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Calma. Deu tudo certo.
Sei que as horas não passam. Sei que você conta os dias até esse bendito 25 de outubro, quando vai poder abraçar sua família e comemorar o fim de uma era. Sei que dorme mal, acorda com o celular na mão e lê cada pesquisa desconfiado, com o coração apertado.
Sei porque também estive aí. E é daqui, do outro lado da apuração, que te digo: pode respirar.
Lembro muito bem daquela última semana.
No sábado, eu estava em São Paulo, num evento de trabalho que nem era sobre política. Mas ninguém conseguia falar de outra coisa. Em cada roda, a mesma pergunta de duas sílabas: será?
À noite, no aniversário de uma amiga que trabalhava na campanha, ganhei um adesivo com o número 22.
No domingo, fiz algo que nunca tinha feito: não fui à manifestação na Paulista. Eu ia a todas. Mas, naquela manhã, tive medo de encontrar a avenida lotada, me encher de esperança e acabar frustrada mais uma vez.
Preferi correr no Minhocão. No caminho, gente dormindo nas calçadas e meu namorado repetindo os conselhos de sempre: não tira o celular do bolso.
Antes de sair, olhei para o adesivo em cima da mesa. Pensei em colar na camiseta. Não colei.
Aquele 22 representava muito do que eu acreditava: o fim do ciclo do PT, espaço para uma nova geração e para as ideias liberais que defendo. Não sou devota de Flávio Bolsonaro, muito menos filiada ao PL. Mas, naquela eleição, aquele número representava o país que eu sonhava em viver.
A mudança não ficou restrita à política. Vejo uma classe média que voltou a respirar, que consegue pagar a escola dos filhos, viajar nas férias e trocar de carro. Vejo jovens que deixaram de sonhar apenas com uma passagem de avião para fora do Brasil
No Minhocão, estavam os Revolucionários de Starbucks: entre pochetes e meias coloridas, comecei a contar os adesivos. A cada cinco corredores, três levavam Lula no peito. Nenhum levava Flávio. Fiquei imaginando como reagiriam se vissem o meu. E tive medo.
À noite, veio o debate. Assisti encolhida no sofá, tentando descobrir quem estava ganhando, até que o cansaço venceu e dormi antes do fim.
Na segunda-feira, a viagem de volta a Curitiba foi uma longa análise do debate. Desci do carro direto para o estúdio do Sem Rodeios. A pauta? O mesmo debate.
E assim foi o restante da semana. No caminho para a Gazeta, ensaiava o que dizer no ar, tentando encontrar alguma palavra capaz de tranquilizar quem estava do outro lado da tela.
Mas como acalmar alguém quando eu mesma estava exausta?
É por isso que escrevo de 2036. Para te contar o que aconteceu depois.
O dia 25 de outubro foi histórico.
Passava um pouco das sete da noite quando a vinheta do plantão tocou e a sala ficou em silêncio. O apresentador do Jornal Nacional fez aquela pausa de quem conhece o peso da frase e anunciou: Flávio Bolsonaro está eleito presidente da República.
Depois disso, ninguém ouviu mais nada. Lá fora, buzinas e fogos. Dentro de casa, abraços que pareciam não ter fim.
Os meses seguintes não foram fáceis. Alexandre de Moraes passou o resto do ano tentando de tudo. Não conseguiu. O tempo dele tinha acabado.
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No dia 5 de janeiro, veio a posse. Depois, as imagens que tanto esperávamos: pessoas presas injustamente deixando a cadeia e abraçando suas famílias. Ministérios entregues a gente técnica. Vieram as brigas, porque continuávamos no Brasil. Mas agora havia um projeto, e as reformas começaram a sair do papel.
Aos poucos, aquela pergunta que ouvira tantas vezes em São Paulo foi encontrando suas respostas.
Voltei à Paulista. Dessa vez, não precisei fugir da esperança. Fui comemorar.
Também voltei ao Minhocão. Hoje caminho até lá com o celular na mão, sem ninguém precisar repetir os antigos conselhos. A segurança pública voltou a funcionar, e as ruas do centro voltaram a pertencer a quem passa por elas.
Ainda encontro corredores com adesivos dos dois lados. E isso é o mais bonito: ninguém precisa ter medo de mostrar em quem acredita.
E a mudança não ficou restrita à política. Vejo uma classe média que voltou a respirar, que consegue pagar a escola dos filhos, viajar nas férias e trocar de carro. Vejo jovens que deixaram de sonhar apenas com uma passagem de avião para fora do Brasil e começaram a imaginar o legado que podem construir aqui.
Nem tudo se resolveu, é claro. Mas aquela sensação de que o país estava condenado a repetir os mesmos erros ficou para trás.
Lembra que, no caminho para a Gazeta, eu tentava encontrar as palavras certas para tranquilizar quem me assistia?
Dez anos depois, finalmente sei o que queria que aquelas pessoas sentissem.
Alívio.
Então, calma. Mas não se culpe pela angústia. Você tem razão em se preocupar. A política merece a sua atenção, porque é dela que sai o país que vamos deixar para os nossos filhos.
E pode colar seu adesivo e espalhar por aí: o dia 25 de outubro vai ser histórico.
Com carinho,
Anne Dias, outubro de 2036

Anne Dias é advogada, mestranda em Ciência Política pela UFPR, comentarista e colunista da Gazeta do Povo. Tem trajetória em instituições no Brasil e no exterior dedicadas à promoção da liberdade, com experiência em Washington, D.C. É fundadora do Instituto Amplifica, iniciativa voltada à formação de vozes em defesa da liberdade no debate público. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



