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Alan Ghani

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A fatura chegou

Governo tem culpa no alto endividamento das famílias brasileiras

Descontrole das contas públicas, juros altos e estímulos ao crédito para impulsionar o consumo explicam o alto endividamento das famílias brasileiras. (Foto: Jeane de Oliveira/Pronatec)

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Como sempre, a economia será um dos temas do debate eleitoral. Apesar de os últimos indicadores macroeconômicos serem favoráveis ao governo – inflação acumulada próxima de 3,80%, taxa de desemprego em 5,4% e crescimento econômico em 2,3% –, a percepção da população em relação à economia é outra. Para os pobres e a classe média, os indicadores macroeconômicos não conversam com a realidade do país. Basta conversar com qualquer motorista de aplicativo para confirmar essa discrepância.

A razão para o distanciamento das estatísticas do IBGE da vida de milhares de brasileiros passa por dois fatores: elevação do custo de vida e alto endividamento das famílias.

É notória a elevação do custo de vida desde a pandemia. Com as medidas de restrição sanitária, a elevação de gastos públicos e o aumento da oferta monetária pelo Banco Central, a inflação disparou, encarecendo o custo de vida. Logo em seguida, veio a guerra entre Rússia e Ucrânia, que trouxe valorização nas cotações do petróleo, com mais impactos inflacionários para a população.

O problema é que a renda de muitos brasileiros não acompanhou esse processo de elevação geral dos preços. Por mais que a renda média do brasileiro tenha aumentado em 9,72%, acima da inflação, do início da pandemia até hoje, não necessariamente essa elevação reflete a situação de muitos trabalhadores atualmente. A média pode ter sido aumentada porque foi puxada pela alta de rendimentos de alguns segmentos da sociedade, não significando uma elevação de renda real mais uniforme para todos os brasileiros.

Com um custo de vida mais elevado, parte da população brasileira tomou empréstimos para complementar seu orçamento familiar. Recorrer a dívidas se tornou um lugar comum na vida de muitos trabalhadores, a ponto de hoje termos 80% de famílias endividadas no país.

Enganam-se aqueles que acreditam na isenção de culpa do governo por essa situação. Pelo contrário. Desde o início do seu terceiro mandato, a administração petista foi marcada por medidas de estímulo ao consumo, flexibilização do crédito, taxas de juros subsidiadas e programas de renegociação de dívida, com estímulos a mais endividamento.

A liberação de R$ 500 milhões para a compra de automóveis populares, a flexibilização nas regras do crédito consignado e o programa Desenrola foram alguns exemplos de medidas que estimularam o consumo e o alto endividamento dos brasileiros.

Não deixa de ser irônico que o presidente Lula tenha iniciado o seu governo anunciando um programa para reduzir o endividamento das famílias e terminará o seu mandato com mais famílias endividadas pelo país.

O fracasso do programa Desenrola decorre essencialmente do efeito de sinalização dado à população: pode tomar mais dívidas, porque, no final das contas, o governo vai te salvar

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Em finanças, isso é chamado de moral hazard — um incentivo negativo que estimula um comportamento.

Não se pode descartar também a proliferação de casas de apostas online como fator de maior endividamento. Com a facilidade de jogos e apostas na internet, muitos brasileiros caíram no vício, perdendo muito dinheiro no mundo virtual.

Por fim, e não menos importante, o alto endividamento também está ligado aos juros elevados no país. Ao tomar empréstimos a juros altos, a pessoa cai numa espiral de pagamentos em que não consegue amortizar a sua dívida. Em parte, os juros são elevados no Brasil por conta da situação fiscal do país, agravada pelo atual governo. Como a taxa de juros de um título público é a referência do custo do crédito do mercado, quando ela sobe, há um encarecimento geral de empréstimos e financiamentos para a sociedade.

Em resumo, o descontrole das contas públicas brasileiras, elevando os juros para a população, aliado aos estímulos de consumo e de crédito do atual governo para gerar crescimento econômico a qualquer custo, são responsáveis pelo alto endividamento das famílias brasileiras. O crescimento anabolizado e não sustentável da economia também cobra seu preço nas urnas. Em economia, não existe almoço grátis.

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