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O agronegócio brasileiro se acostumou a ser cobrado. Cobrado por produtividade, por preservação ambiental, por segurança alimentar, por exportações, por abastecimento interno, por geração de empregos, por superávit comercial e até por narrativas criadas por quem, muitas vezes, nunca pisou em uma fazenda.
Mas há um papel do agro que nem sempre aparece nas estatísticas: a solidariedade.
A campanha Agro pela Venezuela nasce dessa convicção. Diante da tragédia que atingiu o povo venezuelano, especialmente após o terremoto, decidimos que o agro brasileiro não pode ficar indiferente. Quem alimenta o mundo também precisa ajudar a reconstruir vidas.
A Venezuela não é uma abstração geopolítica. Não é apenas o país do noticiário, da crise, da ditadura, da inflação, da migração e do sofrimento social. A Venezuela é feita de famílias, crianças, idosos, agricultores, trabalhadores, mães e pais que, neste momento, precisam de ajuda concreta.
E ajuda concreta é algo que o agro brasileiro sabe organizar.
O campo brasileiro aprendeu a lidar com distância, logística, urgência, escala e cooperação. Sabe transformar produção em alimento, planejamento em entrega, máquinas em resultado, tecnologia em abundância. Essa capacidade, que normalmente aparece na safra, no abastecimento dos supermercados e nas exportações, também pode aparecer agora como gesto humanitário.
O agro não deve ser solidário por marketing. Deve ser solidário por princípio.
Há algo profundamente humano em ver produtores, cooperativas, associações, empresas, transportadores, agroindústrias e entidades rurais se mobilizando para ajudar um povo vizinho. Em especial quando esse povo está tão próximo de nós — inclusive fisicamente, na fronteira de Roraima, onde tantos venezuelanos já buscaram abrigo, trabalho e esperança no Brasil.
Boa Vista se tornou, nos últimos anos, uma porta de entrada da dor venezuelana. Muitos brasileiros viram de perto famílias cruzando a fronteira com quase nada além da roupa do corpo. Viram crianças, trabalhadores, mães e jovens tentando recomeçar. A crise venezuelana, tragédia de um regime socialista, deixou de ser uma notícia distante. Tornou-se uma presença humana nas ruas, nos abrigos, nas igrejas, nos serviços públicos e nas comunidades brasileiras.
Agora, diante de mais uma catástrofe, é natural que o Brasil que produz também seja o Brasil que ajuda.
Essa solidariedade, porém, precisa ser organizada com seriedade. Campanhas humanitárias não podem virar improviso nem palanque. Precisam de transparência, coordenação, destino correto das doações e parceria com entidades locais confiáveis. Por isso, a ideia de unir forças no Brasil e contar com apoio institucional e operacional dentro da Venezuela é essencial.
O objetivo não é fazer política. É ajudar pessoas.
E aqui é preciso separar as coisas. Criticar o regime venezuelano é legítimo. Denunciar os erros econômicos, a falta de liberdade e a destruição institucional que empobreceram aquele país também é necessário. Mas nenhuma crítica ao poder pode nos tornar indiferentes ao sofrimento do povo.
Ao contrário: justamente porque sabemos o que a escassez faz com uma sociedade, devemos valorizar ainda mais a abundância que o agro brasileiro ajuda a construir — e compartilhá-la quando há necessidade.
O agro brasileiro é frequentemente acusado de pensar apenas em lucro. Essa caricatura não resiste à realidade. Em todo o país, produtores rurais ajudam hospitais, santas casas, escolas, comunidades, igrejas, famílias atingidas por enchentes, incêndios, secas e tragédias locais. Muitas vezes fazem isso sem propaganda, sem discurso e sem esperar reconhecimento.
A campanha Agro pela Venezuela é uma oportunidade de mostrar isso de forma mais ampla: o agro brasileiro é força produtiva, mas também pode ser força moral.
Quem produz alimentos entende o valor da vida concreta. Sabe que fome não espera ideologia. Sabe que uma família desabrigada não precisa de discurso, mas de água, comida, abrigo, remédio, roupa, transporte, atendimento e esperança.
O Brasil tem problemas enormes: impostos altos, infraestrutura ruim, insegurança jurídica, burocracia sufocante e um Estado que muitas vezes atrapalha quem trabalha. Mesmo assim, o agro brasileiro segue produzindo. Produz para o Brasil e para o mundo. Produz em escala, com tecnologia, eficiência e responsabilidade.
Agora, pode também produzir solidariedade.
“Agro pela Venezuela” não deve ser entendido apenas como uma campanha de doação. Deve ser visto como uma afirmação: o campo brasileiro não está isolado da dor humana. O produtor rural não vive apenas dentro da porteira. Ele faz parte de uma civilização que só se sustenta quando produção e compaixão caminham juntas.
A riqueza de um setor não se mede apenas pelo que ele exporta, mas também pelo que ele é capaz de entregar quando alguém precisa.
E, neste momento, nossos vizinhos precisam.
Que o agro brasileiro mostre, mais uma vez, sua capacidade de agir. Que entidades se unam. Que empresas contribuam. Que produtores participem. Que a sociedade civil se organize. Que a ajuda chegue de forma correta, transparente e eficiente.
Porque o agro que alimenta também deve amparar.
Do campo, ajuda.
Do agro, esperança.


Antonio Cabrera é médico-veterinário, empresário do agronegócio e presidente do Grupo Cabrera. Foi ministro da Agricultura e Reforma Agrária — o mais jovem da história — e secretário da Agricultura do Estado de São Paulo. Integra o Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e preside o Centro Mackenzie de Liberdade Econômica. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



