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Em São Paulo, os acidentes fatais com motociclistas na “faixa azul”, para uso exclusivo das motos, aumentaram 120% desde sua implantação. Isso acontece porque, sentindo-se mais seguros, os motociclistas estão mais rápidos: a velocidade média subiu de 58,3 km/h para 72,2 km/h. Algo similar acontece com o cinto de segurança e o capacete: com o cinto de segurança, há menos mortos e feridos dentro do carro, mas o número de mortos que estavam fora do carro aumentou. Com o capacete, há menos mortos e feridos, mas mais acidentes.
Em vários países, é obrigatório que as embalagens de remédios sejam difíceis de abrir, para evitar acidentes com crianças que se intoxicam com medicamentos. O resultado? Os pais começaram a deixar essas embalagens mais espalhadas pela casa, tornando-as mais acessíveis às crianças.
Alguns países aumentam os impostos sobre bebidas alcoólicas para inibir o consumo. Mas o consumo não diminuiu; o que aumentou foi a compra de bebidas de pior qualidade, ou mesmo adulteradas. É o chamado “efeito substituição”. O mesmo aconteceu com os canudos de plástico: a prefeitura do Rio de Janeiro os proibiu, na onda da imagem da tartaruga com um canudo no nariz. O que os cariocas fizeram? Trocaram o coco com canudo pelo copo plástico...
Nem sempre as políticas públicas alcançam os resultados desejados; às vezes elas geram até consequências indesejadas
No Brasil, uma nova taxa sobre lucros e dividendos enviados ao exterior entrou em vigor em janeiro. O mercado antecipou o movimento e, só em dezembro de 2025, o envio de lucros ao exterior saltou para US$ 18 milhões, contra US$ 8,8 milhões em dezembro de 2024. Com o imposto sobre grandes fortunas é igual: em todos os casos de cobrança deste tributo, os agentes econômicos se preparam, fazem um planejamento patrimonial e levam o dinheiro para fora, causando efeitos negativos para o país.
Os prédios típicos estreitos e coloridos de Amsterdã, que hoje são cartão-postal da cidade, surgiram porque o Estado começou a cobrar um imposto pela área do terreno. Como resultado, as pessoas começaram a erguer prédios finos, que ocupavam terrenos menores. Nada de planejamento; apenas uma tentativa de evitar tributos elevados.
A política externa de Donald Trump tem consequências intencionais e não intencionais. Para ficarem menos dependentes dos Estados Unidos, o Reino Unido e o Canadá estão se aproximando mais da China; até o acordo entre União Europeia e Mercosul, que estava engavetado, ganhou um impulso graças ao tarifaço.
Na Sicília, que sofria com incêndios florestais, o governo começou a dar um incentivo monetário aos guardas florestais por cada incêndio que apagassem. Eles mesmos começaram a iniciar incêndios. Devem ter aprendido com os cariocas do início do século 20. Em 1903, o Rio de Janeiro vivia uma epidemia de doenças transmitidas por ratos. A prefeitura, sozinha, não conseguia debelar a praga que se espalhava muito rapidamente, e pediu ajuda da população, oferecendo um punhado de dinheiro para cada pessoa que matasse ratos e os levasse à prefeitura. Depois disso, houve gente que começou a criar ratos.
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Na Etiópia, após a construção de uma nova linha ferroviária, os trens atropelaram alguns camelos, cujos donos protestaram, exigindo ressarcimento. O Estado deu a indenização. Parecia sensato, mas por alguma mágica começaram a aparecer ainda mais camelos atropelados por trens. De forma semelhante, na Inglaterra o governo começou a oferecer ajuda financeira a muitas menores de idade com gravidez indesejada, geralmente em situação de vulnerabilidade. Depois que essa política pública foi implantada, os casos de gravidez “indesejada” entre menores de idade aumentaram.
É por isso que a redução da escala 6x1 na base da canetada, e não da negociação livre, prejudicaria os trabalhadores. Ela aumenta o custo para os empresários, que vão descarregá-lo nos preços, gerando inflação e anulando, assim, qualquer ganho.
Todas essas são as chamadas “consequências não intencionais”. Os prêmios Nobel Friedrich von Hayek e Vernon Smith dedicaram vários estudos a esse tema. Nem sempre as políticas públicas alcançam os resultados desejados; às vezes elas geram até consequências indesejadas. Na vida privada todos sabem disso, ninguém precisa ser um prêmio Nobel; existe até a expressão popular sobre o “tiro que saiu pela culatra”. Mas, em política, legisladores e burocratas insistem em não entender.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos




