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É ridículo, mas é levado a sério pelo presidente candidato à reeleição. Inventaram uma mentira, de que o candidato que vai subindo nas pesquisas quer retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Parece coisa rasteira, sem importância, uma bobagem vulgar. Mas foi necessário apelar para o Tribunal Superior Eleitoral para tirar a mentira que poderia estar prejudicando o candidato Flávio Bolsonaro. Imediatamente interveio um ministro do Supremo, Flávio Dino, cancelando a derrubada da mentira, sob o argumento de que é liberdade de expressão religiosa. Claramente uma interferência a favor de manter a circulação nas redes de uma mentira. Em outras palavras, o ministro do Supremo impulsiona a mentira que, nas redes, tem sido chamada de fake news.
Em entrevista à Band News, o presidente Lula também impulsionou as fake news. E tomou a iniciativa, antes de qualquer pergunta. Disse não saber se iriam perguntar, mas que considera que ele não aceita mexer com Nossa Senhora Aparecida. A repórter cortou a palavra, e explicou que se trata de uma comprovada mentira, já desmentida na própria origem, mas Lula não se deu por vencido: “O dado concreto é que está nas redes sociais”. Quer dizer, uma mentira, nas redes sociais, vida dado concerto, isto é, fato. Depois, ainda afirmou que quer respeito a todas as religiões. Ninguém insistiu em informar o presidente que não é ele quem quer; é a Constituição, no artigo 5.º, inciso VIII. Santa teocracia fajuta brasileira! Lula, dias antes, havia argumentado que o vermelho da bandeira do PT é do sangue de Cristo, cometendo o que, para as religiões cristãs, é uma blasfêmia.
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A mentira usa um projeto de 2007, de Victorio Galli, um pastor da Assembleia de Deus, deputado suplente de Mato Grosso, volúvel porque já passou por sete partidos, para alterar a Lei 6.802/1980, que criou o feriado de 12 de outubro em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. O projeto mantinha o feriado, mas mudava para “Nossa Senhora Aparecida, padroeira dos brasileiros católicos”. O projeto foi arquivado. Até porque Nossa Senhora da Conceição Aparecida é padroeira do Brasil não por lei brasileira, mas por decreto do papa Pio XI, de 1930. É decreto papal, que talvez só possa ser mudado por outro decreto do papa. Além disso, Flávio Bolsonaro não tem nada a ver com isso. Em 2007, ele era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Se não é verdadeiro, é oportuno, devem ter pensado Lula e Dino. A última semana de campanha virou vale-tudo porque há desespero com a tendência revelada pelas pesquisas. Com tanta questão importante – corrupção, compra de autoridades públicas, mentira, hipocrisia com apostas, descrédito de instituições, compra de votos com benesses, juros estratosféricos puxados por dívida pública em consequência de déficits fiscais e gastos excessivos em prejuízo de serviços públicos, insegurança pública e jurídica, instabilidade econômica, fuga de capitais –, com tudo isso, a discussão é religiosa. Se assim for, deveriam discutir moralidade, ética, justiça, que estão na essência da religião. Mas, enfim, as fake news com Nossa Senhora são graves, mas não são uma facada, como a do final de campanha em 2018.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



