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Antonio Cabrera

Antonio Cabrera

Agronegócio

Potência alimentar: o Brasil não percebeu o poder que tem

Somos o maior exportador mundial de soja (56% do comércio global do grão), açúcar (44%), suco de laranja (76%), café (27%), milho (31%, posição conquistada ao ultrapassar os Estados Unidos), carne bovina (24%) e de frango (33%). (Foto: Imagem produzida com ChatGPT/Gazeta do Povo)

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Quando se fala em poder nacional, pensamos em petróleo, armas, tecnologia, território, capacidade industrial. Raramente colocamos a produção de alimentos no mesmo patamar. Deveríamos.

Um levantamento que fiz recentemente, cruzando os Food Balance Sheets da FAOSTAT (2010–2023, ano-base 2023) com o índice de autossuficiência do Ministério da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão, mediu algo que as estatísticas tradicionais em toneladas e dólares costumam esconder: quanto da alimentação de cada país depende da capacidade produtiva de outros.

A metodologia importa, então vale explicar rapidamente. Para cada país e cada alimento, calculei a proporção entre produção nacional e oferta interna; a parte não coberta pela produção doméstica foi tratada como dependência calórica do exterior. Um detalhe decisivo: excedente de um produto não compensa falta de outro. Um país que produz açúcar de sobra, mas depende de importar trigo, carne ou óleo, continua dependente nesses itens; o excesso do primeiro não anula a carência dos demais. A pergunta que a conta responde não é “esse país teria como se alimentar de algum jeito”, é “quanto ele precisaria importar para manter a composição atual da própria dieta”.

O resultado, sobre 173 países e economias: todos, sem exceção, dependem de produção externa em algum grau para sustentar sua dieta como ela é hoje. Cento e sessenta e nove têm mais de 5% de dependência calórica. Cento e cinquenta e oito, mais de 10%. Cento e trinta e seis, mais de 20%. Sessenta e quatro países, mais de um terço da amostra, dependem do exterior para mais da metade das calorias que compõem sua alimentação atual.

É nesse cenário que a posição brasileira se destaca. Pela métrica construída, apenas 6,8% da composição calórica da oferta alimentar brasileira dependia de produção externa em 2023, a 12ª menor dependência entre os 173 países analisados, contra uma mediana global de 36,9%. Não somos autossuficientes em tudo: o trigo responde pela maior fatia dessa dependência, seguido por azeite, óleo de palma e alguns lácteos. Mas a exceção não desfaz a regra.

Poucos países combinam as duas características que o Brasil reúne ao mesmo tempo: dependência alimentar relativa muito baixa e capacidade enorme de fornecer comida ao resto do planeta. Somos o maior exportador mundial de soja (56% do comércio global do grão), açúcar (44%), suco de laranja (76%), café (27%), milho (31%, posição conquistada ao ultrapassar os Estados Unidos), carne bovina (24%) e de frango (33%). A safra de grãos 2025/26 deve bater novo recorde, 353,4 milhões de toneladas, e o agronegócio faturou US$ 169,2 bilhões em exportações em 2025, quase metade de tudo que o país vendeu ao exterior.

E fazemos isso ocupando pouca terra. A lavoura brasileira usa apenas 8% do território nacional, fração menor que os 14% da Argentina, os 18% dos Estados Unidos e da China, os 58% da França e os 61% da Índia. Ainda há margem para crescer sem abrir um hectare de vegetação nativa: cerca de 40% dos 73 milhões de hectares hoje em pastagem estão degradados, terra já desmatada há décadas, candidata natural a ganhar produtividade com investimento em recuperação.

Nada disso veio por acaso, nem se explica só por clima ou tamanho de território. O Brasil construiu uma agricultura tropical que praticamente não existia nos livros estrangeiros: corrigiu solo antes considerado improdutivo, desenvolveu semente adaptada, avançou em sanidade animal, criou o plantio direto, integrou lavoura e pecuária, tornou possível colher duas e, em algumas regiões, três safras no mesmo ano. Essa transformação veio da Embrapa, das universidades, das cooperativas, das empresas de tecnologia, da fundamental liberdade econômica e, sobretudo, do produtor rural que arriscou capital e trabalho onde muitos diziam que nada seria possível. O agricultor brasileiro não herdou uma agricultura pronta. Ele ajudou a inventá-la.

Quando 64 países dependem do exterior para mais da metade da própria alimentação, os grandes produtores deixam de ser apenas participantes de mercado e passam a ser pilares de estabilidade internacional. Uma quebra de safra, uma guerra, o bloqueio de uma rota marítima ou uma restrição repentina à exportação em qualquer desses países produtores tem efeito que ultrapassa fronteiras: nos preços, na inflação, na insegurança alimentar e, em casos extremos, na instabilidade política de quem depende. Cada embarque brasileiro de grão, carne, açúcar ou café é mais que uma operação comercial. É parte da rede que permite a países sem área, água, clima ou escala suficientes manterem a própria mesa.

Isso não significa transformar comida em arma nem perseguir autarquia impossível. Interdependência bem distribuída aumenta eficiência e resiliência do sistema alimentar mundial; o problema é quando a dependência se concentra demais, em poucos fornecedores ou rotas vulneráveis. É justamente por isso que o papel do Brasil importa: o mundo precisa diversificar suas fontes de comida, e poucos países ainda têm condição real de ampliar produção de forma relevante.

Essa posição não está garantida, e vem com responsabilidade proporcional. Não basta produzir dentro da porteira se o alimento encontra estrada precária, ferrovia insuficiente, hidrovia abandonada, armazenagem e porto no limite. Não basta ter competitividade na lavoura se acordo comercial deixa o país em desvantagem tarifária. E o Brasil também carrega sua própria dependência real, embora não apareça integralmente numa conta baseada em origem de caloria: a importação de fertilizante é vulnerabilidade estratégica que convive com a nossa força exportadora, e produzir a maior parte do que se consome internamente não elimina a necessidade de garantir insumo, energia, crédito e segurança jurídica no campo.

Valorizar o Brasil agrícola não é ufanismo, é reconhecer o que os números mostram. Enquanto dezenas de países buscam lá fora uma fatia decisiva da própria alimentação, o Brasil consegue alimentar sua população e ainda ajudar a sustentar milhões de pessoas em outras partes do planeta. Num século marcado por tensão geopolítica, mudança climática e insegurança nas cadeias de suprimento, essa capacidade só vai valer mais. O Brasil não é apenas um grande produtor rural. É uma potência alimentar, e alimentar gente talvez seja a forma mais concreta, pacífica e necessária de poder que uma nação pode exercer.

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