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Adolfo Sachsida

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Desenvolvimento

A hora e a vez dos economistas de equilíbrio geral

(Foto: Imagem criada por Gemini IA/Gazeta do Povo)

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Quando comecei a estudar economia, em 1990, as grandes estrelas do debate nacional eram todas macroeconomistas. Esse fato devia-se à hiperinflação que assolou o Brasil ao longo da década de 1980 e no começo dos anos 1990.

Com a estabilização, nos anos 2000, um novo perfil passou a protagonizar as discussões: os microeconomistas especializados em equilíbrio parcial, com destaque para os economistas do trabalho e de políticas sociais. No começo de 2010, o foco migrou para os especialistas em contas públicas, mostrando a apreensão crescente da sociedade com o descontrole fiscal que resultou na crise de 2015-2016.

Hoje, as “estrelas de sucesso” entre os economistas ainda residem nos especialistas em contas públicas. Contudo, essa época está para mudar. Um governo competente, experiente e que compreende a importância da consolidação fiscal — como um importante programa para ajudar os mais pobres, via redução da inflação e maior efetividade do gasto público — será capaz de resolver o problema fiscal em um ano e meio.

Contudo, o grande desafio do próximo governo residirá em outra área: os impactos da revolução tecnológica sobre emprego, renda e bem-estar social. Temos o hábito de falar sobre a revolução causada pela inteligência artificial (IA). Mas, a rigor, a IA é apenas a ponta mais visível dessa revolução tecnológica.

Os aumentos nas capacidades de armazenamento e manipulação de dados, o salto nas tecnologias de reconhecimento e análise de imagens, a difusão do uso de robôs em processos produtivos, a queda no preço e a contínua evolução na qualidade de diversos hardwares — tais como drones, câmeras de vídeo, computadores, entre outros —, associadas a um público cada vez mais apto a operar digitalmente, são algumas dessas outras tecnologias que impactam cada vez mais o dia a dia de nossa civilização.

Assim como a máquina a vapor liberou um vasto acúmulo de conhecimento represado, dando origem à Revolução Industrial, a inteligência artificial fará o mesmo em nossa era. Ela dará início à maior transformação tecnológica já enfrentada pela humanidade, com impactos profundos sobre o emprego, a renda e o bem-estar social.

O processo atual espelha o passado, porém em uma magnitude muito superior: teremos um salto no desemprego estrutural, queda abrupta na renda de diversas famílias e profundas implicações na maneira como a sociedade se organiza. No longo prazo, essa transição tende a ser benéfica, repetindo o saldo histórico que ocorreu após a Revolução Industrial; contudo, durante o período de transição e adaptação, os riscos de ruptura institucional e social não podem ser minimizados.

Não é exagero afirmar que a transição do antigo regime para o admirável mundo novo da IA leve mais de 20 anos. Esse é um período longo demais para que as políticas públicas deixem de atuar a fim de minimizar os custos de transição. Em palavras simples, isso significa que precisaremos redesenhar e fortalecer nossos programas sociais, educacionais e de qualificação profissional.

Mais que isso, significa que economistas não podem mais desenhar políticas públicas específicas a um mercado sem levar em consideração seu impacto sobre a coesão social e sobre suas ramificações de equilíbrio geral. Grandes e abruptos saltos de conhecimento, como o gerado pela Revolução Industrial, têm sérias implicações sobre o grau de coesão da sociedade. Rupturas no tecido social podem ter severos impactos negativos de bem-estar.

A história mostra que grandes rupturas sociais frequentemente acompanham períodos de transformação econômica acelerada. A revolução tecnológica que se avizinha tem potencial semelhante, e seus efeitos sobre a coesão social não podem ser minimizados nem relegados a segundo plano.

Aqui vou ser bem claro: sou contra uma reforma da previdência que ignore o desemprego estrutural inevitável provocado pela IA. Com o devido respeito aos meus colegas liberais e fiscalistas, é impossível apoiar o aumento do tempo de contribuição para pessoas que, na prática, sequer terão postos de trabalho à disposição. Pela mesma razão, recuso-me a defender cortes em programas sociais; pelo contrário, todo o meu conhecimento econômico indica que precisaremos de mais recursos nessa área, e não menos.

Vou além: é urgente estabelecermos um programa de renda mínima sólido para suportar a transição entre o modelo atual e a realidade que se consolidará nos próximos cinco anos. Da mesma forma, oponho-me à lógica de onerar a produção; não posso aceitar nenhuma medida que eleve o custo de contratação, sob o risco de agravar ainda mais o impacto severo da revolução tecnológica sobre o mercado de trabalho.

Diante desse cenário, espero ter deixado claro que a época das reformas isoladas acabou. Não é mais possível desenhar políticas públicas, sejam elas quais forem, sem considerar a nova realidade advinda da revolução tecnológica. Não será mais possível desenhar políticas públicas olhando apenas para um setor específico da economia. Cada decisão terá impactos amplos sobre a coesão social, o crescimento econômico e a estabilidade institucional.

É por isso que o próximo ciclo histórico exigirá um novo tipo de economista: economistas capazes de pensar em equilíbrio geral. Profissionais preparados para compreender não apenas mercados individuais, mas o funcionamento integrado da economia e da sociedade. Economistas com visão estratégica, responsabilidade social e compromisso com o futuro.

Essa será a era dos economistas de equilíbrio geral. E os países que compreenderem isso primeiro estarão melhor preparados para liderar o admirável mundo novo que está nascendo.

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