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Na comemoração dos 46 anos do PT, o presidente Lula, num improviso, se queixou dos evangélicos: “Votam nos outros. E 90% dos evangélicos ganham benefícios do governo”. Uma confissão de que benefício do governo é, pelo menos, expectativa de voto. São 49 milhões os que recebem Bolsa Família. Mas não são considerados desempregados pelo IBGE e Lula festeja um quase pleno emprego num 5,1% de desemprego. Ao mesmo tempo, o presidente apoia o fim da jornada 6x1: em vez das 44 horas de trabalho citadas na Constituição, apenas 36 horas por semana. Coisa de país esbanjando prosperidade. Como deveria ser o Brasil, com sua exuberante riqueza natural. Entre os fatores da riqueza, temos natureza exuberante; mas carecemos de capital, tecnologia e... trabalho.
Se cometêssemos a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, em sete dias haveria apenas quatro de trabalho. Um dia a menos por semana. Por ano, 52 dias a menos de produção de riqueza; a cada dez anos, um ano e cinco meses sem trabalho – mas com a folha inalterada, todo mundo recebendo o que recebia por 44 horas. Ganha por 44 e só trabalha 36 horas. Quem paga? O consumidor da mercadoria ou do produto, ou do serviço. Ou, quem sabe, troca quem ganha por 44 horas por novos empregados com salário proporcional às 36 horas. Ou automatiza tudo, para se livrar logo dos encargos da folha, em que se paga por quase dois o salário de um. Ou troca de ramo? Fecha? Vai para o Paraguai? De qualquer forma, qualquer alternativa vai significar mais inflação, menos emprego, menos renda. Vai haver mais dias de ócio, com as tentações de mais festas, mais álcool, mais brigas.
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O trabalho não se reduz só com jornada menor. Os 49 milhões do Bolsa Família estão fazendo falta na construção civil, nas colheitas de frutas, nos trabalhos braçais. Os quase R$ 700 médios de Bolsa Família têm desestimulado a procura de trabalho. Somados a outros benefícios, são suficientes para sobreviver sem precisar acordar cedo, pegar condução, cumprir horário, obedecer ordens, fazer esforço físico, suar. Pesquisas mostram que dois terços dos entrevistados querem redução de jornada. Certamente desconhecem as consequências. Nem sabem que 44 horas semanais é a jornada máxima, que pode ser negociada. A média, hoje, já é inferior a 39 horas.
Neste ano, serão R$ 158 bilhões dos impostos de todos para custear o benefício. Não parece justiça social uns viverem do suor dos outros. Os de carteira assinada são 39 milhões. Bolsa Família, 49 milhões. A vitória final do programa seria quando houvesse zero beneficiados. Todos trabalhando e gerando renda. O prefeito de Bento Gonçalves tentou: os beneficiários com saúde recebiam oferta de emprego. Mas ninguém quer perder o Bolsa Família. É de graça e não precisa trabalhar. O governo já gasta muito e tem de pedir emprestado. A dívida pública já está perto de 80% da renda do país. O que significa R$ 1 trilhão de juros anuais. O Estado sustenta 53% de brasileiros. Ou melhor, 47% sustentam o Estado e seus dependentes. Qual o futuro desse desequilíbrio? Não há mágica nem milagre. Haddad está deixando o ministério; não foi Édipo para decifrar essa esfinge. Será seu substituto um Teseu, para entrar nesse labirinto?
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos




