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Lula e o vice, Geraldo Alckmin, em campanha em São Paulo
Lula e o vice, Geraldo Alckmin, em campanha em São Paulo| Foto: EFE/ Sebastião Moreira

Nos últimos dias, a geopolítica interna do Brasil só me lembra 1930. Temos um líder aclamado pelas massas urbanas, como em 30. São Paulo está rachada, como em 30. Para dar um gás na eleição daquele que é benquisto pelas massas, aposta-se nas lideranças mineiras – que acabam entregando menos votos do que o previsto. A base do líder popular era um verdadeiro saco de gatos que incluía militares, liberais e adeptos da luta contra a corrupção. E para assegurar o poderio, o lado contrário recorre à Bahia, que entrega os votos prometidos. Mas isso não bastou: para deter o candidato das massas, o dono da caneta usou de todas as ferramentas possíveis para impedi-lo de fazer campanha. A imprensa carioca e parte da paulista, que estavam no coluio, faziam uma cobertura nojenta das eleições e revoltavam os partidários do candidato popular. Ao cabo, Júlio Prestes e Lula venceram, respectivamente, as eleições mais apertadas da República Velha e da Nova República. Mas o processo eleitoral, bem como o engajamento do eleitorado de Vargas e Bolsonaro, levaram o país a convulsões.

Algumas diferenças saltam aos olhos, porém. A primeira delas é que o Exército de hoje não é o Exército de 30. Outra é que, na cisão de São Paulo, Vargas levou a capital e Bolsonaro levou o interior. (Quando se fala de Vargas, os paulistas têm à mente a fracassada Revolução de 32, contra ele. No entanto, os mesmos que repudiaram Vargas em 32 saudaram-no em 30, e até custearam a Revolução exitosa.) Outra, também gritante, é que Bolsonaro conseguiu ser um presidente anti-establishment, coisa absolutamente impossível na República Velha. O crescimento do Judiciário nas democracias transferiu para o Supremo a caneta. Last, but not least, a Bahia da República Velha ainda não tinha entrado na mais franca decadência econômica. Tinha muita gente, mas era mais um estado agrário num país agrário. A Bahia de hoje é um estado agrário pobre e arcaico dentro de um país agrário tecnológico e moderno. É bancada pelo país, mas seus coronéis acharam que seria uma boa ideia decidir a eleição contra o setor produtivo. O eixo econômico que salva a balança comercial do país se estende do Centro-Oeste rumo ao Sul, a São Paulo e ao oeste do Nordeste (a região de divisas estaduais conhecida como Matopiba).

Limar explicações simplórias

Como mostrou esta Gazeta, Lula venceu em 8 das 20 maiores cidades do país. No topo está São Paulo, com seus 12 milhões de habitantes. Para efeito de comparação, a Bahia, que é o maior colégio eleitoral do Nordeste, está perto de 15 milhões de habitantes. Só a cidade de São Paulo já vale quase uma Bahia inteira, em termos de população.

Nessas horas, sempre aparece o paulista que diz que São Paulo é cheia de nordestinos. Quanto a isso: (1) Bolsonaro venceu em Maceió, mas nenhum gênio vai dizer que paulistas infestam a capital alagoana; (2) Haddad ganhou em São Paulo nos bairros das nobres e pobres; (3) Guarulhos, Rio de Janeiro e Brasília também são cheias de nordestino, mas ainda assim Bolsonaro ganhou nessas cidades; (4) o Nordeste foi a única região em que o PT teve menos votos do que em 2018.

Precisamos então começar a admitir que existem diferenças regionais que não podem ser limitadas a “pobres querendo auxílio que votam no PT” x “setor produtivo que quer Estado eficiente”. Creio que duas coisas tiveram peso inegável na queda do eleitorado de Bolsonaro no Sudeste: a inflação e a imprensa. Pessoas mais esclarecidas sabem que o governo foi ótimo na gestão da inflação porque têm em vista o cenário internacional. No entanto, num país continental como o Brasil – e sobretudo numa região que não faz fronteira com outro país –, as pessoas tendem a comparar a situação atual à situação passada; não à situação dos vizinhos. Quanto à imprensa, limito-me a apontar que um importante jornal do Sudeste passou a chamar o “orçamento secreto” de “emendas de relator”. Quando as redes sociais confrontaram o perfil do jornal no Twitter, ele mentiu que só as colunas de opinião usavam a expressão “orçamento secreto” e correu para editar as matérias informativas passadas. Quando é Bolsonaro, é “orçamento secreto”; quando é Lula, a mesma coisa virou “emendas de relator”. No mais, Bolsonaro era genocida por causa da Covid e ia acabar com as girafas da Amazônia. Se a imprensa quisesse, poderia ter mostrado Lula agradecendo à natureza pela criação do coronavírus.

Entender as elites

Já o Nordeste não liga para a opinião pública. Se ligasse, teria parado de votar no PT após o Mensalão, tal como fez o Brasil de São Paulo pra baixo, mais o Centro-Oeste. Um dos mitos que caiu por terra nesta eleição é que basta dar auxílio e infraestrutura para ganhar voto no Nordeste. Pensando bem, daria para duvidar disto antes: olhando os mapas das eleições da Nova República com os candidatos vitoriosos por estado, percebe-se que a Bahia elegeu os mesmos presidentes que o estado de São Paulo em todos os turnos de 89 até 2002. Os mapas desse período são esmagadoramente da mesma cor, com uns estados que em algum momento destoam: o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul às vezes destoam juntos (são os dois estados que elegeram Brizola para o governo, além de terem sido próximos durante o Café com Leite); Alagoas dá uma de do contra do nada; o Ceará elegia Ciro quando tinha Ciro (a primeira vez em que isso não aconteceu foi nesta eleição).

A Bahia não votou em Lula em 2002 por causa de Bolsa Família, porque o projeto nem existia. A Bahia votou em Lula porque ACM o apoiou. Depois, a Bahia elegeu Jaques Wagner porque a base de ACM debandou e parte dos coronéis que lhe eram subordinados (tais como os atuais senadores Otto e Coronel) aderiram ao petismo. Por aqui, o governador Rui Costa deixou os alunos da escola pública sem merenda na pandemia, e não quis nem mesmo cumprir decisão judicial que mandava dar comida. Rui Costa fez sucessor. Logo, não pode ser verdade que o povo daqui vota com a barriga; vota com a autoridade, que, de alguma maneira (seja usando material da imprensa ou os vídeos de Janones), convence de que a alternativa seria pior.

Creio que deveríamos olhar para o Nordeste prestando atenção aos votos para governador. Em Pernanbuco ganhou uma tucana; na Bahia, onde houve a primeira eleição disputada da Nova República, ficou em segundo ACM Neto, do União Brasil. Ganhou uma correligionária de Alckmin e ficou em segundo um candidato cujo partido, ao que parece, irá compor com o novo governo.

Ao meu ver, as elites nordestinas se dividiram entre apoiar o titular ou o vice da chapa Lula Alckmin. O mesmo fenômeno terá acontecido em partes de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, dois estados em que a eleição para presidente foi apertada e nos quais há uma relevância histórica ou atual do PSDB.

Concertação de elites velhas

O Centro-Oeste não tem gente suficiente para lançar uma candidatura nacional. A parte rural de São Paulo, outrora representada pelo PSDB, de repente se viu órfã. Como resultado disso, elegeu Tarcísio, um ministro de boa reputação indicado por Bolsonaro.

É difícil entender a política paulista agora, mas podemos dizer que os tucanos paulistas velhos aderiram à candidatura petista, na contramão do jovem tucano Rodrigo Garcia, atual governador do estado.

Penso que o PSDB, que agregava tanto a turma rural do Café com Leite quanto os uspianos, foi ficando cada vez mais uspiano e financista ao longo da Nova República. Pode ser, também, que o PSDB representasse uma parcela do setor rural do Sudeste que não entrou na onda do agronegócio moderno. Seja como for, fato é que o PSDB paulista não representa o agronegócio paulista, e isso explica a eleição de Tarcísio, que supriu essa carência. O governo de Bolsonaro é identificado como um governo pró-agronegócio, ao contrário do governo do PT ao qual se associa um tucano velho, recém-desfiliado.

Assim, faz sentido que o PSDB mantenha um eleitorado coeso fora do estado de São Paulo. Mas, além disso, há no estado a Faria Lima, que agora é 100% progressista e ESG. Essa gente não tem voto. Para se eleger, então, soltou da cadeia um ex-líder popular e fez um acordão para elegê-lo com um tucano velho na garupa.

Lula, candidato da imprensa paulista?

Lula foi eleito prometendo a quadratura do círculo. Na Fundação Perseu Abramo, de intelectuais paulistanos esquerdistas, dizia que comer carne era luxo, que pauta de família era coisa de gente atrasada, que a classe média brasileira tinha que se apertar como a europeia etc. Agenda verde na veia. Para o público geral, apoiava-se na inflação atual para prometer churrasco e picanha. Ora, ou bem você promete redução de emissão de carbono, de pum de vaca e de cabeças de gado, ou você promete picanha. É óbvio que um estelionato eleitoral será cometido aí. Ou bem Lula enganou os farialimers, ou bem enganou o povo. Tampouco, ao que me conste, a agenda verde entusiasma os coronéis baianos, que têm se empenhado em fazer obras e estreitar relações com a nada verde China.

No mais, lembremo-nos de como se portou a imprensa paulista nas últimas décadas: ela ora queria eleger o PSDB, ora queria derrubar o PT. De repente, passou a querer derrubar Bolsonaro e, não conseguindo cavar um impeachment, passou a querer eleger Lula. Quanto tempo vai demorar para quererem que Alckmin assuma? E quantos dos que arranjaram votos para Lula ficarão satisfeitos com a situação?

Em 2018, Alckmin não chegou a 5% dos votos. Teve um pouco mais do que Simone “de Beauvoir” Tebet, que nesta eleição se colocou como representante da “terceira via”, contra os “extremismos”. No frigir dos ovos, foi essa gente que lavou a imagem de Lula no Sudeste e possibilitou a sua eleição. Colocou-o para tirá-lo, ou para que governasse de maneira oposta à prometida: aí está o golpe.

Assim, o cenário plausível para os próximos anos é que um presidente desejado por 5% da população assuma, e que um paulista portador de calvície apronte mil confusões com sua canetinha mágica. Enquanto isso, a população continuará do mesmo jeito que está há nove anos: nas ruas, protestando.

Vem muita turbulência por aí.

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