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De acordo com o IBGE, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil cresceu 0,5% contra os três primeiros meses de 2026. Pelo lado da oferta, o crescimento foi puxado pela agropecuária (+2,8%), serviços (+0,2%) e indústria (+0,1%). Pelo lado da demanda, a formação bruta de capital fixo (investimento) aumentou 1,2%, enquanto os gastos do governo, 0,4%. Na contramão, houve queda do consumo das famílias (-0,4%) e das exportações líquidas (-0,8% de exportação e +1,8% de importação).
Apesar de todos os estímulos fiscais do governo para estimular a economia, chama a atenção a queda do consumo das famílias. Neste ano, o governo liberou verbas bilionárias para subsidiar o crédito, com taxas de juros abaixo do mercado, para reforma de casa, compra de imóveis, aquisição de veículos, entre outros segmentos beneficiados.
Apesar dessas medidas, o consumo não cresce por conta dos juros elevados, perda do poder de compra da população e alto endividamento familiar. A inflação ao longo dos anos corroeu o poder de compra sem que os salários de muitos brasileiros acompanhassem o aumento dos preços.
Por sua vez, a elevação do custo de vida levou milhares de brasileiros a recorrer a empréstimos bancários para conseguir fechar as contas no final do mês. Hoje, segundo o Serasa, há 82% de famílias endividadas. Desse total, 30% estão com a sua renda comprometida para pagamento de juros e amortização da dívida. Mais recursos para pagamento do serviço da dívida significa menos dinheiro para o consumo.
A inflação não apenas corroeu o poder de compra da população como também levou o Banco Central a subir a taxa básica de juros para controlar a alta dos preços. Com a Selic a 14% a.a., o crédito para pessoa física se torna mais escasso e oneroso, freando o consumo, principalmente de bens duráveis.
Além da queda do consumo no 2º tri de 2026, o crescimento do PIB desacelerou de 1,1% para 0,5% na passagem trimestral. Esse resultado confirma a tendência de desaceleração da atividade econômica brasileira para o 2º semestre de 2026 e para o ano de 2027, movimento similar ao final do governo Dilma em 2014.
As semelhanças são notórias: estímulos fiscais para ganhar as eleições e esgotamento de um modelo de expansão econômica focado no consumo
Em 2014, apesar de toda a expansão do gasto público, a economia somente cresceu 0,5%. A situação hoje é parecida. O governo aumenta fortemente as despesas, sem gerar crescimento da economia de forma robusta e sustentável.
As semelhanças ocorrem também em termos do mercado de trabalho. Assim como agora, a taxa de desemprego estava muito baixa durante o governo Dilma. Tirando o fato de haver 66 milhões de pessoas que optam por não trabalhar – e, portanto, tecnicamente não são consideradas desempregadas –, há aparente contradição entre desaceleração da economia e mercado de trabalho aquecido tem explicação econômica.
As variáveis do mercado de trabalho agem de maneira defasada ao ciclo econômico por conta dos custos de admissão, demissão e treinamento. Isso significa que, persistindo a desaceleração econômica, o desemprego deverá subir, assim como ocorreu em 2015, no segundo mandato do governo Dilma.
Até lá, dificilmente haverá reversão da desaceleração econômica – até porque os juros seguem elevados e as expectativas de empresários e investidores estão deterioradas com a política fiscal atual do governo. Esses efeitos derrubam a tese keynesiana de que o aumento do gasto gera crescimento econômico. Pelo contrário, a política fiscal do atual governo elevou o prêmio de risco da dívida pública e reduziu a poupança nacional, pressionando as taxas de juros, o que leva à desaceleração da economia. Para usar a linguagem do presidente: “gasto não é vida”.

Alan Ghani é doutor em Finanças pela FEA-USP, com passagem pela University of Texas at San Antonio como professor e pesquisador. É analista CNPI, economista-chefe da MSX e professor em cursos de MBA e pós-graduação de instituições como Insper e Albert Einstein. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



