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A captura de Nicolás Maduro, agora, e a Lei Magnitsky em Moraes, antes, nos fazem evocar abundantemente soberania – depois de um longo período em que defendíamos que o povo é que é soberano. Nota do governo Lula diz que a captura de Maduro foi “uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela”. Lula, no meio do primeiro ano do atual mandato, afirmou, sobre eleições na Venezuela e defendendo Maduro, que “o conceito de democracia é relativo”. Ora, quando há democracia relativa, soberania é igualmente relativa. Quem está desesperado com perigo em sua casa não se importa que o vizinho entre para aliviar o perigo. Entre a soberania nacional e uma ditadura que censura, sequestra, tortura e mata, tira as liberdades, frauda eleição e é narcotraficante – qual é a opção?
Além disso, de quem é a soberania? Do Estado? Da nação? Uma nação é o povo. O Estado é um governo, que só existe para servir ao povo. Assim, a soberania é do povo, que é o soberano. Se o povo não pode fazer oposição, não tem liberdade de expressão, nem de escolha, não tem soberania. Nesse caso, a soberania é do Estado opressor. E não é democracia. Em democracia, a soberania é do povo. Não de um Estado opressor, injusto e bandido. Maduro era um ditador típico de república bananeira. Os Estados Unidos conviveram com muitos desses, mas eles não chamavam o Irã, a Rússia e a China – nem tinham cubanos em postos-chave da segurança do país. Os Estados Unidos já têm Cuba a 170 quilômetros de Key West; não aceitam uma Venezuela chinesa no sul do Caribe, sustentando outras ditaduras com seu petróleo.
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O Brasil não defendeu a soberania da Guiana quando Maduro anexou Essequibo no mapa da Venezuela. Nem ligou para a soberania do Uruguai quando cercou Montevidéu para tirar o presidente blanco Atanasio Aguirre e entronizar o colorado Venancio Flores. Só quem protestou foi Solano López – e essa foi uma das causas da Guerra do Paraguai. O Estado brasileiro não se importou com a soberania nacional quando partes do território, inclusive amazônico, foram sendo ocupadas pelo PCC e pelo Comando Vermelho. Quem condena a prisão de Maduro, por ordem de um juiz federal americano, defende a opção de manter um ditador narcotraficante; defende a legitimidade de uma fraude explícita na eleição venezuelana.
Cumprida a ordem judicial, o governo americano opta pelo paradoxo de manter como interlocutora a vice-presidente Delcy Rodríguez, oriunda da mesma eleição fraudada em que Maduro se proclamou vencedor. O irmão dela, Jorge Rodríguez, é o presidente da Assembleia Nacional e ambos teriam controle sobre as forças armadas e todos os postos de Estado preenchidos por bolivarianos fiéis. Delcy anunciou caça aos que apoiaram a captura de Maduro. Ainda não há calmaria para convocar eleição tendo María Corina como candidata, nem é oportunidade de submetê-la a um desafio desgastante.
As forças armadas, aliás, enfraquecidas pela ideologia, demonstraram não ter capacidade de garantir a soberania. Seu comandante supremo foi levado sem baixas dos captores. Um país sem força militar dissuasória só é capaz de ter soberania na saliva. Maduro temia isso; sua segurança era de cubanos. Que também fracassaram. A Venezuela nos mostra também que ter riqueza natural não basta. Com socialismo e ditadura não há petróleo que dê bem-estar e liberdade. E mostra que fraude em eleição é fraude na democracia.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



