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Não temos um segundo de paz. Meses atrás, surgiu o boato sobre a camisa vermelha da seleção de futebol – primeiro, disseram que era fake news; depois, soube-se que a ideia de fato havia sido considerada. Agora, nosso uniforme para a Copa será amarelo, mas botaram nele um “Brasa”. Uma história tão mal contada que é difícil acreditar que seja um erro casual, e que não haja alguma loucura por trás, ainda mais com o histórico da camisa vermelha.
Depois, na onda de vários casos recentes e de grande comoção envolvendo homicídios e estupros, veio o PL da Misoginia. É um perfeito exemplo de “panic legislation”: uma legislação aprovada no calor de um grave evento, e que geralmente não ataca na raiz do problema. Como se estupros e homicídios fossem consequência da misoginia! Os mesmos que desejam prender os outros por falas são os que defendem o tempo todo a soltura de quem mata e estupra. O objetivo é colocar todos contra todos, um contra o outro.
Quando temos uma legislação que endurece as penas contra a “misoginia” e ao mesmo tempo redefine o conceito de mulher, podemos ter certeza de que o objetivo real é este último, não aquele primeiro. Um verdadeiro “jabuti”, como se chamam os incisos inseridos em um projeto maior e que nem sempre têm ligação com ele. Como fizeram com a “Lei Felca”, que inclui várias formas de controle das redes sociais ao lado da proteção on-line das crianças.
O PL da Misoginia é um perfeito exemplo de “panic legislation”: uma legislação aprovada no calor de um grave evento, e que geralmente não ataca na raiz do problema
No Senado, o PL da Misoginia foi aprovado por unanimidade. Camuflando a mudança do conceito de mulher dentro de um projeto maior, seus defensores convenceram até os senadores de direita, que se desculpam afirmando que votaram para defender as mulheres e endurecer as penas. De outra forma, talvez o projeto não fosse aprovado.
Mas que tipo de Congresso é esse, que para aprovar algo tem de escondê-lo da população? Hoje em dia, com as redes sociais, não é mais possível esconder nada. E, quando a população descobre, o Congresso piora (ainda mais) sua reputação.
Tudo está politizado. Agora, até o que um homem e uma mulher conversam virou questão política e pode chegar a um tribunal. O carnaval se tornou uma lacração contínua, mas não se pode reclamar, porque “quem critica o carnaval é racista”; a camisa da seleção é criticada porque é usada pela direita nas manifestações políticas; para contornar esse “problema”, tentaram inventar a camisa vermelha e agora tentaram a jogada do “Brasa” porque, dizem, “o nome Brasil já se tornou tóxico”. Há quem apoie Rafinha porque é de esquerda, contra Neymar que é de direita.
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O que se come também virou política. Quem deseja fazer parte de certos clubinhos tem de ser vegetariano ou vegano; afinal, quem come carne é fascista. Vocês se lembram da tentativa de impor a “segunda sem carne”? Um dia ela voltará, tenham certeza.
Politizaram também os modos de amar e as relações sexuais. Politizaram a religião. Conseguiram até politizar o “bebê alemão”, porque para eles “alemão” é sinônimo de nazista. Politizaram marcas como Jaguar, Nike, Magalu, Natura, Boticário, Nubank, Coca-Cola, Pepsi, McDonald’s e Disney. O agro, a arte, as novelas, a cultura e os livros escolares estão politizados já faz décadas. Politizaram a democracia, fingindo defendê-la enquanto apoiam ditaduras mundo afora e desrespeitam o Estado de Direito aqui dentro.
Não se trata de chatice pura e simples; os “politizadores de tudo” acreditam que as mudanças sociais vêm da luta política
O cinema está politizado: agora, a cada ano um filme brasileiro sobre a ditadura concorre ao Oscar. E torcem por isso. Politizaram também o humor: nem se contam mais os comediantes cancelados e processados por piadas. Piadas! Politizaram a família: basta alguém ser casado e ter filhos para logo ser visto como conservador. Estão perseguindo uma professora porque descobriram que é casada, mãe, evangélica e pastora!
É a politização de tudo – Há até um movimento que se chama “politize”! E isso chegou a um nível raramente igualado no mundo.
Mas não se trata de chatice pura e simples; os “politizadores de tudo” acreditam que as mudanças sociais vêm da luta política – o nome disso é “Marx na veia”. O que ocorre, na verdade, é que disso vêm rupturas sociais repentinas que irritam as pessoas, geram mudanças frágeis e reações opostas. As mudanças sociais normais que geram menos problemas e que duram no tempo são outras, aquelas mais graduais e despolitizadas.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








