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Frequentemente a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, é descrita como “conservadora”. Recentemente ela concedeu uma longa entrevista ao New York Times, que a definiu como “conservadora pragmática”. Na verdade, as descrições estão incorretas; ela pertence à corrente chamada de “direita social”, que é diferente do conservadorismo – se a diferença é grande ou não, o leitor haverá de decidir por si.
A direita social nasceu como terceira via entre capitalismo e socialismo, valorizando o comunitarismo, os corpos intermediários (sindicatos, associações profissionais, ordens de categoria) e a intervenção do Estado em nome da coesão nacional. Dentro do Movimento Social Italiano (MSI), essa ala foi representada por Pino Romualdi e, depois, por Pino Rauti, em tensão constante com o setor mais burguês e atlantista do partido. Giorgio Almirante, secretário histórico do MSI e figura que Meloni elogia publicamente como máxima referência, funcionou como síntese entre as duas alas, incorporando nacionalismo, corporativismo e apelos à socialização da economia.
A direita social nasceu como terceira via entre capitalismo e socialismo, valorizando o comunitarismo, os corpos intermediários e a intervenção do Estado em nome da coesão nacional
O teórico Giano Accame, autor do livro que batizou a própria corrente, sistematizou esse pensamento, que se opõe explicitamente ao individualismo liberal, ao socialismo e ao livre mercado. Os princípios da direita social são: Deus, pátria e família; ordem e segurança; corporativismo; justiça social; estatismo; anti-individualismo, anti-livre mercado e anticapitalismo. Junto com esse pacote, atualmente há também uma visão mais dura sobre imigração.
Em 2023, o governo Meloni aprovou um imposto extraordinário sobre os “extra-lucros” excepcionais dos bancos (seja lá o que isso signifique), uma medida de intervenção estatal direta sobre o mercado financeiro. O governo também tem usado com frequência o instrumento do “golden power”, que permite ao Estado interferir em decisões estratégicas de empresas privadas; isso ocorreu na empresa de telecomunicações TIM, na siderúrgica Acciaierie d’Italia (ex-Ilva) e, mais recentemente, na controvérsia sobre a oferta pública de aquisição do banco BPM pela UniCredit – o que chegou a motivar uma carta da Comissão Europeia, questionando se o decreto governamental violava as regras do mercado interno da UE.
No campo do protecionismo, o governo Meloni criou o Ministério da Agricultura e Soberania Alimentar; posicionou-se contra o acordo entre União Europeia e Mercosul (para não desagradar o setor agrícola), proibiu a produção de carne cultivada em laboratório, e tem defendido sistematicamente a marca “Made in Italy”, com barreiras simbólicas e regulatórias – uma política industrial nacionalista, distante do liberalismo e do livre comércio.
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O corporativismo está comprovado pelo fato de que dois eleitorados históricos da direita italiana são os taxistas e os “clubes de praia” (stabilimenti balneari – lidi). Não por acaso, a Itália é um dos poucos países do mundo nos quais o lobby dos taxistas conseguiu de fato inviabilizar o Uber.
É verdade que Meloni já citou Margaret Thatcher, e já declarou que, se fosse inglesa, “provavelmente seria uma Tory”. Mas, observando suas políticas concretas de governo, o que se percebe é um padrão diferente do conservadorismo anglo-saxão, que é bem menos avesso ao livre mercado e ao capitalismo, não foca no corporativismo e ainda menos na justiça social.
Não se trata de crítica, nem um elogio, mas simplesmente de uma questão descritiva doutrinária. Rotular Meloni de “conservadora” no sentido anglo-saxão é etnocentrismo britânico, é um equívoco de tradução política. Suas medidas revelam uma primeira-ministra que herdou da direita social a desconfiança em relação ao mercado livre e a preferência por um Estado ativo na defesa da identidade nacional, da família, mas também das corporações, contra o capitalismo.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



