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Começo este texto reconhecendo a qualidade intelectual de dois articulistas da Gazeta, Luciano Trigo e Polzonoff. Leio seus textos com frequência e, mesmo quando discordo, costumo considerá-los estimulantes e bem escritos. Não foi o que ocorreu, contudo, nos artigos em que ambos sustentam que não vale a pena dar a vida por uma causa — ainda que essa causa seja justa.
Causas justas são, por definição, ancoradas em princípios. É precisamente por isso que a tese defendida por ambos me parece equivocada. No caso de Polzonoff, o texto soa deselegante e flerta, ainda que indiretamente, com a ideia de que a covardia poderia ser confundida com virtude. Já Trigo, ao recorrer a Bertrand Russell, sugere que nossas crenças são mutáveis e que, por isso, sacrificar a própria vida por elas seria um erro, pois talvez, se continuássemos vivos, deixássemos de defendê-las.
Comecemos pelo óbvio: a história da civilização é atravessada pelo sacrifício voluntário de pessoas que escolheram morrer em defesa de princípios que julgavam irrenunciáveis. Todos os mártires cristãos fizeram exatamente isso. Teria sido melhor que renegassem sua fé para preservar a própria vida? E se Cristo tivesse recuado diante da cruz? E se São Pedro tivesse optado pela fuga em vez do martírio?
Mas não é preciso permanecer apenas no campo religioso. O que dizer daqueles que arriscaram — e perderam — a vida para proteger judeus da perseguição nazista? Deveríamos minimizar seu sacrifício com o argumento de que, quem sabe, no futuro, poderiam ter mudado de opinião? Há algo profundamente errado em um raciocínio que relativiza a nobreza de quem escolhe se sacrificar para defender a dignidade e a liberdade alheias.
Compreendo a preocupação de Trigo ao lembrar que nem toda causa tida como justa em um momento histórico o permanece depois. Mas aqui é indispensável uma distinção fundamental: dar a própria vida em defesa de princípios não é o mesmo que matar outros em nome deles. O sacrifício voluntário pertence a uma esfera moral completamente distinta da violência imposta.
O episódio que motivou os textos — a declaração da senhora Lúcia Helena Canhada Lopes, que afirmou que teria aceitado morrer ao ser atingida por um raio em uma manifestação em defesa da liberdade — é exemplar nesse sentido. Não me parece correto desmerecer o sacrifício de alguém que aceita se sacrificar em prol da defesa da liberdade de terceiros.
Evidentemente, nem toda circunstância exige — ou justifica — o sacrifício da própria vida. Mas há momentos raros e decisivos em que são pessoas como dona Lúcia que fazem a diferença entre a civilização e a barbárie, entre a liberdade e a escravidão, entre a decência e a covardia. Minimizar a importância dessas pessoas é diminuir todos aqueles que, ao longo da história, deram a própria vida para que hoje pudéssemos viver em liberdade. Como afirmou Ronald Reagan: “A vida não é tão boa, nem a paz tão doce, a ponto de serem compradas ao preço de correntes e escravidão.”
Encerramos este texto com uma verdade simples, gravada em inúmeros monumentos da história: este tributo é dedicado a todos os homens e mulheres livres que se sacrificaram para que outros pudessem ser livres.




