
Ouça este conteúdo
Os Estados Unidos apreenderam o navio petroleiro Bella-1, com bandeira russa, por ter infringido bloqueios e sanções americanas. Não foi uma operação simples: envolveu mais de 5 mil quilômetros de perseguição, do Caribe até a Islândia. Sabemos que, antes disso, várias embarcações foram atacadas e afundadas na costa da Venezuela, por suspeitas de narcotráfico – e também para acostumar o mundo à presença de navios americanos naquela região, preparando o terreno para a captura de Nicolás Maduro, uma operação que, além de espiões, aviões, helicópteros e militares, foi conduzida com numerosas embarcações no litoral do país bolivariano.
Agora, Donald Trump quer a Groenlândia. A região é importante pelas terras raras, mas também por questões de segurança nacional, militares e navais. A ilha está próxima da Costa Leste norte-americana – não por acaso os EUA já a controlaram durante a Segunda Guerra Mundial, depois que a Alemanha tinha invadido a Dinamarca; além disso, se nos próximos anos a temperatura continuar aumentando, e com o avanço da tecnologia, aquelas regiões serão mais facilmente navegáveis, tanto para fins comerciais quanto militares.
A verdade é que os mares, os portos, os estreitos e a navegação são de suma importância.
A globalização é possível graças ao fato de que os principais estreitos marítimos são controlados pelos EUA e seus aliados
Mais de 80% do comércio mundial se dá pelo mar, com o uso de navios (e não por via aérea). Países sem acesso ao mar (ou “landlocked”, no termo em inglês), como Afeganistão, Bolívia, Butão, Burkina Faso, Chade, Hungria, Cazaquistão, Laos, Lesoto, Mali, Paraguai, Ruanda, Zambia etc., são mediamente mais pobres. Não ter acesso ao mar reduz a conexão com o comércio marítimo, aumenta os custos logísticos e diminui o PIB per capita entre 10% e 13%. Não por acaso, os continentes com mais países nessa condição são os dois mais pobres: África e Asia.
Por trás do que nos hoje chamamos “globalização” está o domínio dos mares. A globalização é possível graças ao fato de que os principais estreitos marítimos são controlados pelos EUA e seus aliados. A globalização é essencialmente americana, e se baseia na pax americana. A mesma coisa acontecia, em menor escala, com a “globalização” romana e a pax romana, quando a antiga Roma controlava o Mar Mediterrâneo.
Um exemplo da importância das rotas marítimas é o enorme efeito dos ataques dos houthis iemenitas contra navios comerciais no Estreito de Bab al-Mandab (entre o Mar Vermelho e o Golfo de Áden): atrasos, aumento de US$ 1 milhão por viagem em custos de combustível, elevação de até 250% no custo dos seguros, e consequente aumento dos preços para o consumidor final – o frete da China para a Europa dobrou. Só o Egito perdeu cerca de US$ 8 bilhões de receita no Canal de Suez.
VEJA TAMBÉM:
Canais e estreitos, aliás, são tão importantes que alguns foram até criados pelos seres humanos: Suez e Panamá. Este último é um caso emblemático: um país que praticamente é sinônimo do seu canal, e que só é importante por causa dele. O canal é artificial e foi construído pelos EUA, em um acordo prévio que garantiu acesso privilegiado aos americanos por décadas. Depois disso, os chineses começaram a chegar, e hoje os EUA reivindicam prioridade.
Agora que outras potências estão voltando a emergir (inclusive graças a essa mesma globalização), desafiam exatamente o domínio do mar e o controle desses estreitos estratégicos. A presença chinesa aumentou no Canal de Panama e na Groenlândia. China e Rússia também recebem tratamento privilegiado pelos houthis. Além disso, a China está criando sempre mais tensões com as Filipinas no Mar do Sul da China.
A consultoria de geopolítica Eurasia Group estima que o oceano será o campo de batalha do futuro. Pensem: quase todas as grandes potências da história dominaram os mares: Reino Unido, Portugal, Espanha, Holanda, França, o Império Romano e os EUA. Ilhas, como a Grã-Bretanha, ou quase-ilhas, como Roma (localizada em uma península) e os EUA (separados da Europa pelo Atlântico e da Ásia pelo Pacífico), são países naturalmente marítimos, protegidos pelos mares e comerciantes por natureza.
Se o controle do mar mudar de mãos, a globalização e a paz serão colocadas em xeque e uma nova ordem global surgirá
A literatura científica da disciplina da Geopolítica está cheia de livros sobre a importância do mar. O conceito principal é exatamente o de “sea power”, de Alfred Mahan: a teoria segundo a qual quem domina os mares, os portos e os estreitos domina tudo, o comércio internacional e a guerra. Na obra Sea Power, James Stavridis chama o Oceano Ártico (onde está a Groenlândia) de “o oceano da promessa e do perigo”. Um dos perigos é exatamente a presença da Rússia entre outros quatro países da Otan (EUA, Canadá, Noruega e Dinamarca). Atualmente, a Rússia domina aquela região com o navio quebra-gelo mais potente do mundo. Além disso, os novos míssesis balísticos norte-coreanos podem alcançar o território dos EUA passando por cima do Oceano Ártico. Estima-se que esse oceano tenha 15% do petróleo ainda não descoberto do mundo, bem como 30% do gás, 25% dos hidrocarbonetos, além de muita platina, cobalto, ouro e diamantes.
Não apenas o mar é importante, mas ele é sempre mais importante. Cabos submarinos, minerais submarinos, zonas de pesca... a relevância do mar está aumentando. Hoje, cerca de 90% das transmissões de internet acontecem via cabos submarinos. Ou seja, se o controle do mar mudar de mãos, a globalização e a paz serão colocadas em xeque e uma nova ordem global surgirá. Ao mesmo tempo, para que uma nova ordem mundial possa surgir, terá de passar por uma mudança radical no domínio do mar. Os EUA sabem muito bem disso, e é por esse motivo que voltaram com força, focando várias questões atreladas ao domínio do mar. A verdadeira batalha é essa.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos




