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Pesquisa relaciona bactéria encontrada na boca com Alzheimer. Foto: Bigstock
Pesquisa relaciona bactéria encontrada na boca com Alzheimer. Foto: Bigstock| Foto:
Dois novos estudos apontam caminhos inesperados para compreender e tratar o mal de Alzheimer, doença degenerativa do cérebro que afeta mais de 30 milhões de pessoas no mundo ?  e aproximadamente 1,2 milhão de brasileiros ? principalmente idosos. A privação de sono e a presença de uma bactéria que causa infecções na gengiva, segundo as pesquisas publicadas nesta semana, têm correlação estreita com o surgimento da doença e, se controladas, poderiam minimizar seu avanço. Ambas as análises foram coordenadas por pesquisadores de instituições americanas. David Holtzman, da Universidade Washington em Saint Louis, comandou o estudo sobre os efeitos da falta de sono sobre as origens do mal de Alzheimer, que acaba de sair na revista Science. A pesquisa sobre o elo entre a bactéria Porphyromonas gingivalis e a doença, por sua vez, foi liderada por Stephen Dominy, da empresa de biotecnologia Cortexyme, em San Francisco, e está no periódico especializado Science Advances. A participação de pesquisadores de uma empresa no estudo não é por acaso: Dominy e seus colegas Casey Lynch e Andrei Konradi já patentearam drogas que parecem ser capazes de bloquear a ação do micróbio. O que causa o Alzheimer? As raízes da doença de Alzheimer, apesar de terem sido intensamente estudadas nas últimas décadas, ainda não são de todo compreendidas. Em anos recentes, a hipótese que tem ganhado mais força é a de que o problema começa com alterações na proteína conhecida como tau (nome da letra grega equivalente ao nosso T). Muito abundante no interior dos neurônios saudáveis, a proteína tau pode sofrer, em certos contextos, modificações em sua estrutura, à qual se conectam múltiplos grupos fosforil (formados por átomos de fósforo e oxigênio). Quando isso acontece, as moléculas de tau podem se agregar em fibras e filamentos que levam à perda de neurônios e de sinapses (as conexões entre os neurônios). Por mecanismos que ainda não estão totalmente claros, o processo de agregação de moléculas de tau pode se espalhar de sinapse em sinapse, matando paulatinamente as redes de neurônios. É comum que isso comece em áreas do cérebro essenciais para a formação de novas memórias, o que explica os esquecimentos recorrentes de quem sofre do mal de Alzheimer. O processo pode conduzir o paciente à morte. Privação de sono X Alzheimer A conexão com a tau fica mais clara no primeiro estudo, o que envolve privação de sono. Acontece que a proteína é liberada pelos neurônios com mais frequência quando eles estão excitados, com conexões mais intensas nas sinapses, o que tende a ser mais comum durante o estado desperto. Seria de esperar que um processo ainda mais forte de acúmulo de moléculas de tau acontecesse quando um indivíduo fosse impedido de dormir normalmente. Foi exatamente o que os pesquisadores verificaram, primeiro analisando camundongos que foram manipulados manualmente em laboratório para não dormir direito: a presença de tau dobrou nos roedores privados de sono normal. Já em humanos que participavam de um experimento no qual eles alternavam noites de repouso com outras nas quais o sono era periodicamente interrompido, o aumento de moléculas de tau no chamado líquido cefalorraquidiano (fluido presente no cérebro e na medula espinhal) foi de 50%. De quebra, outros experimentos com camundongos que receberam injeções de versões humanas da tau em seu cérebro revelaram que a proteína se espalhou por outras regiões do órgão durante os ciclos de privação de sono.

Bactéria que causa infecção bucal x Alzheimer

A presença da bactéria P. gingivalis, causadora da periodontite crônica (basicamente uma inflamação séria da gengiva e das áreas adjacentes), por outro lado, é um fator de risco já conhecido para o surgimento do mal de Alzheimer. Ainda não havia pistas mais detalhadas sobre a relação causal entre uma coisa e outra, no entanto. Seria concebível que pessoas nos inícios da doença degenerativa acabassem simplesmente descuidando da higiene bucal, sem que a bactéria estivesse ligada ao problema.

Uma toxina produzida pela bactéria é capaz de causar morte de neurônios e de afetar estruturalmente a tau, o que poderia funcionar como gatilho da doença. Novos dados levantados pela equipe de Dominy fortaleceram a ideia de uma conexão causal. A pesquisa, patrocinada pela farmacêutica americana Cortexyme, identificou tanto proteínas quanto DNA da bactéria em praticamente todos os cérebros de pessoas com Alzheimer que estudaram (a frequência em cérebros humanos saudáveis cai pela metade).

Mas, só a presença da bactéria no cérebro dos pacientes não seria suficiente para concluir que ela causa a demência. Isso porque, por vários motivos, como má alimentação ou dificuldade em manter a saúde bucal, pacientes com Alzheimer poderiam desenvolver a bactéria – e não o contrário.

Então, os pesquisadores usaram ratos para demonstrar que a infecção pela Porphyromonas gingivalis levou a uma produção maior de beta amiloide, proteína que se acumula no cérebro de pacientes com Alzheimer. Os especialistas infectaram animais com a bactéria e, em seguida, aplicaram uma droga capaz de diminuir a carga bacteriana.

Com isso, notaram que o medicamento ajudou a bloquear a produção da beta amiloide e a proteger neurônios no hipocampo dos animais, região cerebral responsável pela memória. O estudo foi publicado na revista Science Advances. “A principal conclusão é que há quantidade significativamente maior de enzimas bacterianas tóxicas nos cérebros de pacientes com Alzheimer. A atividade tóxica das enzimas pode ser bloqueada com uma droga”, disse o autor principal do estudo, Stephen Dominy, cofundador da Cortexyme.

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Desafios

Para Rogério Panizzutti, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a pesquisa se insere em um contexto de mais interesse dos cientistas em investigar conexões entre o Alzheimer e agentes infecciosos.

“O desafio do campo é observar se há relação causal entre uma infecção bacteriana ou viral e o Alzheimer. Esse estudo avança ao usar modelos animais, nos quais consegue sugerir causalidade. Mas ainda não dá para ter certeza de que haverá a causalidade em humanos.” Novos estudos, diz, são necessários.

Para Daniel Ciampi, neurologista do Hospital Sírio-Libanês, é provável que vários fatores estejam envolvidos e o estudo é “mais uma pista para pensar a doença”. Embora não seja possível concluir que infecções na boca causam o Alzheimer, manter a higiene, diz, está longe de ser algo em vão. “Um dos pilares do tratamento é ter uma saúde oral adequada. É como se tirasse um estresse inflamatório da jogada. E o paciente pode ter uma melhora parcial.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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