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Adriano Gianturco

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Banco Master

Sicários, jagunços, política e máfia: por que o Brasil não muda

por que o brasil não muda
Desilusão acompanha o brasileiro após cada escândalo que termina em impunidade. (Foto: Imagem criada utilizando Whisk/Gazeta do Povo)

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Estamos assistindo ao enésimo caso de violência política de alto escalão, um caso que, na verdade, não deve nada ao crime organizado puro: ordens para “quebrar os dentes” e “moer” pessoas, sicários que tentam se matar em circunstâncias suspeitas etc.

Quem se lembra de quando um importante político, ex-senador e hoje deputado federal, disse “tem de ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”? Ou quando um juiz, assessor do então presidente do TSE, afirmou que “dá vontade de mandar uns jagunços pegar esse cara na marra e colocar num avião brasileiro”? E os casos Marielle Franco? Celso Daniel? Marcos Valério? PC Farias? E os inúmeros casos que ocorrem no interior do país e dos quais nem chegamos a saber? E, antes de matar, não se faz ameaças? Quantos vezes alguém recua ao ser ameaçado, e nem ficamos sabendo?

Esses diálogos da “Turma” de Daniel Vorcaro são, na verdade, o enésimo caso que não é um caso; é a norma. Não quer dizer que não seja gravíssimo, mas a política se tornou isso: favores, acordos, ameaças, chantagem.

Por que casos como o do Banco Master se repetem e continuarão se repetindo? Porque as regras e os incentivos não mudaram

A cada novo escândalo as pessoas ficam chocadas, mas apenas porque se esquecem ou não conhecem o passado; elas se desiludem, mas só porque antes se iludiram, porque são idealistas, porque querem ser otimistas, querem ter “positive vibes”, porque repetem o tempo inteiro que “dessa vez não vai ficar impune”, perguntam-se como “o Brasil pode dar certo” etc.

Por que as coisas não mudam? Por que esses casos se repetem e continuarão se repetindo? Porque as regras e os incentivos não mudaram. Porque o idealista se ilude ao crer que basta mudar as pessoas, que tudo só depende da boa vontade. A verdade é que quem tem o poder tende a expandi-lo e abusar dele. E ninguém coloca limites.

Cansei de dar palestras e ouvir “você acabou com minhas esperanças”. Mas sou eu quem acaba com suas esperanças? Ou são os fatos, os telejornais, os sites de notícias? A ciência política tem o papel de criar esperanças? Não; a ciência política descreve e prevê. Você poderia ficar feliz em aprender como funciona o mundo e conseguir prevê-lo; seu conhecimento e seu domínio em relação ao mundo crescem. Quem precisa que alguém mantenha sua esperança não é um adulto, e quem coloca suas esperanças na política é ingênuo.

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Mas, então, por que as pessoas pensam assim? Porque fomos feitos para acreditar, para obedecer, para nos subjugar. Somos parte do mecanismo. Muitos negam a realidade porque reter informações negativas no cérebro dói. Preferem o autoengano para manter pensamentos positivos na mente. Isso faz bem individualmente, psicologicamente, no curto prazo; mas, no longo prazo, faz mal coletivamente e politicamente.

Vamos desenhar como funciona na real: se a política tem o poder de decidir sobre cada folha que se move, alguns, então, pedem um favor; ameaçam ou dão algo em troca para obtê-lo (Pablo Escobar dizia “plata o plomo”). Quem não aceitar recebe mais pressão e acaba expulso do sistema. Quem aceitar entra no esquema e, uma vez dentro, torna-se tão culpado quanto os outros; agora, tem esqueletos no armário. Continua recebendo favores e/ou sendo ameaçado e chantageado. Por isso, raramente as coisas vêm à tona. E, quando vêm, logo se descobre que estão todos envolvidos. É cleptocracia, é o conluio entre big business e big government, é oligarquia, é la casta, é máfia. Não por acaso um banco privado é o banco mais entrelaçado com a política em todo o país!

O Estado só se comporta bem depois que o povo o enquadra, o contém e o limita

“Lá fora não é assim”, dirão. Errado: é assim no mundo todo. O mundo não é Suíça e Suécia. A Europa é uma fração; o mundo é África, Ásia, América Latina etc. Só em alguns poucos países é um pouco melhor. E por quê? Porque lá limitaram o Leviatã. O Estado só se comporta bem depois que o povo o enquadra, o contém e o limita.

É preciso ter uma visão realista e adulta da política, chamar as coisas pelo nome, encarar o monstro nos olhos, aceitar a realidade e lidar com ela de forma pragmática. Entender qual a essência da política, parar de querer mudar a natureza e focar no que podemos mudar realmente (porque sim, há várias coisas que podemos mudar). Quem entende que a política funciona assim vai querer limitá-la, como aconteceu na Europa e nos Estados Unidos (relativamente falando). Quem ainda se ilude, esperando que não seja sempre assim, que na próxima vez será diferente, que pode ser... espera e espera.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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