

Terminou hoje à tarde o encontro entre o escritor português Gonçalo M. Tavares, a romancista Tatiana Salem Levy, o contista Nilson Luiz May, o vencedor do prêmio SESC de Literatura 2010 na categoria romance, Arthur Martins Cecim, e os estudiosos Maria Esther Maciel e Luiz Costa Lima. Eles se reuniram para o palco de debates de hoje da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, que teve como tema “Identdade, literatura e cultura na globalização”. O debate foi complementado pela presença do cartunista Paulo Caruso, que fez charges instantâneas dos participantes no estilo que faz no programa da Tv Cultura Roda Viva.
Os convidados debateram sobre o papel da literatura nos últimos dois séculos, marcados por uma notável aceleração na modernização e no fluxo de informações. Gonçalo Tavares citou como alegoria um trecho do livro Cabeças Trocadas de Thomas Mann, em que uma mãe não consegue decidir se deve atribuir a paternidade do filho ao pai ou ao homem que trocou de cabeça com o marido e que agora possui a cabeça do pai. “A literatura também é um acidente de cabeças trocadas, criando objetos com cabeça brasileira e corpo americano. A certa altura, não sabemos de quem são nossos filhos”, comparou.
Nilson Luiz May questionou o trono ainda vazio do grande romance do século 20, afirmando que os referenciais modernos da literatura são todos do século 19. Já Tavares acredita que os livros são uma forma de desacelerar a vida: “O mundo cobra-nos cada vez mais que nos apressemos. De certa forma, quando abrimos um livro, estamos dizendo ‘Calma, mais devagar’, a esse mundo”.
Por mais que a globalização signifique uma pasteurização da cultura, May vê um aspecto positivo nessa confluência de civilizações: apontou a ascendência angolana de Tavares, que nasceu em Luanda, a ascendência judaica e turca de Tatiana Salem Levy, e o fato de estarem reunidos aqui em Rio Grande eles e mais o maranhense Costa Lima, a mineira Maria Esther e o paraense Cecim. E justificou o encontro dessas pessoas com interesses em comum no debate citando o conceito salvador de “aldeia global”, cunhado pelo teórico da comunicação Marshall McLuhan. “Ainda é possível usar a ideia de que cantar a sua aldeia é cantar o mundo”.
Maria Esther Maciel arrematou o tema dizendo que a literatura já é globalizada há tempos, e citou o mesmo exemplo de Gonçalo Tavares: Cabeças Trocadas é inspirada em uma antiga lenda indiana. “São histórias que se fundem. As Mil e Uma Noites, por exemplo, tem uma estrutura de texto em rede, histórias dentro da história. Já na Divina Comédia, de Dante, temos cruzamentos de referências e diálogos entre autores de várias épocas. Cabe aos autores de hoje aproveitarem o tempo atual, mas com consciência crítica. Não se render às exigências da homogeneização”.



