população bem mais preparada para combatê-lo. Vacinas e tratamentos desenvolvidos ao longo do último século provam a evolução rápida da sociedade para encontrar soluções eficazes para os diferentes problemas de saúde.

Foi durante o último século que a varíola, uma das pandemias mais importantes e que vitimou grande parte de civilizações antigas (como os romanos), se tornou a primeira doença a ser erradicada pelo homem, conquista da década de 1980. O feito se deve graças ao desenvolvimento da vacina e de uma confiança na ideia de que era possível prevenir e evitar o surgimento das doenças.

Para quem não percebe a dimensão da conquista, a erradicação dessa infecção é cientificamente comparável à chegada do homem à lua, de acordo com Ligia Bahia, médica doutora em Saúde Pública e com experiência em Saúde Coletiva, além de ser professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“É um controle do homem sobre a natureza! A varíola é uma doença que não existe mais e prova como a saúde pública contribuiu muito não só com o surgimento de vacinas, mas na aplicação de métodos que chamamos de vigilância. Notificamos casos, examinamos e ficamos atentos aos sinais. Tudo isso aconteceu nesses últimos 100 anos e são mudanças enormes”, lembra a professora.

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São outras consequências positivas: o aumento da natalidade, a redução da mortalidade (inclusive de bebês) e a expectativa de vida atingindo idades cada vez maiores em diferentes populações. Os benefícios não são decorrentes apenas dos novos medicamentos, mas de uma nova mentalidade humana. A prevenção, seja pela limpeza dos alimentos antes de consumi-los ou pelo saneamento básico, torna-se um dos pilares para a promoção da saúde.

Há 100 anos, a Gazeta do Povo acompanha a evolução da saúde, levando informação detalhada para população. Foto: Amanda Lüder e Laura Mingoti/pesquisa

“[A saúde no Brasil] evoluiu tremendamente através de vários sistemas e indicadores, dos trabalhos feitos com a água consumida, no controle de qualidade desta água, na saúde ambiental, na drenagem, no saneamento básico. Hoje, há módulos sanitários domiciliares que são disponibilizados aos locais sem condições de implantação de esgoto. É eficaz e eficiente”, cita Mirian Cordeiro Martins Gonçalves Pereira, chefe do serviço de saúde ambiental da Fundação Nacional de Saúde/Paraná (FUNASA/PR), lembrando uma realidade mais local sobre o avanço da saúde.

Ainda no Brasil, a criação do Sistema Único (e universal) de Saúde (SUS) é citado pelas especialistas como um dos mais importantes marcos. Conforme explica a professora da UFRJ, o SUS demonstra uma ruptura com o antigo modelo de atenção à saúde da população, que era privatizante e excludente, para um sistema de cuidado com todos e reconhecido em todo o mundo. “O programa de combate à Aids e a luta antimanicomial, que são sucedâneos ao SUS, também podem ser listados como os marcos mais importantes da Saúde Pública no país”, explica a médica Ligia Bahia.

“A nossa população não sabe, ainda, que qualquer pessoa pode entrar neste prédio [da Funasa] e vir falar comigo, com qualquer pessoa e contribuir com o atendimento à saúde. Existem documentos e ferramentas que fazem com que as demandas da população cheguem aos representantes responsáveis, como as conferências e conselhos municipais de saúde. O SUS pode melhorar com a participação ativa da população”, cita Mirian Cordeiro, representante  da Fundação no Paraná.

Mais pessoas, novas doenças

Ao mesmo tempo em que infecções causadas por micro-organismos são cada vez mais conhecidas e combatidas, outras doenças têm surgido e com tratamentos mais complicados do que uma simples vacina ou um medicamento comprado na farmácia.

Chamada de “doença do século”, a ansiedade atinge 264 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo estima a Organização Mundial de Saúde (OMS). A depressão, outra doença mental considerada um mal dos últimos anos, acomete ainda mais pessoas: cerca de 322 milhões em todo o mundo. Os dados são de 2017.

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Do surgimento de doenças assim, é impossível não relacionar ao espírito da época, onde as pessoas acreditam ser possível curar qualquer coisa. Essa extrema confiança gera culpa e leva aos sintomas de ansiedade. “Toda essa possibilidade de antecipar o diagnóstico, de quase ‘adivinhar’ o dia em que se vai morrer, gera uma sensação de culpa quando algo dá errado. Se você engorda, a culpa passa a ser sua. Se não faz exercícios, a culpa é sua. Está estressado, você é culpado. E nem sempre é. Quem quer ser estressado? Steve Jobs morreu de câncer aos 56 anos, e não foi por falta de cuidado”, explica Ligia Bahia.

A ansiedade e a depressão são chamadas de “doenças do século”. Foto: Bigstock

Vivemos hoje o que os especialistas denominam de hipermedicalização do cotidiano: como muitas pessoas têm acesso a tecnologias e equipamentos que permitem descobrir tudo sobre a própria saúde (da pressão arterial enquanto corre na esteira à taxa glicêmica depois do almoço), acredita-se ser possível – e obrigatório – que a saúde seja sempre perfeita. “E esse modelo fracassa. Embora seja positivo ter acesso a tudo isso, há o aspecto negativo. Todos se sentem doentes o tempo todo. Eu tinha um relógio inteligente que media minha pressão e tive que tirar do pulso porque estava me avaliando o tempo todo e acabei perdendo a noção”, exemplifica a especialista.

Futuro da saúde:êxitos e fracassos

Nos próximos 100 anos, podemos esperar muitos êxitos e avanços para a saúde, especialmente na área de novas tecnologias, que crescem a cada ano. Das ideias mais inovadoras lançadas durante o Consumer Electronics Show (CES) de 2019, a saúde personalizada teve grande destaque. Foram apresentados mais de 620 wearables (tecnologias que facilitam o monitoramento de parâmetros  de saúde, como o fatídico relógio que mede a pressão arterial, frequência cardíaca e contadores de passos), que reforçam a ideia de que as pessoas serão, cada vez mais, as responsáveis pelo próprio cuidado.

Por outro lado, também devemos esperar – e nos preparar para – os fracassos. Um dos movimentos crescentes, inclusive no Brasil, critica a eficácia e a segurança das vacinas. Embora considerada uma das principais soluções no passado, hoje a vacina entra no rol de questionamentos contra a ciência, que também perpassa outras áreas: há quem duvide que a Terra é redonda e que não há segurança nos alimentos geneticamente modificados.

Movimento antivacina vai contra os modelos científicos. (Foto: Bigstock)

“O movimento antivacina é mais amplo. É anticiência, é contra os modelos científicos. A saúde é uma área de muita expectativa, de inovações, de resoluções de problemas. Mas sempre teremos outros problemas que não serão resolvidos, e o movimento anticiência vem muito da insatisfação com esses problemas que não resolvemos, das desigualdades que ainda existem”, explica a médica Ligia Bahia.

36 ANOS SOBRE VIVER E MORAR BEM

As principais evoluções na área de Saúde e Comportamento podem ser acompanhas no Viver Bem, da Gazeta do Povo. Prestes a completar 36 anos, o Viver Bem atravessou várias mudanças, sem perder o foco nas pessoas. Nasceu em julho de 1983, batizado de “Para Viver Bem/ Para Morar Bem”, como um suplemento dentro da Revista da TV, na época um dos principais suplementos da Gazeta do Povo, com o objetivo de “compartilhar experiências positivas” e “dar uma orientação segura sobre os
principais problemas do dia a dia”.

Criada pela jornalista Nereide Michel, estreava com alternativas para cuidar melhor da saúde do cabelo, combater a umidade de casa e substituir o consumo de pão. A partir de 1985 se debruça sobre a moda feminina e masculina com forte investimento na área. Um ano depois, vira de fato um caderno independente e é renomeado de “Viver Bem”. Fiel ao espírito do tempo, quando a datilografia era um grande diferencial profissional, o caderno mostrou tendências como a disseminação do uso de tênis, dos mullets e de todo o estilo new wave.

O Viver Bem passou por várias mudanças ao longo de 36 anos. Na foto uma edição de 2012. Foto: Arquivo Gazeta do Povo.

Ao mesmo tempo, despertou a atenção dos pais, com matérias e colunas sobre o universo infantil. A partir de 1990, a produção de “dossiês” sobre diversos assuntos foi marcante, com capas sobre “o uso do chapéu”, “a importância do pinhão na cultura paranaense” e sobre “os estilos consagrados de decoração”. Na área de saúde, consolidam-se reportagens e colunas de especialistas, que respondiam dúvidas de leitores. Nos anos 2000, com os avanços da internet, a equipe monitora e traduz com rapidez as tendências internacionais em moda e comportamento.

A interatividade com os leitores aumenta e as matérias passam a informar o e-mail dos repórteres, sendo bastante comentadas no site da Gazeta do Povo. A primeira edição do novo século é dedicada à beleza negra. A partir de 2010, o impresso Viver Bem adquire o formato revista e dá um salto de qualidade. Passa a abranger saúde, moda e beleza, animal, terceira idade e casamentos e festas. Hoje, com foco em temas de Saúde e Comportamento, o Viver Bem segue com toda força na internet com audiência média de quase um milhão e meio de visitantes únicos mensais.

A equipe fecha o escopo para turbinar o alcance nessas duas áreas cruciais e expandir a audiência por todo o território nacional. A revista Viver Bem continua sendo publicada bimestralmente pela Gazeta do Povo.

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