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Eu deveria estar feliz?

Embora ainda seja um grande tabu, falar sobre depressão pós-parto ajuda a família a identificar os sintomas precocemente e buscar o tratamento mais adequado

(Foto: Bigstock)

Falar de depressão pós-parto é tratar de um assunto que ainda é estigmatizado, mas afeta entre 10% a 15% das mulheres até o primeiro ano após o nascimento do bebê. Estima-se que metade das mulheres que sofrem com a depressão pós-parto permanecem em silêncio, sem diagnóstico ou tratamento, de acordo com informações de um estudo publicado em 2009 no The Journal of Perinatal Education.

Entre os motivos está a vergonha de se sentir incapaz ou frustrada naquele momento ou o medo de ficar separada do bebê devido a qualquer comportamento. Em ocasiões extremas, a mulher pode cogitar o suicídio. Algumas acreditam que é um cansaço normal e acabam ignorando os sintomas mais drásticos que chegam com o tempo.

“É difícil para uma mãe admitir que tem algo errado, que está deprimida, em um momento em que todos esperam que se tenha só felicidade”, diz Giana Frizzo, professora da UFRGS e coordenadora de um centro de atendimento a famílias com bebês na instituição.

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Muito além do baby blues

Até 80% das mães com filhos recém-nascidos podem sentir uma melancolia, e que dura por cerca de seis semanas. Essa fase é chamada de baby blues, ou blues puerperal. Os termos em inglês remetem ao momento do nascimento do bebê, acompanhado de expectativas, medos e ansiedade sobre a mudança de vida que a chegada de uma criança implica. Os sintomas incluem variação do humor, tristeza, ansiedade, dificuldade de concentração e dependência da criança ou de algum familiar. Nem sempre ocorre com mães de primeira viagem. Mulheres podem desenvolver a doença após o nascimento dos filhos mais novos.

É normal a mulher se questionar: ‘Como que vai ser a minha vida?’,’Será que tudo isso valeu a pena?’. Esses pensamentos são comuns e, na maior parte dos casos, passageiros. Não precisam de tratamento, fazem parte do processo. A tendência é de que a mulher vá melhorando e que, em até seis meses, tudo esteja normalizado”,  explica Marco Antonio Caldieraro, coordenador do Departamento de Psiquiatria Clínica da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul.

Causa

Quando esses sentimentos devastadores se agravam e persistem é que há indícios de depressão pós-parto. Entre os fatores mais relacionados às causas da doença estão as alterações biológicas, como a flutuação hormonal, e as condições sociais, econômicas e psicológicas durante um período de novidades na vida da mulher e da família. Ambos podem colaborar para o agravamento ou o desenvolvimento de um quadro depressivo.

Durante a gravidez, o organismo produz altas quantidades de hormônios, que atuam no sistema nervoso central. Dois deles são o estrógeno,que serve para estimular o crescimento do miométrio uterino (uma das camadas da parede uterina),e a progesterona, essencial para a manutenção da gravidez, sustentando o endométrio (o revestimento interno do útero). Após o parto, o nível dessas duas substâncias cai drasticamente.

Diversos estudos já abordam os fatores sociais que influenciam na saúde mental de mulheres no período pós-natal e que transcendem os aspectos biológicos.Uma socióloga da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos, em seus estudos, cita a pressão social que exige das mães um papel de super-heroínas,o que elevaria os riscos de desenvolver transtornos psicológicos. A idealização social de como deve ser a maternidade aumenta as expectativas e pode gerar frustrações. Mães que não conseguem amamentar,por exemplo, sofrem com a culpa de não poder atender a uma necessidade do bebê. Também é frequente a sensação de que o controle sobre a própria vida foi perdido, já que a prioridade é cuidar do filho.

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Gravidade
A gravidade do quadro de uma depressão pós-parto pode variar, assim como os sintomas. Alguns deles são:

– Falta de vontade para as atividades diárias ou perda de interesse em coisas que antes eram prazerosas: o mundo perde a graça.
– Temperamento agressivo.
– Excesso de preocupação com o bebê.
– Falta de concentração.
– Possível dificuldade de se conectar com o filho.
– Perda da libido.
– Sentimento de incapacidade para cuidar de si mesmo, da vida profissional e também da criança.
– Perda de sono ou vontade excessiva de permanecer na cama ou dormindo.
– Tristeza constante, sentimento de culpa, ansiedade e choros.

Acompanhamento psicológico ajuda a evitar novos casos

O silêncio sobre a depressão pós-parto reacende uma série de debates em torno da maternidade. A saúde mental das mulheres durante e após a gravidez algumas vezes é subvalorizada durante o pré-natal e depois dos primeiros meses do nascimento da criança. Uma preparação mais realista e informativa sobre a rotina de cuidar de um recém-nascido feita por profissionais ajudaria a esclarecer essas dúvidas e diminuir os riscos de desilusões.

“Ainda há muita idealização e um certo romantismo em torno do que é a maternidade. É importante falar sobre essas questões com o médico que está fazendo o pré-natal ou o acompanhamento. Até mesmo o pediatra pode dar esse auxílio. No Brasil, também vemos que há um medo de se expor ao participar de terapias em grupo, mas isso melhora a relação da mãe com o bebê”, avalia a psicóloga Giana Frizzo.

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Tratamento pode exigir uso de medicação

A depressão pós-parto pode abalar as relações em casa e o vínculo afetivo com os filhos, uma das maiores preocupações das mães. “Se não houver tratamento, (a depressão pós-parto) pode prejudicar a relação entre mãe e filho. Uma criança que não tem um cuidador saudável está sob risco. Uma mãe com depressão pós-parto pode ficar mais irritada facilmente com ela mesma e até achar que o filho chora de propósito para tirá-la do sério.Algumas preocupam-se que aquele amor todo de mãe ainda não veio”, explica a psicóloga.

Por isso,a indicação é buscar atendimento psicológico logo nos primeiros sinais de tristeza, irritabilidade e falta de atenção, para que se comece um tratamento ou terapia de recuperação. A ajuda dos familiares também é fundamental durante esse período: a presença das pessoas mais próximas para a divisão de tarefas e apoio são bem vistos pelos profissionais de saúde. Em certos casos, medicamentos e antidepressivos são indicados após o diagnóstico.

“Nem todos os casos precisam de medicação. Mas os remédios indicados são os mesmos para qualquer caso de depressão. Hoje, há remédios seguros para serem usados durante a amamentação ou a gravidez”, afirma o psiquiatra Marco Antonio Caldieraro.

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Tempo certo de licença-maternidade

Estudos feitos em 2013 por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, indicam que mulheres que retornam ao trabalho antes de um período de seis meses têm maior risco de desenvolver sintomas relacionados à doença. O tempo seria o ideal para a recuperação das mães e a adaptação à nova rotina. Durante a pesquisa, 800 mulheres foram acompanhadas por um ano após o nascimento dos bebês.

Nos Estados Unidos, a maior parte das mulheres permanece afastada do trabalho por apenas três meses, enquanto no Brasil, a licença-maternidade pode ser de seis meses. Nessa semana, a licença-paternidade foi estendida de cinco para 20 dias em alguns casos no Brasil.

Efeitos no bebê

A depressão pós-parto pode prejudicar a interação da mãe com o filho e a estimulação do desenvolvimento do bebê. As crianças podem desenvolver dificuldades para dormir e se alimentar. Se a doença não for tratada, a criança também pode ter atrasos na linguagem ou dificuldade para controlar as emoções durante o crescimento.

Mães em risco – Mulheres que engravidam muito jovens ou que não planejaram a gestação, ou mesmo pensaram em interrompêla, enfrentam chances maiores de desenvolver a doença. Mães de bebês com malformações também têm maior propensão a terem os sintomas, como explica Marcos Wengrover Rosa, chefe do Serviço Médico de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Moinhos de Vento. “O principal fator, no entanto, é o histórico pessoal de depressão. A mulher que já sofre com a doença precisa ter um tratamento adequado, estar bem, antes de planejar uma gravidez”, indica o médico.

A soma de expectativas erradas e de acontecimentos na vida da mulher também podem levar ao quadro. A perda de um emprego ou a falta de ajuda dos familiares na nova rotina podem colaborar. “Algumas mães enxergam que está tudo bem com o bebê e com a vida delas, mas, mesmo assim, não estão bem. Há mães que imaginam que o bebê vai simplesmente ser incorporado à rotina que elas já têm e então acabam ficando com alguma dificuldade de adaptação. Essa visão irreal colabora com o quadro”, diz a psicóloga.

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