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Com o início da campanha eleitoral, os candidatos estão declarando o próprio patrimônio à Justiça Eleitoral – a abertura das contas é uma obrigação prevista na Lei das Eleições de 1997. Por um lado, é uma boa regra de transparência; por outro é até perigoso, pois alguns aumentaram tanto seu patrimônio que isso pode gerar incentivos perversos e motivações bastante escusas para entrar na política.
Entre os presidenciáveis, Lula perdeu 35,7% e Romeu Zema ganhou 37,8%; Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado ainda não declaram o patrimônio atual até a publicação da coluna; quanto a Renan Santos, não temos o patrimônio de quatro anos atrás para saber se ele aumentou ou diminuiu.
Em termos porcentuais, alguns dos candidatos que mais aumentaram seus bens foram Nikolas Ferreira (PL, +10.488%), Tarcisio Motta (Psol, +2.337%), Paulo Pimenta (PT, +870%); Chico Alencar (Psol, +399%); João Roma (PL, +298%). Mas também houve quem perdeu patrimônio, como Weverton Rocha (PDT, -45,8%), Ciro Gomes (PDT, -42%), Eduardo Riedel (PP, -22,2%) e Erika Hilton (Psol, -20,1%). No entanto, em termos absolutos, a situação muda muito: alguns têm patrimônio de milhões de reais; outros, de poucos milhares de reais. Políticos em primeiro mandato podem ter grandes saltos se tinham poucos bens antes de serem eleitos em 2022.
O ex-presidente americano Harry Truman dizia que “um servidor público honesto não pode ficar rico com a política”
Erika Hilton declarou um patrimônio de R$ 15 mil, menos que os R$ 20 mil de quatro anos atrás, mas diz-se que suas roupas e joias de grife valeriam quase R$ 200 Mil. Jean Wyllys – sim, ele tentará voltar, agora no PT – também declarou um patrimônio com perdas de 80%, culpando Jair Bolsonaro (claro, a culpa de tudo é dele) por ter sido “obrigado” a sair do país e, com isso, ter perdido renda e patrimônio. Mas, nos últimos quatro anos de Lula, ele também não exerceu nenhum cargo político. Marina Helena teve um aumento de 63% em seu patrimônio, mas ela não tem mandato: em 2022, ela se candidatou à prefeitura de São Paulo e agora será candidata à Câmara dos Deputados; portanto, ganhou esse dinheiro no mercado, livremente.
Além das curiosidades dos dados, qual a moral da história?
Obviamente, ganhar dinheiro legalmente não é um problema – nem para quem tem mandato, nem para quem não exerceu nenhum cargo político desde 2022. Éimportante lembrar que o patrimônio de alguém pode aumentar por doações ou herança; e o fato de o patrimônio de um político não ter aumentado significa pouco, pois parentes ou “laranjas” podem ter enriquecido. O ponto é que alguns desses ganhos são tão grandes que podem gerar suspeitas e incentivos perversos.
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Considerando a taxa Selic e os juros compostos, nesses últimos quatro anos deixando dinheiro investido, o ganho seria de cerca de 74%; acima disso, os valores foram bem investidos; abaixo disso, houve más escolhas. E, ainda que tenha sido tudo perfeitamente legal, onde esses políticos encontraram tempo para investir tão bem assim? Será que não tiraram tempo da atividade para a qual foram eleitos e pela qual são pagos? Será que não têm relações escusas com empresários? Será que não receberam favores (e, se receberam, em troca de quê)? E, por fim, compare agora esses números com os seus. Seu patrimônio cresceu tanto assim?
Se em política se ganha muito dinheiro, temos um problema. Se em política se ganha mais dinheiro que em outras atividades, temos um problema ainda mais grave, porque isso indica que temos um “desvio de cérebros” de atividades produtivas para a política. E significa também que a política passa a ser vista como fonte de dinheiro, o que atrai as pessoas erradas, pelos motivos errados.
O ex-presidente americano Harry Truman dizia que “um servidor público honesto não pode ficar rico com a política”. Querer usar um mandato para enriquecer é, no mínimo, uma péssima sinalização e um péssimo incentivo. Quando a política é vista como uma forma de fazer dinheiro, de subir na vida, de se afirmar, o problema é sério. Os incentivos perversos e a corrupção moral da máquina política são tamanhos que esse é só um dos vários casos que nos lembram sempre a mesma coisa: o sistema é podre.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Adriano Gianturco é professor, doutor em Ciência Política, coordenador do curso de Relações Internacionais do IBMEC e autor dos livros “Mentiram para nós sobre o Brasil”, “A Ciência da Política” e “O empreendedorismo de Israel Kirzner”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



