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Anne Dias

Anne Dias

Eleições EUA

Quem será o herdeiro de Trump? JD Vance versus Marco Rubio

J.D. Vance, à esquerda, e Marco Rubio, à direita, são os nomes mais prováveis do partido Republicano para a disputa de 2028. (Foto: WILL OLIVER/EFE/EPA)

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Imagine um texano. Barba ruiva, chapéu de cowboy, country no rádio da caminhonete. No coldre, uma arma. No para-choque, a bandeira de Gadsden: uma cascavel enrolada sobre fundo amarelo e o aviso "Don't tread on me" (não pise em mim). A cobra nasceu em 1775, na revolta dos colonos contra os impostos da Coroa britânica, e até hoje é o símbolo de quem desconfia de governo grande. 

Pois o Texas, que deu a Trump quase 14 pontos de vantagem em 2024, elegeu na terça um senador democrata pela primeira vez desde 1988.

A queda foi esmagadora. Os republicanos perderam a Câmara e o Senado. Trump chegou às urnas com 38% de aprovação, a pior marca já registrada numa eleição de meio de mandato. Três em cada quatro eleitores citaram a guerra no Irã, que encareceu a gasolina. O tanque da caminhonete ficou mais caro.

Trump escreveu que, se estivesse na cédula, teria vencido de lavada. Se teria mesmo, ninguém vai saber. O que se sabe é que, com dois anos de mandato pela frente, a briga pela herança dele já começou.

E quem são os competidores? 

Primeiro: Marco Rubio, o diretor de cinema. Ele adora uma cena bem acabada e não economiza no orçamento. Em janeiro, assinou uma das maiores produções do ano. Aeronaves cruzaram o céu da Venezuela. Caças, bombardeiros e a Delta Force chegaram a Nicolás Maduro, em Caracas. Trump assistiu a tudo ao vivo. Segundo ele, a captura levou 47 segundos. Corta.

Como advogada, penso no inventário. No Brasil, o herdeiro não paga dívidas maiores do que aquilo que recebeu

A cena mais recente tem roteiro de filme de fuga. Dois dias depois do segundo turno, Flávio Bolsonaro visitou o pai, enquanto agentes da Polícia Federal o esperavam para recolher o passaporte. Sumiu. Atravessou a fronteira em Foz do Iguaçu, embarcou na Argentina, fez escala no Equador e reapareceu em Miami, sem deixar registro na imigração brasileira. Um aliado de Trump atribuiu a direção a Rubio, que nega ter assinado o roteiro.

Nenhum diretor resiste a uma superprodução, e a guerra do Irã tem as digitais dele. Rubio chamou o ataque de "um favor" ao mundo. 

Se Rubio é o diretor, JD Vance é o síndico. Olha para dentro do prédio e desconfia de qualquer obra no terreno do vizinho. Ex-fuzileiro que serviu no Iraque, sempre torceu o nariz para guerras longe de casa e foca no lema: America First.

Na manhã seguinte à derrota, o síndico convocou a assembleia e publicou no X uma frase que vice nenhum escreve sobre o chefe: "a razão de termos perdido é a guerra". O filho do presidente, Donald Trump Jr., assinou embaixo: "cada palavra disso".

Nas pesquisas, porém, o diretor saiu na frente. Na mais recente, da AtlasIntel, Rubio tem 45,6% entre os republicanos, contra 32,9% de Vance. Rubio prometia apoiar Vance. Com esses números, vai manter a palavra?

Como advogada, penso no inventário. No Brasil, o herdeiro não paga dívidas maiores do que aquilo que recebeu. Na política, essa regra não existe. Quem ficar com o trumpismo leva o pacote inteiro: a guerra, a gasolina cara e a derrota de 2026.

O próprio Vance admitiu que muitos eleitores de Trump em 2024 votaram nos democratas agora. Os herdeiros brigam pelo cofre sem perceber que ele saiu andando. Tem barba ruiva, chapéu de caubói e uma cascavel amarela no para-choque.

A cobra não tem partido. Em 1775, mordeu a Coroa que cobrava sem pedir licença. Em 2026, a conta veio na bomba de gasolina, e ela mordeu de novo, agora na urna.

Quem quiser a herança de Trump, seja o diretor ou o síndico, vai ter que reaprender a ler o para-choque.

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