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Não é de hoje que o presidente Donald Trump tinha a intenção de algum tipo de intervenção na Venezuela. De acordo com o economista Jeffrey Sachs, dois presidentes latino-americanos disseram que Trump havia demonstrado esse desejo em uma reunião com líderes da América do Sul ainda em seu primeiro mandato.
A operação de captura de Nicolás Maduro, ocorrida na madrugada do último sábado (3), pouco tem a ver com o combate ao narcotráfico, uma vez que a Venezuela não está entre as maiores exportadoras de drogas para os EUA. Além disso, o maior problema de entorpecentes nos EUA é o fentanil (opioide sintético), que vem do México, produzido com matérias-primas chinesas.
Os ataques às embarcações venezuelanas, sob a alegação de serem traficantes de drogas, eram apenas a construção de uma narrativa para justificar ao povo americano e à comunidade internacional uma intervenção na Venezuela.
A verdadeira causa para a captura de Maduro é um velho objetivo dos neocons e do deep state norte-americano: a queda do regime
Embora a queda de Maduro abra a possibilidade de restauração da democracia na Venezuela, a motivação americana para a mudança de regime pouco tem a ver com uma cruzada contra as ditaduras. Primeiro, porque há uma série de ditaduras nas quais os EUA não intervêm — a Arábia Saudita, por exemplo. Segundo, porque ninguém, no mundo real, gasta bilhões de dólares pensando apenas no bem-estar de um país alheio, sem obter alguma vantagem econômica ou geopolítica.
Portanto, a mudança de regime almejada pelos EUA é de natureza geopolítica e econômica. A primeira relaciona-se com a visão neocon de os EUA reafirmarem sua força em sua zona de influência na América Latina diante do maior protagonismo chinês na região.
A segunda motivação é econômica. Logo após a captura de Maduro, o próprio Trump disse que pretendia utilizar empresas americanas para explorar petróleo na região. A exploração da commodity atende a um duplo objetivo: aumentar as receitas para os cofres do governo norte-americano e prejudicar as vendas para a China. Hoje, o gigante asiático é o maior comprador de petróleo da Venezuela.
Se a queda do regime for bem-sucedida, e os EUA conseguirem colocar no país latino um governo mais alinhado aos interesses norte-americanos, a Venezuela poderá voltar a ser uma grande produtora e exportadora de petróleo, o que trará desenvolvimento econômico e redução da pobreza para uma população que, em grande parte, vive na linha da miséria.
Caso isso ocorra, haverá queda da cotação do petróleo a médio e longo prazo, o que ajuda a conter os preços das mercadorias, uma vez que o óleo refinado é utilizado em uma série de processos produtivos e no transporte de produtos.
Até agora, a operação na Venezuela trouxe pouco impacto na cotação do petróleo, mas o futuro do chavismo poderá ser crucial para o valor do ouro negro.




