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A quebra de laços de solidariedade é uma marca do totalitarismo.
A quebra de laços de solidariedade é uma marca do totalitarismo.| Foto: Bigstock

Faz já uns anos que a política tem feito as classes médias e as populações urbanas brigarem. Pelo DataBruna, porém, a pandemia tem sido pior do que as eleições. As eleições pintavam os eleitores de Bolsonaro como nazistas espancadores de gays. (Tenho em mente as suásticas em banheiro de federal ganhando destaque no noticiário da noite. Quem conhecesse as federais e tivesse um mínimo de bom-senso saberia que aquilo foi feito por militante de esquerda que queria caricaturar a oposição. Até foram descobertos militantes que se revezavam entre pichar suástica e pichar #EleNão). A demonização dos eleitores de Bolsonaro engolfou também os que iriam votar branco ou nulo, considerados corresponsáveis pela morte de negros, mulheres, quilombolas, LGBTQUIABO, anões, obesos, celíacos etc.

Não pretendo aqui dizer que os bolsonaristas eram santos. Acontece que a responsabilização do eleitor por crimes de lesa-humanidade não era uma prática dos bolsonaristas. A pegada deles era diferente: tendiam a considerar que a maioria dos não-eleitores de Bolsonaro não tomou a red pill e, por isso, vota nos candidatos da Matrix. Eles tratam a oposição como fruto de desinformação, não como crime. Considerar oposição sinônimo de ignorância é arrogância; já considerar oposição sinônimo de crime é totalitarismo.

A maioria não levou a ferro e fogo essa propaganda de difamação dos não-petistas. Afinal, os eleitores do PT não só eram minoria como essa mesma minoria não era majoritariamente composta por fanáticos dispostos a romper com família e amigos. Não teve uma adolescente quadragenária no Roda Vida dizendo que não dava para passar o Natal com o pai por ele ter votado no candidato vitorioso e aprovar o governo? Essa conduta era rara na população geral; era mais coisa de panelinha progressista.

Mas agora, com a pandemia, muitos nem têm mais Natal, já que a festa foi reduzida à condição de “aglomeração” e os familiares passaram a ser encarados como material biológico suspeito, em vez de gente.

A religião da ciência

Dessa vez, a noção de crime migrou da religião política para a religião da ciência. Se antes era algo abertamente político dizer que os não-eleitores de Haddad tinham sangue nas mãos, porque eram os petistas que estavam dizendo isso, agora são as TVs e os jornais, o DEM e o PT, os governos dos EUA e da Europa, a ONU e a OMS, que garantem que quem não quer se submeter a testes com vacinas, nem ficar em casa eternamente, nem usar máscaras, tem sangue nas mãos.

As pessoas que de fato acreditam nisso estão trancadas em casa, deprimidas. Estão há mais de um ano vendo redes sociais e televisão. Na flor da idade, acham espirituoso dizer que, por medo, não fazem sexo há mais de um ano e começam a fantasiar Renan Calheiros. Querem voltar a ter uma vida normal e acreditam que os profetas da ciência os guiarão para a Terra Prometida. Ao mesmo tempo, ouvem que isso só será possível quando todos os incréus fizerem a sua parte.

Assim, se a criatura está deprimida em casa vendo CPI e Instagram, de quem é a culpa? De quem não quer tomar vacina experimental, de quem não quer usar máscara para sempre, etc. O familiar e o amigo são vistos, então, como diretamente responsáveis pela sua infelicidade. E são vistos como criminosos, com sangue de meio milhão de mortos nas mãos.

Falta de fibra

O que se sobressai, no caráter desses devotos, é a sua falta de fibra. Ouviram que haveria um milhão de mortos por Covid até agosto do ano passado, mas continuam acreditando no Huno. Diziam que a Argentina, ao contrário do Brasil, “tem um presidente”, mas, quando a Argentina se sai pior do que o Brasil, não reveem a sua crença. Dizem que a ivermectina é ineficaz e criminosa enquanto a vacina chinesa é não só eficaz como necessária – mas o fracasso do Chile, que vacinou bem a sua população com a vacina chinesa, só prova que precisamos de ainda mais vacinas chinesas.

O G1 chegou ao cúmulo de botar aquela cantora da CPI aconselhando as pessoas a não acreditarem em teste de anticorpos e acreditarem que estão imunizadas mesmo sem anticorpos. Mas, mesmo estando imunizados sem anticorpos, mesmo acreditando na eficácia das vacinas, devemos praticar os ritos da máscara e do distanciamento ad infinitum.

São uns invertebrados que não querem pensar. Querem receber ordens de cima para se sentirem seguros. E, o que é mais desprezível, estão dispostos a colocar os parentes e amigos na cadeia, em prol do próprio bem-estar.

Essa pandemia quebrou laços de solidariedade que constituem toda sociedade saudável. A quebra de laços de solidariedade é uma marca do totalitarismo. Mas se nas ditaduras comunistas isso se fez com polícia, entre nós isso se faz por fraqueza de caráter.

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