
Ouça este conteúdo
Os defensores do fim da escala 6x1 (44 horas semanais) alegam que a redução da jornada de trabalho elevaria a produtividade do trabalho. Ora, se isso fosse uma verdade universal, os empresários seriam os primeiros a reduzir a carga de trabalho, pois a elevação da produtividade aumenta os lucros das empresas. Com base nesse raciocínio, por que todos os setores não trabalham na escala 5x2 (40 horas semanais)? Ou, de outro modo, por que alguns operam na escala 6x1, enquanto outros na 5x2?
A resposta para essas perguntas passa pela realidade de cada setor. Mesmo sem a obrigação do governo, muitas empresas já operam na escala 5x2. Fazem isso porque entenderam que a carga horária de 40 horas semanais traz mais produtividade para elas.
Já outras empresas operam na escala 6x1, pois seus negócios impedem uma redução da carga horária diante das demandas dos seus setores. Geralmente, várias firmas nas áreas de saúde, restaurantes, telecomunicações, padarias e transportes trabalham nessa escala.
O fato é que alguns setores trabalham com mais carga horária e outros, menos, de tal maneira que, de acordo com dados do IBGE, a média do número de horas efetivamente trabalhadas por funcionário é de 39,2 horas.
Se a média de horas efetivamente trabalhadas já está abaixo do que o governo pretende, além de várias empresas já operarem na escala 5x2, por que, então, obrigar as demais firmas a reduzir para 40 horas semanais?
Além do populismo eleitoral, há também a falta de entendimento de que a economia e o ser humano reagem a incentivos. Se um contrato de aluguel é fechado ou uma contratação de funcionário é efetivada por uma firma, é porque os benefícios superaram os custos para cada uma das partes.
No entanto, para muitos políticos e tecnocratas, principalmente de esquerda, a lógica da livre escolha e negociação não existe, e o Estado deve arbitrar as relações entre empresários e trabalhadores, pois, afinal, na visão deles, o governo sabe o que é melhor para cada uma das partes, mesmo estando distante da realidade dos envolvidos.
No caso específico do fim da escala 6x1, a interferência governamental, trazendo o enrijecimento do mercado de trabalho, significa gerar consequências negativas para a sociedade.
Como haverá elevação do custo da mão de obra trabalhada, a empresa, para continuar viável economicamente, vai tentar repassar o aumento da despesa laboral para o preço das mercadorias, trazendo elevação de preços para bens e serviços
Outra consequência será a demissão de funcionários para contenção de despesas e manutenção da margem de lucro da empresa. Como, por imposição governamental, não será possível a redução de salários, o ajuste se dará com elevação do desemprego. Nos casos menos pessimistas, as empresas vão demitir e recontratar funcionários com um salário menor, o que significa diminuição da massa salarial.
Os defensores da medida do fim da escala 6x1 dizem que não haveria desemprego, pois o mercado de trabalho está aquecido e até falta mão de obra. Esse tipo de argumento ignora completamente a complexidade da operação de alguns setores, como o de transporte aéreo. Passar da escala 6x1 para 5x2 significa a necessidade de contratar mais gente para a manutenção da operação.
O problema é que, em muitos setores, não há mão de obra especializada suficiente. E, como não se forma mão de obra mais qualificada da noite para o dia, onde a empresa vai buscar colaboradores mais especializados? Talvez em Marte ou em Nárnia?
Todas essas prováveis consequências são ignoradas por muitos políticos, seja por má-fé ou por ignorância. Enxergam um mundo com uma visão idealizada da realidade, como se uma lei escrita estivesse acima das leis econômicas. Se fosse assim, a pobreza seria extinta por decreto.
Seria muito mais eficiente flexibilizar o mercado de trabalho, em vez de limitá-lo a um determinado número de horas. Certamente haveria setores com necessidade de 20 horas semanais, enquanto outros, de 48 horas por semana. Isso tornaria a alocação de trabalho na sociedade muito mais lógica e produtiva.
Mas, para parlamentares e membros do Poder Executivo, não interessa melhorar a realidade econômica do país e explicar a complexidade de cada mercado de trabalho para a população. Preferem vender a ilusão de que os funcionários vão trabalhar menos e ganhar o mesmo salário, ignorando todas as consequências do mundo real, no qual os próprios trabalhadores serão os mais afetados com mais inflação e desemprego.
Esses efeitos pouco importam para os donos do poder, que só querem a escala 4 por 0: mais quatro anos de poder, gerando zero de riqueza para a sociedade.




