Publicidade
Anne Dias

Anne Dias

Goleiro preso no Irã

Nem Vini Jr, nem Haaland, o destaque da Copa é Mazaheri

O caso Mazaheri expõe a face do regime iraniano: no Irã, uma frase pode levar à prisão. (Foto: Mehdi Bolourian/Wikimedia Commons)

Ouça este conteúdo

"Onde está Rashid Mazaheri?" Em meio aos milhares de torcedores que acompanhavam o empate entre Irã e Bélgica, um cartaz com essa pergunta roubou a cena.

Mazaheri, goleiro reserva da seleção iraniana que participou da Copa de 2018, está preso desde fevereiro. Seu crime? Uma frase. Nas redes sociais, escreveu que o então líder supremo, Ali Khamenei, era “apenas um capítulo sombrio e passageiro na história do Irã”.

Horas depois, agentes do regime invadiram sua casa, confiscaram seu celular, apagaram a postagem e o levaram. Nas semanas seguintes, o governo sequer confirmou sua prisão. Quando houve um pronunciamento oficial, a justificativa foi a de que Mazaheri estava preso porque tentou sair do país ilegalmente. E, ainda que fosse verdade, em que tipo de regime "sair do país" é considerado um crime?

Mazaheri não foi o único. Há levantamentos que apontam que 44 jogadores iranianos morreram durante a repressão aos protestos entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Outros 10 atletas seguem presos, alguns sob risco de execução.

O Irã expôs seus valores na Copa em outros momentos também. Muito antes de a bola rolar contra o Egito, já existia uma polêmica. A cidade de Seattle escolheu aquela partida para coincidir com o Pride Weekend (semana do orgulho LGBT), uma decisão tomada meses antes do sorteio da Copa.

O azar do destino fez com que, justamente, Irã e Egito, dois países que criminalizam a homossexualidade, fossem os adversários. As duas federações pediram à FIFA que bandeiras do arco-íris ou qualquer manifestação LGBT fossem proibidas no estádio. A resposta foi não.

Irã e Egito tentaram exportar sua lógica autoritária para os Estados Unidos, um país que está prestes a completar 250 anos de independência, tendo a liberdade individual como um de seus pilares. Ainda assim, parte da esquerda insiste em retratá-lo como intolerante e opressor.

No entanto, nem mesmo durante o governo Trump esteve em discussão o direito de pessoas LGBT realizarem manifestações públicas ou exibirem suas bandeiras, apesar de o presidente ser frequentemente rotulado de "extrema direita" e acusado de representar uma ameaça às minorias.

Quem tentou censurar essa liberdade foram justamente dois governos que criminalizam a homossexualidade e perseguem quem pensa diferente

E essa história me fez lembrar de uma conversa que tive anos atrás, quando fiz um intercâmbio no Egito. Eu tinha 20 anos e, durante um jantar, notei que um colega egípcio evitava qualquer crítica ao seu presidente, mesmo falando em voz baixa em um restaurante.

Quando contei que, no Brasil, havia gente usando camisetas com a frase "Fora Temer", ele me olhou sem acreditar. "Camisetas?", perguntou. Respondi que não era só isso. Havia quem criticasse o presidente todos os dias no Facebook, pichasse muros com a mesma frase e participasse de manifestações de rua pedindo seu afastamento. E isso era normal.

A conversa foi revelando um mundo completamente diferente do meu. Ele me contou que era ateu, e aquilo era um segredo absoluto. Perguntei sobre gays. Ele respondeu que esse era um assunto proibido. Depois falou sobre as mulheres, impedidas de fazer coisas que, para mim, sempre pareceram triviais. Foi naquela mesa de restaurante que entendi o verdadeiro significado da palavra liberdade.

Ao todo, são oito as seleções que representam países classificados como autoritários ou não livres por organizações como a Freedom House: Irã, Arábia Saudita, Catar, Egito, Argélia, Iraque, Uzbequistão e República Democrática do Congo.

Em cada um deles, a liberdade é restringida de uma forma diferente. Em alguns, opositores desaparecem ou são executados. Em outros, jornalistas são presos, eleições são manipuladas e mulheres podem ser punidas por mostrar o cabelo em público. Quase um quinto das seleções desta Copa representa governos que tratam a discordância como crime.

A verdadeira divisão desta Copa não aconteceu entre os fãs do Vini Jr. ou do Haaland. Ela aconteceu entre países onde um cidadão pode criticar o governo e voltar para casa, e países onde uma frase pode custar a liberdade ou a própria vida.

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.