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Com a mente passeando entre os fatos, a imaginação cria uma daquelas senhorinhas de Bíblia na mão, na Praça dos Três Poderes a clamar: “O Todo-Poderoso enviou Vorcaro para separar o joio do trigo; a hora chegou!” Quando vi o discurso de Vorcaro, que está nas redes, em 15 de maio de 2024, em evento do Valor Econômico, em Nova York, percebi o modo da conquista. Alguns receberam como “palavras inspiradoras”, como a apresentadora do evento; outros foram além, como o escritório da família Moraes, que já estava no terceiro mês de recebimento de R$ 3,6 milhões mensais.
Volta e meia temos a demonstração de que somos ingênuos e espertos. Quando somos ingênuos, elogiamos um espertalhão e ele vira ícone de uma atividade – agora é banco. Na minha geração, lembro de muitos, que geraram elogios, notícias, coluna social; eram geniais, mas depois veio o escândalo, sempre de bilhões. Descobrimo-nos ingênuos, crédulos. Quando há espertos entre nós, agimos como nas piadas de recém-chegados à cidade, que compram bilhete premiado e bonde. O ingênuo pensa que é esperto, quer ganhar muito e vira bobo ante o espertalhão. Agora há mais um registro na nossa história de vigarices. E com efeitos num ano eleitoral.
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Parece um vaticínio da senhorinha da Bíblia: os espertos se enredaram em seus próprios negócios com o espertalhão. Mas agora é o espertalhão que abre o caminho da prisão. Esmurrando a parede, amaldiçoa os nomes dos espertos porque se sente um bobo que comprou serviços que não lhe foram entregues. E desmascara, em gritos ouvidos por carcereiros, os nomes dos mais espertos que o espertalhão. “Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as. O que esta gente faz em segredo, tem vergonha até de dizê-lo. Mas tudo o que é condenável torna-se manifesto pela luz. É por isso que se diz: desperta, tu que dormes...” Parece mais vaticínio da minha senhorinha da Bíblia, mas é de pregação de São Paulo aos Efésios – ou aos brasileiros, epístola da segunda leitura na liturgia desse domingo.
Virá a luz pela boca de Vorcaro? Ele trocou de advogado. Contratou um que já fez a delação premiada de Léo Pinheiro, o empreiteiro do tríplex do Guarujá, que originou uma das condenações de Lula – entre as anuladas pelo Supremo. Se há o risco de Vorcaro ser sicariado, como imagina muita gente, os seus telefones são seguro de vida, porque levariam à luz os nomes dos prováveis suspeitos. Enquanto Vorcaro amaldiçoava nomes na prisão, chegava ao Brasil o eco das palavras do papa no sábado, quando abriu o ano do Judiciário vaticano: para ter credibilidade, a Justiça tem de ter a imparcialidade do juiz, o efetivo direito de defesa e a razoabilidade do prazo do processo. No Brasil falta isso num inquérito que começou ilegal e já dura sete bíblicos anos.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Alexandre Garcia começou sua trajetória no jornalismo na década de 70. Trabalhou na Globo, onde passou pelos principais telejornais da emissora. Hoje atua como comentarista em 32 jornais e 210 rádios. É um dos nomes mais respeitados da imprensa brasileira, por sua expertise e opiniões contundentes, exercendo grande influência na mídia nacional. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



