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Adriano Gianturco

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Um país de gente pura?

O celular de Vorcaro: por que no Brasil há tão poucos escândalos sexuais?

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Brasília está em pânico com as imagens e vídeos que Daniel Vorcaro pode ter gravado. (Foto: Imagem criada utilizando Whisk/Gazeta do Povo)

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Já falo disso há anos, escrevi no ano passado e repito agora: não é possível que nunca apareçam escândalos sexuais no Brasil. Minha hipótese é a de que eles existem, mas não se tornam públicos. Alguém deve ter vídeos, fotos, comprovantes de pagamentos, mensagens, gravações e provas de todo tipo, e as está usando para chantagear as autoridades e obter vantagens. Muitas das decisões absurdas que observamos no Judiciário, no Legislativo e no Executivo vêm de chantagem. E parece que agora, com o caso do Banco Master, alguns escândalos sexuais finalmente virão à tona.

No mundo inteiro há escândalos sexuais; o maior de todos, provavelmente, é o caso Epstein. Nos Estados Unidos, tivemos, não muito tempo atrás, o caso entre Bill Clinton e Monica Lewinsky. Mas esse esteve longe de ser o único escândalo. Na década passada, o congressista Anthony Weiner foi pego em várias ocasiões enviando fotos explícitas para mulheres e menores de idade. O ex-senador e ex-candidato à presidência dos EUA John Edwards teve um filho com a amante Rielle Hunter durante a campanha de 2008, quando era pré-candidato democrata, enquanto a esposa tinha câncer. Em 2008, o governador de Nova York Eliot Spitzer renunciou após a denúncia de seu envolvimento com prostitutas. O ator e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger teve um filho com uma empregada doméstica, em uma relação extraconjugal. Em 2009, o senador John Ensign admitiu ter traído a esposa com uma assessora de campanha, também casada. E nem preciso relembrar o notório caso entre John Kennedy e Marilyn Monroe.

A vida sexual das autoridades é uma questão íntima. Mas, quando ela envolve favorecimentos, chantagem e decisões políticas, vira uma questão de interesse público

Do outro lado do Oceano Atlântico não é diferente. Em 1963, na Inglaterra, o ministro John Profumo teve um affair com uma modelo, que ao mesmo tempo tinha um romance com um capitão soviético; o escândalo derrubou não só Profumo, mas também o primeiro-ministro Harold Macmillan. Cecil Parkinson, ministro do gabinete de Margaret Thatcher, engravidou a secretária Sara Keays e abandonou a filha, que nasceu com paralisia cerebral. Na mesma época, o então líder do governo na Câmara dos Comuns, John Major (que depois se tornaria primeiro-ministro), teve um relacionamento com Edwina Currie. Quase todos esses escândalos levaram a demissões.

Em 2011, o então diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn foi acusado de tentativa de estupro contra uma camareira em Nova York; renunciou ao cargo e suas chances de se tornar presidente da França acabaram. O ex-presidente de Israel Moshe Katsav foi acusado de estupro em 2007, renunciou e foi condenado em 2010; no ano seguinte, foi sentenciado a sete anos de prisão. Na Itália, em 2024, o ministro da Cultura Gennaro Sangiuliano admitiu um relacionamento com uma empresária e influenciadora que atuava como sua “consultora”, e teve de se demitir. E todos devem se lembrar das famosas festas “Bunga Bunga” de Silvio Berlusconi.

Em contraste, no Brasil tem havido pouquíssimos escândalos sexuais envolvendo chantagem e favorecimentos comprovados. Não é possível que seja assim! O último presidente da República Velha, Washington Luís, recebeu um tiro de pistola da amante ciumenta em 1928, mas a mídia divulgou o caso como uma apendicite; a amante apareceu morta quatro dias depois. Juscelino Kubitschek teve uma amante fixa – esposa de um deputado! – por 18 anos. O caso só se tornou público depois da morte dele. Será que realmente não acontece mais nada do tipo atualmente? Ou acontece, mas ninguém divulga?

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É difícil de acreditar. O Brasil tem a segunda maior taxa de promiscuidade do mundo (atrás da Austrália) em um estudo do NapLab, que considera fatores como número de parceiros sexuais, idade na qual se perde a virgindade, e presença de doenças sexualmente transmissíveis. E querem que acreditamos que em Brasília sejam todos santos?!

A vida sexual das autoridades é, obviamente, uma questão íntima, de zero relevância política. Mas, quando ela começa a resultar em favorecimentos e chantagem de autoridades, com decisões que afetam a vida de todos nós, usando nosso dinheiro, então sim, ela vira uma questão de interesse público. Uma autoridade que favoreceu alguém ou que tomou decisões por ser chantageada não pode ficar no cargo, e suas decisões têm de ser revistas.

Parece que Daniel Vorcaro tem provas e vai delatar. Vejamos se e o que sai daí. Mas agora, com Photoshop e inteligência artificial, os políticos pegos no flagra terão a desculpa perfeita: dirão que é tudo fake. Podem apostar.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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