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Em janeiro deste ano foi assinado o acordo União Europeia (UE)-Mercosul. A assinatura foi uma vitória da sociedade brasileira, fruto do trabalho de vários governos, em direção ao livre comércio entre blocos. Embora o acordo precise da ratificação do Parlamento Europeu, o que ainda não aconteceu, a sinalização é positiva, abrindo grandes oportunidades para o Brasil, caso a zona de livre comércio entre em vigor.
De acordo com a teoria econômica, pela lei das vantagens comparativas, cada país se especializa naquilo que faz melhor, havendo ganhos econômicos para ambas as partes. Obviamente, não é um processo indolor. Há setores vencedores e perdedores em cada país envolvido na transação comercial.
No Brasil, o agronegócio seria beneficiado, enquanto alguns setores industriais (químico, farmacêutico) teriam dificuldades de concorrer, por exemplo, com a manufatura alemã. De um lado, os empresários brasileiros dos setores mais competitivos estão otimistas. Do outro, nos setores menos produtivos, os acionistas estão preocupados.
Apesar de alguns ramos da indústria saírem machucados, no geral, o livre comércio traz desenvolvimento econômico. Entre mortos e feridos, o avanço da globalização traz aumento de renda, diminuição da pobreza e elevação do bem-estar da população. A evidência acadêmica e a experiência internacional comprovam os ganhos do livre comércio.
A satisfação popular se eleva, na medida em que ocorre maior acesso a produtos de melhor qualidade a preços mais competitivos. O fato de um país apresentar déficit comercial (importar mais do que exporta) nada tem a ver com o bem-estar de sua população. Os EUA são deficitários e têm uma das maiores rendas per capita do planeta.
Os ganhos relativos à abertura comercial são indiscutíveis. A questão é se o Brasil está preparado para montar neste cavalo enquanto ele está passando. Infelizmente, o país apresenta graves problemas que podem dificultar os ganhos de comércio com a União Europeia.
A falta de infraestrutura (portos, aeroportos, estradas, ferrovias), a elevada carga tributária, os juros elevados e a baixa produtividade da mão de obra são alguns dos entraves da nossa competitividade internacional
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Em boa parte, todos esses problemas estão ligados ao tamanho gigantesco do Estado brasileiro. Para financiar a colossal máquina pública, o governo precisa cobrar altos impostos e emitir títulos de dívida com juros elevados. No entanto, a maior tributação e o custo elevado do capital penalizam a capacidade de competição das empresas do setor privado.
Além disso, com déficits crônicos nas contas públicas, sobram poucos recursos para investimentos em infraestrutura, fundamentais para aprimorar a capacidade produtiva do país. Nada adianta a empresa produzir muito se não tiver meios eficientes de escoar rapidamente a produção.
Há também desperdícios em gastos educacionais, com foco exagerado em educação superior e menos na formação de base e no ensino técnico. O resultado dessa política é a formação de universitários com graves deficiências técnicas, ocasionando baixa produtividade da mão de obra, comparativamente a outros países emergentes.
Apesar de todas essas limitações, o acordo com a União Europeia traz uma excelente oportunidade para a indústria nacional se modernizar, importando máquinas e tecnologia da Europa a custos menores, como ocorreu na década de 90.
A pequena abertura comercial ocorrida no início dos anos 90 contribuiu, por exemplo, para que a indústria automotiva deixasse de produzir “carroças” e passasse a fabricar automóveis.
Entretanto, no mundo de hoje, com guerra tarifária e competição feroz dos países asiáticos, é preciso dar voos maiores. Não basta assinar o acordo. É necessário qualificar nossa mão de obra e incrementar a infraestrutura, para que, quem sabe, nos tornemos uma Coreia do Sul, país que, em apenas 30 anos, deixou de ser uma nação agrária, inserindo-se fortemente no comércio internacional, com claros ganhos de desenvolvimento econômico para a sua população.
Para isso ocorrer, é urgente uma reforma fiscal e um projeto de país. Caso contrário, o Brasil vai perder mais uma vez o bonde da história. Depois, não adianta culpar o “colonialismo europeu” pelo nosso próprio fracasso.




