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Muitos não gostam do carnaval. Mas por que o carnaval incomoda tanto algumas pessoas?
Os dados mostram que entre 63% e 73,2% dos brasileiros não “pulam” o carnaval. Um outro estudo mostra que apenas 7,3% das pessoas querem participar dos blocos de rua. Os foliões são uma minoria, e os da geração Z são ainda mais raros, 85% deles não curtem o carnaval. Em nenhum outro país uma porcentagem tão grande de pessoas “desgosta” de uma festa popular como o carnaval.
O simples fato de no Brasil se perguntar “você gosta de carnaval?” já é emblemático. No resto do mundo essa pergunta não existe, e nem faz sentido. Assim como ninguém pergunta “você gosta da Páscoa?” ou “você gosta do réveillon?”, no exterior ninguém “gosta” ou “desgosta” do carnaval, pois ele é apenas uma festa como as outras.
O problema não é o carnaval de rua em si; é a forma como o carnaval é realizado no Brasil
O problema não é o carnaval de rua em si; é a forma como o carnaval é realizado no Brasil. Aqui a festa dura demais (entre o pré-carnaval, o carnaval e o pós-carnaval são cerca de três semanas), ocupa lugares demais da cidade, recebe subsídios estatais demais, tem gente demais e propicia exageros demais. Em resumo, tudo é demais no carnaval. Quem mora em cidades ou bairros onde a festa não é muito forte não é capaz de entender.
Alguns exemplos de excesso são a orgia com mais de 30 pessoas em uma passarela (pública) a céu aberto em Belo Horizonte, brigas generalizadas, o famoso caso do “golden shower” alguns anos atrás, infinitos casos de assédios a mulheres, milhares de pessoas urinando na rua, inúmeros roubos e furtos etc. Nesse período, aumentam o consumo de álcool e drogas, os estupros, os furtos e roubos, as doenças sexualmente transmissíveis, os acidentes de carro e mortes, as violações dos direitos humanos e a poluição.
O carnaval famoso no exterior é o desfile no Sambódromo do Rio de Janeiro, não o carnaval de rua, com todos os seus problemas.
Mas o carnaval não movimenta a economia? É o que dizem, mas a resposta seria “mais ou menos”. Há estudos mostrando o efeito positivo para alguns setores (não todos, nem de longe), mas outras pesquisas destacam impactos econômicos negativos: diminuição do faturamento, absenteísmo, atrasos, menor capacidade de concentração e redução da eficiência operacional na semana seguinte às festividades, e queda da produção.
Se fizer festa melhorasse o PIB, poderíamos parar de trabalhar e fazer festa o ano inteiro! Mas a literatura científica já conhece as consequências disso, e as chama de “couch potato effect”.
A solução, no entanto, existe. Os blocos deveriam ficar parados em praças ou ruas secundárias, de forma a não atrapalhar o trânsito e a economia. Já existem vários que fazem exatamente isso. Afinal, onde está escrito que blocos de rua têm de girar toda a cidade e bloquear vias importantes?
Respeita-se o direito de ir e vir e também se evita que escolas e empresas precisem fechar antes do horário normal por causa da enorme aglomeração e do trânsito. O resto da economia não precisa parar.
Os blocos deveriam ficar parados em praças ou ruas secundárias, de forma a não atrapalhar o trânsito e a economia
Mas não é só uma questão de economia; a moralidade também importa. Há quem creia estar “sambando na cara da sociedade” e transgredindo ao fazer sexo no carnaval. Sinto muito informar essas pessoas que ninguém se escandaliza pelo que fazem fechadas em um quarto. O problema é fazer na rua, à vista dos filhos dos outros. Há uma idade para se descobrir certas coisas. Atos sexuais em espaços públicos já são proibidos; é preciso fiscalizar melhor. Quem quer fazer, que organize festas e blocos em espaços fechados, a pagamento ou não. Visto que movimentam tanto dinheiro, não haverá problema em alugar um espaço e, ali dentro, fazer o que quiserem.
Imagine um carnaval com blocos e divertimento, nas praças, sem atrapalhar o trânsito, sem impedir os outros de trabalhar ou ir ao hospital, sem ninguém urinando na porta da sua casa, sem sexo na rua, sem atrapalhar ninguém. Toda essa polêmica desnecessária acabaria.
Não se trata de gostar ou não de carnaval. Quem não gosta o faz exatamente por causa desses exageros. Quem faz com que muitos não gostem é quem exagera. Trata-se de conciliar o carnaval e a vida dos outros. É possível.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos




