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Expedição chega à Chapada dos Veadeiros

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, formado em 1961 pelo Presidente Juscelino Kubitscheck, chamava Parque Nacional do Tocantins e era 10 vezes maior que o atual, com quase 600 mil hectares, até as margens do rio Tocantins. As pressões políticas acabaram diminuindo aos poucos a área da reserva, que hoje possui apenas 65 mil hectares. Uma coisa que logo descobrimos por aqui é que as principais atrações não estão dentro do parque e sim nos seus arredores. As cidades base para conhecer a região são as cidades de Cavalcante, ao norte, Alto Paraíso e São Jorge, esta última mais próxima da portaria do parque.

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Cachoeira Santa Bárbara e suas águas transparentes no município de Cavalcante.

Montamos um roteiro com as principais atrações do entorno, priorizando a área de Cavalcante, uma das cidades menos exploradas da Chapada. A Cachoeira Santa Bárbara foi a primeira delas, dentro do território Kalunga na Comunidade do Engenho. Águas límpidas, transparentes, que, dependendo da incidência da luz, ficam azulzinhas. Caminhada fácil de uns 20 minutos e chegamos às águas já mais frias das que andávamos acostumados. Seguimos para a Cachoeira Capivari, aonde acontece o encontro das águas dos rios Capivari e Tiririca. Este encontro forma uma linda cachoeira e abaixo dela o cânion, entre paredões de pedra imensos e uma paisagem fantástica.

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Encontro dos Rios Tiririca e Capivara.

Ponte de Pedra é uma das dezenas de atrações nos arredores do parque nacional, porém não é mais uma e sim uma das mais espetaculares. Um arco de pedra imenso, aberto pelo lento e paciente trabalho das águas do Rio São Domingos, nos leva a um cânion estreito, com um salto de aproximados 100m de altura. Outra grande atração são as Cachoeiras do Prata, um grupo de 9 cachoeiras e incontáveis quedas d´água, corredeiras e poços de águas verdes cristalinas no meio do cerrado. Um programa que, dependendo do preparo e da disposição, pode durar o dia inteiro, subindo o rio e explorando cada canto deste paraíso.

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Ponte de Pedra, entrada para o cânion do Rio São Domingos.

Após estas trilhas e banhos revigorantes queríamos também conhecer as comunidades tradicionais da região. A Comunidade Kalunga é formada por negros, descendentes de antigos escravos que foram trazidos para a região para o garimpo e fundições que cunhavam moedas no tempo do Brasil Colônia. Reza a lenda que algumas destas comunidades mais distantes foram formadas por escravos fugitivos, que se isolaram completamente do mundo a ponto de temer o cadastramento do Programa Luz para Todos, achando que teria ainda alguma ligação com a escravidão.

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Kalunga na comunidade de Ouro Minas na região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

O Engenho é a comunidade mais próxima da cidade, apenas 30 km, portanto o que encontramos ali é uma vila de kalungas já bem modernos, vivendo em seus sítios e casas de adobe ou até alvenaria, luz, eletrodomésticos e tudo. “Hoje todos querem ser kalungas”, nos disse nosso guia, pois são a menina dos olhos do governo federal. Além da demarcação do território, existem diversos programas para a manutenção de seus costumes, além de auxílios para estudo e etc. Vários descendentes tinham vergonha de assumir sua origem e este orgulho está sendo resgatado. Ao mesmo tempo, pessoas que nunca viveram dentro da comunidade e já nem tem raízes, querem encontrar um bisavô, tataravô kalunga para receber o auxílio do governo.
Ainda assim quem gosta de explorar e conhecer comunidades mais isoladas, pode ir até o Vão do Moleque ou até o Vão de Almas e irá encontrar kalungas que mantém seu estilo de vida mais tradicional e até desconfiam do turismo, pois querem só continuar levando a sua vida tranquila. O turismo comunitário é sempre uma situação delicada, ainda mais em lugares que não estão acostumados e/ou preparados para receber o turista. Não apenas pela infraestrutura, mas principalmente pela invasão de novos costumes, que podem alterar o modo de vida da comunidade.

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Fogão a lenha na comunidade kalunga. Abóbora e galinha caipira são itens obrigatórios no cardápio.

Alto Paraíso, uma das mais famosas mecas hippies brasileiras, reúne todas as espécies de atrativos que possam interessar a quem está procurando relaxamento. Aos mais espiritualizados e adeptos de práticas holísticas de meditação, rituais e afins, a cidade possui toda a sorte de gurus, templos e ferramentas para te proporcionar uma experiência espiritual profunda.Também possui diversos profissionais especializados em massagens energéticas, shiatsu, acupuntura, cromoterapia, ofurôs, spas completos, além das terapias holísticas e de astrólogos que poderão fazer o seu mapa astral e ver inclusive qual é o seu “human design” (é, essa é nova!).

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Cataratas do Couro, rio onde os caçadores lavavam o couro dos animais, em Alto Paraíso, Goiás.

Há quem busque sua conexão com o plano superior apenas vivenciando e ampliando o seu contato com a natureza. Aí Alto Paraíso também oferece lugares mágicos, cascatas, cachoeiras em meio ao cerrado, sobre montanhas de cristais de quartzo, os mesmos que a turma aí de cima acredita serem muito energéticos. Uma das melhores atrações da região é a Catarata dos Couros, que fica a 50km de Alto Paraíso, dentro de uma área de assentamento. O Rio dos Couros possui este nome, pois era onde os caçadores lavavam os couros de suas caças, a maioria veados, para depois vendê-los. Inclusive, outra curiosidade, Veadeiros é o nome de um cachorro que era muito utilizado na região para a caça dos veados.

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Complexo de Cachoeiras do Rio Prata. São nove no total.

Finalmente chegamos a São Jorge, vila base do Parque Nacional. Uma vila pequena com um charme diferente. Possui mais de 30 pousadas, com diárias para todos os bolsos (variam de 40 a 300 reais), além de restaurantes e lojinha de produtos naturais, cristais e etc.
Dentro da área do Parque Nacional, a área aberta de visitação é pequena, tornando o PARNA Chapada dos Veadeiros um dos parques menos acessíveis do Brasil, fora da região amazônica. O plano de manejo feito há 20 anos ainda não foi implementado e as regras do parque mudam conforme troca a sua diretoria.

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Paredão que forma a Cachoeira do Urubu, no Rio Prata.

Hoje, duas trilhas são disponíveis aos visitantes, a trilha dos saltos e a trilha dos cânions, sendo que o cânion 1 está fechado. No plano de manejo estão previstas também as trilhas para as 7 Quedas, Carrossel e Fiandeiras, esta última cruza o parque da portaria de São Jorge até Cavalcante. Com um dia apenas, decidimos fazer a Trilha dos Saltos, com 4,5km de extensão que nos leva a mirantes maravilhosos para o cânion do Rio Preto, além dos saltos de 120m e 80m.

Ana Biselli e Rodrigo Junqueira
Ana e Rodrigo em um dos mirantes da Ponte de Pedra e Cânion do Rio São Domingos.

A Chapada dos Veadeiros é um território imenso, suas belezas naturais e culturais merecem atenção, não apenas do governo, como de nós turistas. Muitos destes lugares só serão preservados se tiverem o eco-turista, que ajudará a trazer renda para territórios antes queimados e transformados em pasto. Torcemos para que esse desenvolvimento aconteça de forma sustentável, preservando as maravilhas deste cerrado para continuarmos explorando esta, que é uma das regiões mais belas do Brasil.

Próxima Semana
Sairemos da Chapada dos Veadeiros rumo às cidades históricas de Goiás. Pirenópolis, suas casas coloniais, ruas de pedra e cavalhadas e Goiás Velho, por muito tempo a capital do Estado. Passaremos por Rio Verde, capital do agro-negócio, e interior de São Paulo, incluindo Brotas centro de turismo de aventura.
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