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Alexandre Garcia

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Liberdade de expressão

Leão libertador

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O papa Leão XIV em encontro com diplomatas em 9 de janeiro. (Foto: Vatican Media handout/EFE/EPA)

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O Banco Master, o “Careca do INSS”, a Venezuela, o Irã, esses dias ocuparam no noticiário um espaço que em tempos de honestidade e paz seria preenchido pela manifestação essencial do papa Leão XIV, na tradicional reunião de início de ano com diplomatas do mundo inteiro, servindo em Roma e no Vaticano. Eram 420, segundo as notícias da última sexta-feira. Muitos consideraram esse discurso o mais severo do papa, dirigido aos Estados e instituições. Obviamente, falou da violência: “a guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está a alastrar”; da subestimação do papel social da família, “levando à progressiva marginalização institucional”. E, sobretudo, defendeu as liberdades de opinião e de expressão.

Chefe de uma Igreja que, por 407 anos, teve um Índice dos Livros Proibidos, só extinto por Paulo VI em 1966, o papa Leão XIV se torna, com esse discurso, um paladino das liberdades de expressão, de consciência, de religião e até de viver. Alerta o mundo que não está percebendo que essas liberdades estão sendo restringidas: “é doloroso constatar que, especialmente no Ocidente, os espaços para a liberdade de expressão estejam cada vez mais a ser reduzidos, enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam”. O papa americano conhece muito bem a tirania do movimento woke, nascido na Califórnia.

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Isso atinge principalmente quem tem as palavras como seu principal instrumento profissional, como os jornalistas, por exemplo. Ouçam o papa: “hoje em dia, o significado das palavras é cada vez mais fluido e os conceitos que elas representam, cada vez mais ambíguos. A linguagem já não é o meio privilegiado da natureza humana para conhecer e encontrar, mas, nas malhas da ambiguidade semântica, torna-se cada vez mais uma arma com a qual se engana ou se atinge e ofende os adversários. Precisamos que as palavras voltem a expressar de forma inequívoca realidades certas. Só assim poderá retomar-se um diálogo autêntico e sem mal-entendidos”. E, mais adiante: “é importante notar que o paradoxo deste enfraquecimento da palavra é com frequência reivindicado em nome da própria liberdade de expressão. No entanto, se olharmos bem, é verdade o contrário: a liberdade de palavra e de expressão é garantida precisamente pela certeza da linguagem e pela certeza de que cada termo está ancorado na verdade”.

As palavras não significam mais a realidade e a verdade. Isso é trágico para nos entendermos. Por isso temos uma língua. E a Constituição do Brasil diz, no artigo 13, que é o português. Quando os Legislativos do Amazonas e de Santa Catarina, e os dos municípios de Porto Alegre (RS), Muriaé (MG) e São Gonçalo (RJ), fizeram leis proibindo nas escolas e no serviço público a linguagem neutra, que não existe na língua portuguesa, o Supremo não permitiu que defendessem a Constituição. A ministra Cármen Lúcia, no voto em fevereiro do ano passado, chegou a afirmar que proibir a linguagem neutra viola a liberdade de expressão. Contraria não apenas o papa, mas a língua portuguesa, a natureza e a Constituição. A linguagem woke é engodo que exclui, a pretexto de incluir.

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Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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