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O sonho do hexa acabou. Será que vamos acordar para um pesadelo? Agora é pensar no sério. Se tivéssemos realizado o sonho do hexa, isso não mudaria o nosso futuro, mas a seleição – perdão, a eleição – de outubro pode ter a chance de mudar o nosso amanhã; ou de piorá-lo. Depende não de nossa torcida, mas de nosso voto, que é coisa muito séria. Como somos uma nação festeira, festejamos para afastar a realidade de povo sofrido. Assim fugimos da realidade que nos oprime, em vez de a enfrentarmos, modificando-a. A Declaração de Independência que no dia 4 os americanos festejaram estabelece o direito de alterar ou abolir o sistema que prejudique a vida, a liberdade e a busca da felicidade, já que o poder dos governos deriva do consentimento do povo. Eles pegaram em armas depois dessa Declaração, para confirmar suas intenções. Aqui, nossa arma é o voto.
Nos últimos 50 anos, assisti à transformação do futebol em negócio de espetáculo, em show business. O jogador virou um artista no grande circo que compensa a falta de pão ou liberdade. Desvia para os gramados os olhos e ouvidos do cidadão, para que ele seja rebaixado a apenas torcedor. Os gritos de gol descarregam a energia, para ela não ser combustível contra os corruptos, os mentirosos, os enganadores. E multidões são usadas como audiência que sustenta fortunas para a Fifa, os clubes, os jogadores, as tevês, as cervejarias, os bares, os construtores de estádios em lugar de escolas e hospitais. Aqui na capital do Brasil, o serviço público fechou às 11 da manhã por causa de um jogo às 14 horas, reconhecendo que o futebol é mais importante que a prestação de serviços por parte do Estado.
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Não é assim em boa parte do mundo. E o futebol mostrou isso neste torneio da Fifa. Até no futebol o Brasil ficou para trás. A superioridade norueguesa no campo não foi um acaso, mas um sinal. Mais velocidade física e mental se impôs à nossa lentidão mental que a cada vez mais vai ficando distante do mundo. Nosso belíssimo hino foi descoberto e aplaudido, mas estamos deitados em berço esplêndido. Deitados sobre um potencial gigantesco, amarrados por uma classe política que não investe no ensino básico, porque não quer ninguém com a velocidade mental de um Haaland.
Às vésperas das convenções, os partidos não discutem ideias, planos, objetivos, mas nomes de candidatos que possam fazer gols na urna que dá poder sobre o dinheiro do público, em vez de resgatar um país que se desintegra. A falta de conhecimento, ajudada por futebol, carnaval, festas e praias, impede que a maioria boa e ingênua perceba que lentamente vamos afundando. É a camuflagem para não despertar nosso interesse sobre nosso próprio futuro como país. Sem perceber que, se o país vai mal, nos sequestra a todos, ou, pelo menos, a maioria que não tenha alternativa fora de nossas fronteiras.
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Como eu recomendei no meu canal no YouTube no dia da despedida da equipe brasileira: guardai as vossas bandeiras, guardai! Das janelas, dos carros, das lojas, dos bares e restaurantes, dos vossos condomínios e comunidades. Guardai-as todas para serem desfraldadas no primeiro dia da Semana da Pátria. O Sete de Setembro vai ser o nosso aniversário como país independente, 204 anos. A Declaração que completou 250 anos no sábado até hoje tem por base que liberdade não é concessão de governos, mas dom do Criador. A bandeira do Brasil não representa apenas uma torcida de equipe de futebol; representa cada um de nós e nos avisa que a ordem conduz ao progresso. Ou nosso patriotismo é só de futebol?
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



