Clubhouse prova que, na tecnologia, nada é tão novo e nada é tão velho
| Foto: William Krause / Unsplash

O hype nosso de cada dia nos dai hoje. A modinha mais recente atende pelo nome de Clubhouse, nova rede social formada por salas de bate-papo em áudio. Os chats são uma espécie de podcast ao vivo, nos quais até cinco mil pessoas podem participar simultaneamente.

Há, claro, uma interface bacaninha, features de moderação, a sensação de exclusividade — por ora, só entra com convite. Meu objetivo, porém, não é explicar os recursos, pois sobre isso já há vasto material na web, mesmo se tratando de uma novidade. O que pretendo é avaliar essa nova rede sob um prisma da comunidade Gonew.co: com uma visão mais crítica, sem a espuma do encantamento, dentro do nosso guide que chamamos de “governança na veloz economia”.

Para começar, escrevi recentemente que o ciclo de uso das redes sociais parece envolver a cessão de dados a um novo aplicativo, para fins que não conhecemos e compreendemos completamente, da mesma forma que não entendíamos muito bem os objetivos do aplicativo anterior. Pois bem.

Daí já surge o primeiro ponto. As pessoas estão lendo as regras antes de confirmar o download assim que recebem o concorrido convite para o Clubhouse? Ou estão ignorando completamente eventuais riscos referentes a dados e embarcando sem muitos critérios em mais um hype?

Aposto que muita gente que abandonou o WhatsApp recentemente por conta das mudanças nas políticas de privacidade não leu os termos de condições do Clubhouse, na pressa por usar o aplicativo.

A rede social diz, por exemplo, que não vende dados pessoais, mas que pode compartilhá-los com terceiros, como empresas afiliadas, sem aviso prévio. Traz também que quando o usuário interage com o Clubhouse nas páginas do site em outras redes sociais (como Instagram, Facebook e Twitter), dados pessoais são coletados.

O Clubhouse afirma, ainda, manter os dados pessoais de seus usuários “pelo tempo razoavelmente necessário”, sem especificar uma duração objetiva para tanto. Por fim, afirma que “com o propósito de apoiar investigações de incidentes, gravamos temporariamente os áudios”! Se você ainda não leu, os termos e condições completos do aplicativo podem ser acessados aqui.

Seria interessante saber quantas pessoas realmente leem essas regras (imagino que a velocidade da rolagem da tela e do click possa ser um parâmetro). Mas como não temos esses dados — e supondo que as pessoas que baixaram o app até então sejam como a maioria, hipnotizada —, o Clubhouse vem nos lembrar que o maior combustível do Quinto Poder das empresas-estado digitais é o ego. Tornamo-nos uma sociedade que somente olha pra baixo e é facilmente envolvida pela sedução digital e pelo efeito rede.

Outro ponto que deve ser questionado é sobre como será realizada a moderação de conteúdos potencialmente indesejados que são compartilhados ao vivo, por meio de interações entre uma grande quantidade de pessoas.

Aliás, será que haverá algum tipo de moderação mais intensa por parte da rede? E se a lógica for de que o app funcione como uma “mesa de bar”, ela seria mesmo necessária? Mas em que medida o serviço poderia ser responsabilizado por conteúdos ofensivos e, até mesmo, criminosos — uma ameaça a outro usuário, por exemplo?

A moderação (ou interferência) em conteúdos e perfis pelas próprias redes sociais tem se mostrado reveladora. Até nos Estados Unidos, a Meca da liberdade de expressão, a moderação ineficaz do Clubhouse, aliada à ausência de sistemas de prevenção ao abuso, foi alvo de críticas.

Não é de se estranhar, portanto, que na China o “Grande Firewall” tenha bloqueado a rede social. O número de usuários do Clubhouse no país asiático é difícil de estimar, mas especula-se que um chat que discutia o massacre na Praça da Paz Celestial, triste episódio do fim da década de 1980, proibido nas redes sociais chinesas, chegou a ter milhares de usuários simultâneos.

Não é nova a estratégia de member-get-member e escassez que, por enquanto, o Clubhouse usa ao estar disponível apenas para iOS. Essa tática já foi utilizada pelo Instagram no início dos anos 2010. O que é novo e impressionante é o Clubhouse ser um unicórnio com tão pouco tempo de existência (ainda não tem sequer um ano de idade) e conquistar isso tendo usuários em apenas uma das plataformas mundiais de smartphones.

Por fim, podemos nos perguntar: o modelo de interação desta rede pode potencialmente reduzir o cancelamento? Está aqui um ponto interessante pois vivemos em uma espécie de “era do cancelamento”, onde qualquer comentário, ainda que dito sem má intenção, pode ser guardado e usado contra você, inclusive num momento futuro.

Por um lado, esse modelo de rede social é ainda mais informal e, por isso, pode ajudar a aumentar as “armas” dos canceladores, vez que muita coisa, às vezes dita na empolgação, poderá ser gravada e distribuída. Por outro lado, tenho dúvidas se o modelo e UX não inibem um pouco o cancelamento. Afinal, não há um artefato mais amigável circulando (um print ou uma foto, por exemplo) a ponto de ser exposto milhares de vezes para se tornar um viral.

Antes de parecer contrário ou algoz do novo hype, vale dizer que sua dinâmica é inspiradora. É importante observar uma inovação em um mercado já tão saturado. O interessante, nesse caso, é uma das máximas que coloquei em meu primeiro livro: nada é tão novo, nada é tão velho. E o Clubhouse é isso, uma adorável inovação que nos leva de volta ao passado, “no seu dial”. Só acho que vale tomar certos cuidados para reduzir o chiado. #SpeedAndSomeControl

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