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Uma criança de 6 ou 7 anos consegue ver os fatos com mais clareza que um adulto. Quanto mais vividos, mais nos metemos num brete que vai nos limitando, pondo-nos antolhos, como nos cavalos de tração. São as convenções, os costumes, os respeitos, as etiquetas... Uma criança que soubesse que um escritório de advocacia da família de um juiz influente fora contratado por R$ 129 milhões logo concluiria aquilo que não temos coragem de compreender e dizer: que, no mesmo dia em que se revelou o acordo com o Master, o juiz deveria renunciar. Malu Gaspar expôs o contrato em 9 de dezembro último. Mas, para o Brasil adulto, nada mudou. E o juiz continuou exercendo seu poder, inclusive naquele inquérito que começou sem Ministério Público, contrariando o básico da ação penal e a Constituição. E assim caminha o Brasil adulto, carecendo da curiosidade e da visão clara e simples de uma criança.
A menininha, curiosa, perguntaria se o melhor advogado do Brasil cobraria isso. O menininho indagaria: se o escritório não fosse da família de ministro do Supremo, teria o contrato milionário? E se o Tayayá não fosse de Toffoli, teria aportes de R$ 35 milhões do Master e R$ 25 milhões da J&F? Se Guido Mantega não fosse ligado a Lula e indicado por Jacques Wagner, seria contratado pelo Master por R$ 1 milhão por mês? Se o Master não fosse amigo dos governadores do PT da Bahia, teria exclusividade no CredCesta? Se Ricardo Lewandowski não tivesse sido ministro do Supremo, seu escritório mereceria um contrato de R$ 5 milhões do Master, para consultoria? Se Nunes Marques não fosse ministro do Supremo, sua irmã, seu filho e a Consult teriam recebido R$ 18 milhões do Master e da J&F? Se Lulinha não fosse filho do presidente, teria aportes de Roberta Luchsinger e da agência de viagens? Crianças logo desconfiariam da compra do Master pelo BRB, ou sobre o dinheiro de fundos de aposentadoria posto no Master: quem recebeu?, perguntariam.
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Se a uma criança fosse permitido saber mais de festas em Trancoso ou degustações etílicas em Londres, certamente perguntaria se foram festas de aniversário. Não foram. O objetivo era apenas criar intimidade via promiscuidade, como se consegue também ofertando jatinhos e eventos com tudo pago em lugares atrativos do mundo. Estamos diante de fatos claros para uma criança, mas ainda dependentes de conseguirmos ver tudo, pois estamos submetidos aos antolhos da hipocrisia. Nada fica claro até que se percorra o devido processo legal? Errado. Já fica claro bem antes, se nos despirmos da hipocrisia. Mas, em respeito à vida num estado organizado, esperemos os ritos na investigação, das provas, das confissões, das denúncias e dos julgamentos.
Mas não custa lembrar que, no país em que vivemos, somos carentes de memória. Nesses 50 anos de jornalismo em Brasília, testemunhei muitos escândalos de corrupção. Já vi caçarem mordomias, marajás, anões do orçamento, mensaleiros, lava-jatistas; agora temos os penduricalhos de sempre, os que roubam de velhinhos, os que compram autoridades dos três poderes. E vejo presidentes do Senado bloquearem investigações sobre ministros do Supremo que praticaram ações cristalinamente expressas. Tudo se repete porque parte dos corruptos chega ao poder pelo voto de adultos. Não foram as crianças que escolheram corruptos para representá-las, para exercerem desonestamente o poder em nome delas. Foram adultos que escolheram corruptos para representá-los. Pois criança teria o dom de perceber “de cara”. Neste ano, adultos terão oportunidade de repetir o erro ou mostrar arrependimento.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








