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Marco Poli: “Ninguém consegue negar a profunda necessidade social do ser humano, e talvez ainda mais, a do quente e acolhedor povo brasileiro”.
Marco Poli: “Ninguém consegue negar a profunda necessidade social do ser humano, e talvez ainda mais, a do quente e acolhedor povo brasileiro”.| Foto: Unsplash

As reações à Covid-19, tanto as voluntárias quanto as impostas pelo Estado, geraram mudanças significativas nos negócios, no dia-a-dia e na vida das pessoas. E isso teve um enorme impacto nas empresas, nos seus resultados, nas projeções e nas estratégias.

A imposição da quarentena e do isolamento social fez mais pela digitalização das empresas do que todos os CIOs e CTOs teriam meramente sonhado. Empresas de 100 mil funcionários que até ano passado lutavam para conseguir aceitar o desejo de 300 deles de trabalharem em home office hoje têm mais da metade da sua força trabalhando de fora do escritório. As ferramentas de interação digital em tempo real - como softwares de videoconferência e de gestão de equipes - tiveram um salto evolutivo que poucas outras inovações ou tecnologias conseguiram das na história da humanidade.

Ferramentas como Zoom tiveram um aumento de 50% no número de assinantes em um período de meras três semanas. Suas ações, negociadas na NASDAQ, apreciaram quase 300% desde fevereiro.

Aliás, uma empresa homônima que negociava como "penny stock", uma ação que valia apenas centavos em mercado de balcão mas que usava o ticker ZOOM, teve suas negociações interrompidas depois de se apreciarem consideravelmente na confusão de que poderia ser da empresa de videoconferências.

A digitalização forçada quebrou um sem-número de grilhões e tirou da inércia muitos hábitos e muitos mercados regulados. Setores que possuíam amarras consideradas até então intransponíveis que exigiam presença física subitamente se digitalizaram.

Faculdades, universidades, escolas, cartórios, repartições públicas e até colégios de ensino fundamental tiveram que se adaptar para não prejudicarem os clientes e preservarem as suas receitas.

Profissões reguladas como a dos médicos, que tinham proibições expressas ao seu exercício não presencial, agora já permitem consultas virtuais. Nesse ponto em especial, há mais de dez anos eu acompanho startups tentando explorar o modelo e ajudar os médicos a serem mais digitais, com algumas inclusive tendo que se explicar e sendo assediadas por isso pelos Conselhos, os órgãos incumbidos de garantir o mercado.

Muito se fala agora de como será o "novo normal". Aquele normal que virá depois do final da pandemia, quiçá depois da vacina de sucesso ou de outro evento que possa extinguir de vez a histeria ao redor da nova doença. Muitos acreditam que vai ser completamente digital, que as pessoas em home office não vão aceitar serem obrigadas mais uma vez a frequentar os escritórios. Que o real estate de espaços corporativos e de escritórios vai sofrer imensamente, e que os coworkings podem estar imunes pois vão acabar absorvendo a debandada dos escritórios tradicionais.

Mas ninguém consegue negar a profunda necessidade social do ser humano, e talvez ainda mais, a do quente e acolhedor povo brasileiro. A necessidade de voltar ao convívio social apareceu em todas as interações que eu tive desde o começo do afastamento. Em todas as dezenas de calls, em todas as poucas reuniões presenciais, em parte significativa do material que consumo digitalmente. As pessoas encontraram formas de reduzir o impacto do isolamento, mas essas soluções ainda não se igualaram ao contato presencial.

Mas qual será o resultado, depois da volta do convívio, que o isolamento social vai produzir? Vamos continuar todos isolados em nossas casas com interações virtuais sempre que possível ou vamos voltar a sermos tão presenciais como éramos até fevereiro?

Conheço muitos que apostam em um extremo ou outro. Eu, pessoalmente, acho que vamos estar em algum lugar entre eles. Acho que a quebra da inércia da necessidade presencial de muitos setores e serviços vai ser irreversível. Mas acho também que muitos vão optar voluntariamente por voltar ao convívio social, mesmo que em intensidade menor do que a exigida antes do isolamento.

Acho que as oportunidades para novos modelos de negócios, ferramentas e tecnologias que ajudem a trazer a sensação social ao ambiente virtual vão se beneficiar muito, e que cada vez mais a digitalização vai melhorar a produtividade, a riqueza e o conforto da população. Mas também acho que não seremos tão brevemente uma espécie 100% digital, e que o isolamento exigido pelas reações à Covid-19 vai ser em grande parte revertido e ressocializado assim que o risco da doença for afastado.

O novo normal, a meu ver, vai ser transiente. Mas vai ser um bom acelerador à digitalização do velho normal, que já vinha caminhando, mesmo que mais vagarosamente, para o que vamos viver no futuro próximo. Apenas o bom e velho "normal".

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