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A classe política brasileira, incluindo os três poderes da República, não se deu conta da encrenca contratada para 2027. Os desafios vêm tanto por fatores internos como pelo cenário externo, exigindo que o país aprove reformas estruturais, não apenas para alcançar o desenvolvimento, mas para sobreviver a um mundo mais turbulento.
No cenário internacional, desde o pós-pandemia, a inflação se tornou mais resiliente (“grudenta”) em diversas partes do globo, principalmente nos EUA. Os efeitos da “economia a gente vê depois” durante a pandemia cobram o seu preço até hoje.
Além da dinâmica inflacionária pós-pandemia, as guerras entre Rússia e Ucrânia e entre EUA e Irã sustentam o preço do petróleo acima de US$ 100, sem perspectiva de ceder no curto prazo, uma vez que esses conflitos estão longe de caminharem para uma resolução final.
Sem a convergência da inflação para a meta, o Banco Central dos EUA (Fed) aumentou a taxa básica de juros, com perspectiva de mais elevações ainda neste ano. Juros mais elevados nos EUA trazem pressão no dólar por aqui, aumentando o risco inflacionário, o que dificulta uma redução mais expressiva da taxa Selic.
Infelizmente, não há perspectiva de queda de juros nas economias desenvolvidas no curto prazo, e não apenas pelo aumento da inflação, mas também pela elevação do risco fiscal. A dívida/PIB de várias nações alcançou patamares insustentáveis (acima de 100% da renda nacional), incorporando prêmio de risco na taxa de juros dos títulos públicos de economias desenvolvidas – algo inimaginável até pouco tempo.
Além de juros mais elevados por conta da inflação e do alto endividamento público de países desenvolvidos, o Brasil tem que lidar com um mundo menos globalizado, ou mais fragmentado, devido à guerra comercial de Trump e aos conflitos geopolíticos que incentivam países a produzirem internamente, reduzindo o comércio internacional. Menos comércio internacional se traduz em elevação do preço de mercadorias e perda de atividade econômica para o país.
Somente esses fatores externos – inflação, endividamento, fragmentação econômica, alta do preço do petróleo – já seriam motivos de preocupação para o Brasil. Somam-se a isso os problemas internos da economia brasileira.
Expectativa de inflação acima da meta (5,2%), 83% de famílias endividadas, recordes de recuperação judicial e inadimplência, Selic em 13,75%, dívida/PIB em 82,9% e economia com sinais claros de desaceleração trazem um cenário muito desafiador para 2027 em termos de crescimento econômico e geração de renda.
A reversão da perda de força da atividade econômica se torna praticamente impossível com fatores limitantes a um corte de juros. Os limitadores de queda da Selic são as altas de juros lá fora e o risco fiscal aqui no Brasil.
Como não é possível alterar o cenário externo, a única variável ao nosso alcance é um ajuste nas contas públicas
Com uma reforma fiscal, seria possível cortar os juros, trazendo crescimento sustentável (aumento do PIB sem gerar inflação), apesar de todas as limitações do cenário externo. É urgente uma reforma fiscal no Brasil. Apesar dessa obviedade, a sua implementação está longe de acontecer, pelo menos com este governo.
O mercado já fez a sua escolha, dando o benefício da dúvida para Flávio Bolsonaro realizar a tão esperada reforma fiscal e colocar novamente o país na rota do desenvolvimento econômico.

Alan Ghani é doutor em Finanças pela FEA-USP, com passagem pela University of Texas at San Antonio como professor e pesquisador. É analista CNPI, economista-chefe da MSX e professor em cursos de MBA e pós-graduação de instituições como Insper e Albert Einstein. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



