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Saúde e Bem-Estar

Já pensou em abandonar as redes sociais? Vício digital também gera “efeito sanfona”

Assim como as dietas, desinstalar aplicativos de redes sociais pode parecer uma atitude benéfica à saúde mental, mas traz prejuízos mais tarde

(Foto: Bigstock)

Desinstalar os aplicativos das redes sociais digitais para depois reinstalá-los não faz bem à saúde mental – muito pelo contrário. Embora períodos de suspensão e distanciamento das redes, o chamado “detox digital”, seja incentivado pelos especialistas, o que geralmente acontece é o retorno total logo em seguida, com a volta também da dependência virtual.

Esse vai e vem, de acordo com Christian Dunker, psicanalista e professor catedrático da Universidade de São Paulo (USP), equivale ao “efeito sanfona” visto principalmente entre quem faz dietas e regimes, sem a orientação dos nutricionistas e nutrólogos. Confira a entrevista com o especialista sobre como manter a saúde mental enquanto faz uso das redes sociais digitais:

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Hoje é comum fazermos um “detox digital”, como forma de reduzir o acesso às redes sociais digitais ou diminuir a dependência da Internet. Tentar excluir o acesso pode trazer benefícios para a saúde mental?

Sim, períodos de suspensão e distanciamento são essenciais para recuperar a capacidade de escuta e a habilidade fundamental de praticar cortes de discurso.

Quais seriam as consequências dessa exclusão temporária das redes?

Temos a fantasia de que vamos perder algo essencial se não lermos aquele e-mail, se não acompanharmos aquele grupo de WhatsApp, se não entrarmos no Facebook. Especialmente com a mudança de algoritmo do Facebook, estamos aderidos a uma repetição de tramas cotidianas cuja função “ocupativa” é enganosa e nos impede de discernir e de escolher o que queremos, qualitativamente para ler ou escutar.

[Excluir temporariamente as redes] abre espaço para a flutuação de afetos e interrompe, por exemplo, a acumulação entrópica da raiva ou do medo. Pensamentos circulares e diálogos imaginários demandam cortes que exigem variações narrativas. E o fluxo constante de ocupação digital dificulta isso.

Em outras entrevistas, você comenta sobre o impacto das redes sociais digitais na “deformação do tamanho do ‘eu’”, e como isso cria um crescimento do nosso ego. Se uma pessoa estiver tão acostumada a essa rotina, é possível voltar à noção anterior?

É possível, mas em geral o que se vê são grandes crises nas quais se fecha todos os aplicativos, para depois voltar à dependência. É o equivalente do “efeito sanfona”, no campo das dietas e regimes.

Conseguiremos voltar ao tamanho não deformado do ‘eu’?

O eu é deformável e deformante por estrutura, não tem tamanho natural. O mais importante são suas fissuras e descompassos, e como lidamos com isso ou como “ocupamos” o vazio de modo improdutivo. Por exemplo, suspendendo o desejo de controlar e manipular nossos efeitos de imagem no outro e seu retorno sobre si.

Um dos impactos desse ‘eu’ deformado seria a redução da empatia por quem não divide os mesmos interesses ou visões de mundo. Essa é uma questão que se discute bastante, especialmente em ano de eleição, como é o caso de 2018 no Brasil. Esse poderia ser um argumento para evitar as redes sociais digitais nesse ano?

Procurar a divergência e a diversidade é essencial.

Dicas gerais de saúde, como fazer exercícios físicos com regularidade, se alimentar de forma equilibrada, evitar o cigarro e as bebidas alcoólicas, podem colaborar com a saúde mental?

São triviais, bem vindos, mas mostram como estamos muito atrasados nesse assunto. A nossa educação digital ainda está abaixo da crítica. Nossa formação para o debate é mínima, nosso reconhecimento social do prazer com o saber ainda é incipiente. O maior espaço cultural do brasileiro ainda é o bar.

Passar um dia todo “produzindo” ou “atingindo as metas” pode trazer prejuízos para a saúde mental?

Péssimo, uma intrusão do modo de vida neoliberal para o modo de vida neoliberal de viver. Quando usamos as “metas” para nos ocupar e as redes para “avaliar” nossas metas, cedo ou tarde acordaremos vazios e sozinhos em meio ao deserto de sonhos que nós mesmos criamos.

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